Espartilhos
Dia desses vi uma menina
recém nascida,
saindo da maternidade
e constatei que seguimos
nascendo com espartilhos
topes na cabeça
roupa cheia de frufrus
(com certeza sem nenhum conforto)
e brincos nas orelhas
esse ser valorizada pelo olhar do outro
foi meu grande e sufocante espartilho
me tirou a espontaneidade na infância
adiou os arroubos da adolescência
e acabou em relações heterossexuais
abusivas , por que o amor romântico
o “felizes para sempre”
e as famílias de comercial de margarina
pareciam pedir doses altíssimas
de abnegação
resignação
sapos engolidos
e um tipo de aperto
que foram ficando
cada dia mais sufocantes
…
aqui com quase 60
em véspera de vôo
ainda me pego
sofrendo com culpas
que a maternidade.
outro idealizado momento
(espartilho)
ainda teima em apertar…
parece que sempre sobrei
nos papeis todos
e para bem caber
precisaria me desfazer
ou me espremer
me moldar
nos contidos e míseros espaços
todas as estruturas tentaram me colocar
e eu acreditei necessários
e decididamente
não são…
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