o prazer da hérnia...

Eu fui na infância, o que chamavam: um amor de criança, uma criatura obediente e comportada, que seguia regras como um cachorrinho adestrado ou um cavalo de carroça que não tem, graças aos tapa-olhos, a visão do todo.
Não pulei nem quebrei janelas, não desobedeci horas de sono e outras regras estúpidas, limpei o prato, arrumei a cama, não disse nome feio, não namorei escondido, não pulei muros, não roubei goiabas, nem laranjas dos pátios alheios, não rodei, nunca fui na sala da diretora, não xinguei nem agredi ninguém, não puxei a tolha da mesa para fazer cacos no chão (e sempre tive uma vontade danada de fazer isso), tive uma infância comedida, uma infância onde a proibição sequer ousou ser questionada...Uma infância de Não enfático, seguida de Sim cabisbaixo. Com isso, não apanhei de cinta, não ganhei castigo, mas também não aprendi meus limites...Fui de uma retidão deprimente.
Meus limites não foram adquiridos e testados por mim, foram impostos, eu só os acatei...e assim, acatando, virei boa moça cumprindo horários e regras que não criei, bem abafadas e condicionadas com o auxílio de uma culpa cristã marrom.
Estudei num colégio de freiras, e estudar nesse tipo de colégio ou atiça o pecado ou coloca tanta culpa em cima do corpo que ele mal reage, o corpo desincorpora.
Eu desincorporei por anos.
Mesmo querendo vez ou outra barbarizar aquela seriedade marrom e bege, nunca arranquei mantos sagrados, não levantei nem sacudi nenhum hábito, tinha curiosidades e pretendia descobrir pecados bem disfarçados na capela, que me aliviassem os desejos que cresciam silenciosos, mas nada...as freiras que me educaram, se pecavam, se escondiam muito bem para fazê-lo, de forma que cresci só imaginando as tantas coisas que aconteciam nas clausuras, nos confessionários, nas ante-salas, minha imaginação sempre foi muito mais despudorada que a realidade.

A "evolução" de um amor de criança e uma boa moça, seria uma linda noiva, uma esposa e mãe amantíssima, um felizes para sempre com casa quitada na caixa econômica...e foi logo nessa parte da história que resolvi me rebelar e gritar NÃO...Gritei muito e alto, para reconhecer minha voz e legitimar minha capacidade de fazer escolhas: Não e não e não! E talvez, só penso isso agora, depois de muita terapia, pra testar se esse amor que recebi seguindo regras, era real ou só premio por bom comportamento...
Antes da cena do bolo de dois andares e do vestido branco, fui ser livre, viajar de mochila nas costas, pagar minha contas, morar sozinha e longe de casa, ser dona dos meus horários, do meu corpo,da minha fome, da minha vida...
Quando tive minha filha sem um parceiro disposto a conversar com a barriga e compartilhar as contrações e todas as dores que vieram, suspirei o sim que desprezei e a família tradicional que não consegui criar. 
Naquela maternidade entendi que meu NÃO era só mais uma palavra, uma postura rígida, como o meu eterno SIM educado e decorado, era igualmente automático e cronometrado, meu Não também não me pertencia, não espelhava meu desejo, meus nãos eram ditados por outra boca , dentro de mim...um não reator, uma briga de rinha com o sim...

E foi ali exatamente entre as vértebras calcificadas do não e do sim, que criei uma hérnia, um escape, um desejo sem forma ou controle, uma dor que me lembrará pra sempre minha necessidade de um talvez. ..

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