um filme...em P&B

 Achei  esse Talvez pesquisando algo no computador, ha anos nao ando de ônibus, então por certo esse texto deve ter mais de 20 anos...e o que me deu um aperto aqui, é que provavelmente, essas vidas sigam sentadas em ônibus lotados, apesar do vírus, e muitos dos sonhos e dos empregos sequer tenham resistido...


            Ônibus lotado, chuva fina, cheiro de "cachorro molhado no ar", cansaço nas feições,  "em Brasília dezenove horas". Como sempre, olho as pessoas e as ruas imaginando cenas de filmes, com músicas marcando as ações, com detalhes de olhos, mãos calejadas que se esbarram, crianças chorosas, meu filme do dia-a-dia. Ninguém prometeu que a vida seria mais do que isto: 8 a 10 horas de trabalho, salários baixos, ônibus lotados e esse cansaço no fim do dia, que mal deixa espaço para sonhar ou fazer a vida ser mais do que esta seqüência cansativa, que registro.

            Quando se repete o mesmo caminho, acaba-se conhecendo as pessoas, mesmo sem intimidade sabe-se da vida delas, das cores que gostam de vestir, se deixam filhos na creche, se pegam mais de um ônibus, até se são felizes é possível adivinhar olhando fundo nos olhos.

            Meu filme, tem muitos personagens, como a dona Marta, que é governanta de uma "casa de ricos": "Gente muito boa, me tratam como da família. Estou lá há mais de quinze anos". Eu a vi comentar dia desses: "Agora, estão me ajudando a fazer minha casinha!".

            A moça bonita do batom muito vermelho, que apesar da maquiagem impecável, carrega um olhar desiludido e não fala com ninguém.

            Tem um senhor de uns setenta e tantos anos, franzino, que não pode se aposentar , carrega uma pasta de executivo muito antiga e uns olhos que ainda não cansaram, cumprimenta sempre efusivamente o motorista e educado oferece seu lugar à grávidas e senhoras, é um cavalheiro: " Lindo dia , não senhorinha?".

            O boy, parece ter nascido de hadphone e dorme em qualquer lugar que sentar, mas como por encanto, acorda sempre na parada certa, já cheguei a pensar que a fita que ele escuta tem uma espécie de alarme: "Aí, cara, chegamos!".

            A balconista recém-casada, ouvi os preparativos do enxoval, o crediário para a compra do fogão e da geladeira, o vestido "branco mas bem simplezinho", a festa pequena que fizeram, vi algumas fotos e ouço quando pede receitas para dona Marta: "E doce de leite, como se faz? O Jorge adora!". Percebo um ar de descoberta, de felicidade gostosa nos olhos dela, parece que o amor transborda, é lindo de ver, sempre melhora o ânimo do ônibus quando ela entra sorridente, onde senta, puxa assunto: "A senhora tem filhos? Eu e o Jorge estamos pensando em encomendar, recém casamos, então não sei se devemos, o que a senhora acha?". "Será que é verdade que a Caixa Federal vai reabrir os empréstimos? Nós queríamos tanto ter o nosso cantinho!". "Dia bonito, né? Eu imagino que Londres deve ser bem assim".

            Tem a Isabel, uma solteirona, que é "Secretária Executiva de uma multinacional" como gosta de dizer orgulhosa e com certa superioridade, sempre muito bem vestida e com cabelo preso num coque. "Estou pensando em aplicar minhas economias numa viagem. Queria tanto conhecer a Europa, mas do jeito que está... Talvez Buenos Aires, acho os argentinos tão... "calientes", conheces Buenos Aires?". "Tem também uns pacotes para o Caribe, mas sei lá, acho que prefiro um clima frio, acho mais fino, me imagino num café...".

            O Ademir, escriturário, trabalha num desses bancos que vivem demitindo, atualmente anda muito inseguro. "Sempre sonhei em ter meu próprio negócio, talvez com o fundo de garantia pudesse, será que vale a pena?" "Vê bem, tenho 32 anos, é agora ou nunca, né? Não quero ser empregado a vida inteira!".

            Tudo gente boa, trabalhadores, ainda sonhando, apesar de tudo, apesar do aperto, do cinza de quase todos os dias. Só não sei daquela moça bonita, que de tão maquiada nem parece real, e que  hoje, se não me engano, se não for rosto molhado da chuva,  está chorando... Esqueço por um momento meu filme e concentro a atenção na tristeza que percebo agora escorrer e borrar o rímel da moça, seu companheiro de banco é o boy, dormindo, inteiramente alheio. Avanço no corredor e a tristeza dela fica mais longe. "Um passinho a frente faz favor... Vamos facilitar a saída das pessoas, vamos colaborar pessoal!", diz Manoel, conciliador, apesar do cansaço, essa deve ser a milésima volta, mas ele não perde o jeito doce de sempre. Quase chegando na minha parada e penso em voltar, tocar no ombro, oferecer ajuda... Tão difícil demonstrar solidariedade, tão difícil romper a distância que ela sempre manteve de todos nós... Mas é preciso quebrar os muros, é preciso fazer alguma coisa. Poderia passivamente registrar no meu filme aquelas lágrimas negras correndo, usando no fundo uma música de Piazzola, mas se a moça bonita se permite chorar assim, na nossa frente é porque quer ajuda.  "Vamos tomar um chá e  conversar um pouco?". Ela me olhou agradecida, levantou e me acompanhou até minha casa, estava com o caminhar lento, como quem não quer ou não tem por quê chegar. No meu apartamento, mostrei as fotos da família, minhas viagens, dei chá de camomila, coloquei um disco do Piazzola e esperei que ela também quisesse se mostrar. Sabia desde o início, da tristeza dos olhos daquela moça e hoje queria ajudá-la, ser cúmplice. Chamava-se Inês, depois de muita conversa, muita lágrima, muita tristeza compartilhada, concordamos, às vezes fica difícil, às vezes fica impossível querer acordar pela manhã e repetir aquela maratona de minutos, tudo parecendo sem sentido... Talvez meu filme não possa ter um final feliz e termine em preto e branco, mostrando as lágrimas de chuva na janela e todos nós muito cinzas e acomodados ou talvez, o boy acorde e dance um rap no corredor, dona Marta nos convide para a inauguração da casa nova, a recém-casada mostre radiante o exame de gravidez positivo, talvez o Ademir consiga abrir um mini-mercado e nós, talvez um dia possamos congelar a cena num sorriso efusivo, numa  felicidade que todos merecemos... Talvez... 


ps- o filme é cada dia mais P&B...e cade a chance de um final feliz?


 

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