... uma carta que certamente nao mandei...de lagarta para lagarta...
Das vantagens de escrever... essa carta tão lagarta, achei agora, catando a palavra AVESSO nos meus texto... queria saber se por acaso era minha essa... me descreve, mas talvez nao seja...se alguem souber a autoria me conta, pra dar créditos... a arte é minha...
... uma carta que certamente nao mandei...de lagarta para lagarta...
Às vezes vagamos em silêncio, com o olhar perdido em qualquer ponto, que não aqui ou visível, não somos boas companhia nem a nós mesmos, sempre lembro nessas horas, um poema do Prado Veppo: “há dias que o melhor seria morrê-los, mas como não podemos, dormi-los” ou realmente ter a possibilidade de contratar um dublê pra terminar a cena por nós...Ás vezes viver é sobre-humano.
Quando vagamos qual zumbi, não querendo encontrar ninguém, não estamos tendo energia nem pra ser...É uma sensação oca, que a gente preenche com palavras ocas ou se encolhe na dor e chora, ciente da nossa súbita inabilidade, nosso aterrador nada...Podemos também ir ao cinema tirar o foco de nós...Eu andei assim por um tempo: encolhida chorando no escuro do cinema...Estava feito um tatu-bola, qualquer toque me fechava, tinha perdido a capacidade de reconhecer o que poderia me fazer bem ou o que poderia me ferir, muita descrença e a constatação que a carcaça que eu havia projetado pra segurar todas as ondas, estava também cedendo, pelos buraquinhos invisíveis eu me sentia escorrer, estava dia-a-dia me perdendo...
Encontrei alguém num momento assim...E provavelmente por ter reconhecido como um igual, não temi e mais, contrariando o que seria meu estado não quero contato, gostei de estar perto, ficar em silêncio ao lado, gostei de andar de braços dados pela noite e de chorar muito próximos no cinema, gostei de falar e ouvir e me reconhecer em algumas palavras e histórias (projeção?), gostei das músicas que compartilhamos e das manhãs de domingo...
Mas na terça a noite, eu comecei a entender, estava de repente nos usando pra fantasiar uma possibilidade de recomeço, que absolutamente não poderia, por que eu não estou pronta e isso me veio claramente, quando meio bêbada disse: somos solitários, podemos nos acompanhar, tinha sonho romântico nessas palavras e um equívoco... Não estou pronta por que não quis me aprontar, por que não me dei o tempo necessário, por que guardei umas impossibilidades como eternas, por que tenho ainda muito silêncio e sonho desfeito pra digerir e transformar em matéria viva...E reconheci, tu também não está e é essa a tristeza que percebi atrás dos teus olhos e no teu caminhar, nas tuas palavras...Na quarta de manhã acordei com ressaca emocional e meio ressentida, doeu um pouco abandonar essa nova ilusão, num primeiro momento me pareceu que tu estava me tirando a possibilidade, de ter o que quis e acreditei que poderíamos . Logo percebi que não, eu era quem de um jeito estranho estava escolhendo viver menor. Lembrei de uma frase do Auster: “Quando um homem não tem pelo que esperar é melhor estar morto...” Foi assim que resolvi que quero a vida! Espero viver de um jeito inteiro, mais livre e feliz, esse será o próximo momento... pra isso chegar, preciso respeitar meu silêncio...respeitar meu momento tatu-bola, não preciso forjar sorrisos amarelos, nem tenho direito de trocar vazios com ninguém, não vou inventar uma nova paixão, (o que estava quase fazendo) o que até então era meu padrão de romper silêncios e buscar sentidos, não tomarei remédios pra dormir, evitarei as bebidas, lugares barulhentos e os alegres obrigatórios e compulsivos...
Eu estou lagarta e não quero fazer de conta que não...É casulo, é necessário, é um resquício de auto-estima e amor próprio não me obrigar a correr sem as mínimas condições, melhor permanecer nos boxes, como me aconselhou um amigo...Esperar que tudo isso se torne desnecessário e eu consiga voar bonito, como a borboleta que eu saberei me transformar...
Podemos nos acompanhar, não como uma possibilidade de amor novo....mas como lagartas em “hibernação”..como tatus-bola cúmplices, como seres similares nessa necessária espera, de ter energia pra desenvolver asas e cor... eu quero isso, vôo!
É bom nessas horas ter por perto alguém que entenda desse processo, que acredite nessa possibilidade de lagartas virarem borboletas, ter com quem dividir todo esse silêncio sala-de-espera. Se precisar, estou aqui...
beijo na testa

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