sobre chover....

Talvez por que “chove na tarde fria de Porto Alegre” como tão linda e dramaticamente canta o Vitor Ramil …conversando com uma amiga, lembrei que antes eu demorava a desaguar… fazia frente fria… hoje, reconheci, sou uma chorona assumida e acho uma qualidade … pois, cheguei em casa e catei no computador essa frase… e achei, esse texto, felizmente já não me reconheci totalmente nessa descrição, mas compartilho, vá que sirva pra alguém… (nos comentários esse #tbt escrito)





Chove na tarde cinza de porto alegre.

E eu sinto que deveria chover também, tenho chovido pouco pro tanto de coisas que preciso lavar, não tenho lavado os cantos e tenho afastado as nuvens com a mão como se eu realmente tivesse esse poder, tenho acendido sol e luz artificial, feito arco-íris e lua cheia de mentirinha, só por que a luz e cor me fizeram muito falta e desisti de esperar que viessem de verdade.
Eu teria que chover dias inteiros.
Chover as injustiças, aquela criança dormindo enrolada num saco de lixo na praça e as outras tantas que encontro por aí e passo reto , sem saber o que fazer, chover meu desânimo, o descrédito, as esperanças que parecem estúpidas, chover a impotência.
Chover todas as dores que passei por cima sem chorar, todas as vezes que não parei pra consertar, chover todos os pedidos de desculpa ou de ajuda que silenciei e toquei em frente, fechando os olhos pros buracos que fui deixando no caminho.
Deveria chover os amores que não eram de verdade e me deixaram construir casas e sonhos em terrenos inexistentes.
Chover os filhos que só sonhei.
Chover os planos que aposentei
Os medos que disfarcei
A força que tirei a fórceps de dentro de mim.
As pessoas que desconheço, e eu mesma. Chover minha incapacidade de tentar nos desvendar.
Chover todas as musicas que me interpretam e machucam e por estar em lugares públicos, engulo em seco.
Chover cada brilho que perdi, cada cor e gosto que não encontro mais.
Chover todos os meus silêncios, todas as minhas palavras, as poesias e cartas que não chegaram aos remetentes, os torpedos sem resposta, tudo que só sonhei por medo de realizar.
É tarde
Estou cinza
Hora de assumir
essa calmaria
pré-vulcânica
que me desassossegou
toda a semana
rachaduras
desacomodações noturnas
disfarcei o que pude
minha natureza
queimei por dentro
fazendo frente fria
preciso
chover por dias
torrencialmente
e transbordar
enchente
Só espero que esse tanto de água, que eu preciso desaguar, faça verdadeiros arco-íris em algum lugar...

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