Nem doeu...

 Passei o sábado lendo a autopornografia do Otto Guerra... NEM DOEU... e decididamente, me vi em varias passagens, inclusive naquele esquecimento na porta do colegio, na sensação de invisibilidade na infancia/adolescencia e outras tantas possibilidades e quebradas de cara, mas a diferença é que ele usou tudo isso pra criar, enfiou a frustração ou a dor no desenho, nas tentativas, na criatividade e nos projetos...ele contou as dores, terríveis, com graça, e talvez assim doa menos... e estou chutando essa interpretação, só pelo livro mesmo, por que sequer conheço o Otto, tomara que tenha sido mesmo assim... eu terminei o livro pensando, eu deveria ter aprendido a rir mais do que vivi e de mim mesmo, das tentativas esquisitas, as escolhas equivocadas, sem tanto, julgamento, auto-julgamento e punição.. com a leveza de quem esta tentando, e perdoando os que como eu, estavam tentando e muitas vezes também errando... Senti vontade de fazer uma especie de releitura do que doeu, nao o drama que fiz sempre,  sempre focando no quão vitimada eu fui,  o que "me fizeram", tao narcisista .. trocando de papel, eu ainda posso me perceber mais agente, muito mais atenta e botando luz, no que eu fiz com tudo isso... nao por acaso, logo que terminei e dei uma sonora gargalhada na ultima historinha, recebi um post que dizia: "para se amar é necessario nao odiar as experiencias que moldaram voce a ser quem voce é hoje" (Andrea Dykstra)

Ele, diferente de mim, parece que nao culpabilizou tanto os outros, ou ao menos deu um desconto, como pra mãe e seu gin, conseguiu ver também, o quanto de loucura e de cuidado, ela também estava disposta a fazer e fez, amor nao tem cartilha, e enxerga-lo em gestos outros, talvez seja uma forma de cura...ninguém faz exatamente o mal pelo mal...pode ser pollyanice, mas eu queria mesmo me convencer desse jogo do contente, as pessoas fazem, eu e tu também fazemos, o que dá, o que se consegue, a gente vai ate onde a perna pula, e tem buraco que é nosso mesmo, tem distorção que vai fuder a visão e talvez empurre alguns no buraco junto, mas, provavelmente, sem intenção...

Como esperar grandes demonstrações de amor e grandes vínculos de quem nao aprendeu isso la no inicio onde isso é construido? Como esperar presença de quem nao esta nem em si? Como cobrar sanidade de alguém que desconectou da realidade? Como cobrar lucidez de alguém que compulsivamente fugiu como pode, de um estado de lucidez, que doía?

Nao sei se estou sendo contraditória e provavelmente, por que estou tentando convencer a eu guriazinha, que insiste em voltar lá pro patio, sentindo um abandono danado e ficar esperando, que ninguém estava propriamente me abandonando, as pessoas costumam estar só ocupados demais com suas proprias dores, seu proprios abandonos, é uma especie de serie, que eu posso romper, simplesmente entendendo que nao é comigo, nao é pra mim, nem por mim, que a vida dos outros gira nos seus compassos...e talvez parar de esperar, o que nao era possível e talvez como o Otto, descobrir outras formas de preenchimento e outras distrações, que nao cavar mais e mais buracos...

E reconhecer as tantas pessoas fundamentais e as oportunidades,  que chegaram na hora certa, deram apoio, confortaram, deram ombro, deram colo, companhia, deram sentido e mesmo de formas diferentes das esperadas, me ensinaram e me possibilitaram a chegar ate aqui... 

Nem doeu...a gente dizia isso com o joelho sangrando...só pra nao parar de brincar ne?

Talvez crescer, seja reconhecer que doeu, mas valeu...e seguimos e principalmente, sacamos, seguindo, que a solução pra dor, seja querer seguir brincando ...





Comentários

inderbircabe disse…
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