conheço mulheres fortes...

... não essa força de bíceps, algumas mal conseguem abrir uma garrafa de vinho, ninguém lhes deu esse legado, nem foi espada, aliás bem ao contrário, tiveram todo uma cultura patriarcal lhes sugerindo desde sempre, ser o sexo frágil e a "necessidade" de  ter um par, que lhes desse "sentido e força"... vivendo, minha amigas, se viram sozinhas, e assim descobriram a força que sempre tiveram...
Aprenderam, não sem dor, 
que em certos momentos 
ou a pessoa se fortalece ou se quebra...

             Conheci A: Que se apaixonou e fugiu de casa, rompendo com a família inteira por que não ficava bem se entregar a uma paixão e fazer filhos fora de um casamento formal, mas ela foi e fez e mais tarde foi abandonada com duas outras mulheres, que criou bravamente no meio de uma sociedade hipócrita e machista, que lhe julgou e lhe infelicitou e lhe amargou o tanto que pode, mas ela 
nunca se entregou...

 Conheci B: veio lá de uma cidade pequena pra outra lhe parecia enorme, se perdia nas ruas, tinha vontade de correr pro colo do pai e da mãe, chorava impunemente na rua (com um certo alívio, em cidade pequena isso era impossível), mas tinha convicção de que era uma escolha e que se desistisse, ia sentir-se um nada...Continuou, firme, até que essa cidade não lhe assustou mais, até já fazer parte, até já ser dona ou pseudo, do seu nariz.Tudo que chorou e enfraqueceu virou história virou base e lá estava ela, ganhando a cidade e a força!

    Conheci C: Cheia de planos românticos conhecer o mundo, junto com o namorado, o namoro acabou um mês antes da viagem, já estava de passagem comprada, planos feitos e foi, com um parco inglês e um livrinho de frases prontas, ganhar o mundo. Achou a Europa enorme, linda, conheceu o que pode, o que planejou, parou em albergues, de mochila nas costas,  conheceu o mundo e a ela mesma um pouco mais, furou uma bota de tanto andar...viajou sozinha, conheceu pessoas e voltou feliz!

        Conheci D: Ficou grávida, de um namoro longo, mas a relação não resistiu a essa novidade no percurso...Ela, que não queria abortar, descobriu uma força extra e ali com uma barriga enorme, tratou de traçar novos planos, casa nova, não tinha espaço pra enfraquecer, tinha uma vidinha por dentro, que precisava de luz e de todo o amor e força que ela conseguisse...E conseguiu! Não teve um pai pertinho, falando com a barriga e ajudando a segurar o “rojão”, mas foi na medida do possível uma grávida feliz!

       Conheci E: Que também como A, contrariando as opiniões da família, casou com um psicopata charmoso, que lhe roubou a paz, o dinheiro, a autoestima e só não foi infeliz “pra sempre”, por que amparada por uma amiga, vencendo todas as vergonhas e engolindo todos os sonhos, foi a Delegacia da Mulher e ao IML registrar ocorrência das agressões que sofria, por aquele amor "tóxico e abusivo"

     Conheci F: Que descobriu um câncer no seio e um companheiro que não tinha muita habilidade para tratar com doenças, que não sabia como encararia a quimioterapia e que muito insensivelmente resolveu que não estava “preparado” e sumiu.
   
                A vida não perguntou para A, B, C, D, E ou F... se estavam preparadas se apresentou e elas como aquele personagem desenho animado, se obrigaram a gritar: 
“EU TENHO A FORÇA!!!!!!"


Só que assim, algumas desistiram de fazer planos futuros, começaram a parecer totalmente independente, se convenceram que viajar sozinha é que era bom, que ir ao cinema sozinha é que era bom, que ter uma gravidez sozinha era bom, assim desse jeito torto e com muito choro na chuva, aprenderam a ser independentes, a usar furadeira, a trocar lâmpadas e resistências de chuveiro, a não pedir ajuda, a não depender de ninguém, a não esperar por ninguém...
Aprendemos todas a viver sozinhas, mas ainda precisamos nos livrar dessa pontinha de desassossego de que vez ou outra nos lembra, que essa solidão não foi escolha. Para algumas virou tese, virou defesa, virou talvez dureza e negação, nos afastando de um tanto de sonhos que por falta de espaço, parceria ou viabilidade, resolvemos desconsiderar.
O fato é que o patriarcado, Walt Disney e Hollywood tem uma dívida impagável com todas nós: DANOS MORAIS, estamos desde o útero aprendendo a nos considerar metades, a nos adaptar e nos encaixar, nos negar e a sonhar que a tal felicidade vem num encaixe perfeito, vem em formação de dupla, a suspirar uma idealização em forma de encontro, algumas ainda carregam como "constrangimento": a mesa só pra um? quarto de casal?
ah, sim temos os custos altos de tudo isso... dano material também....processo riquíssimo!
              
Cada uma dessas vidas, todo o abecedário de mulheres, são lindamente potentes e lindas, renderiam séries da Netflix, onde a gente teria a chance de chorar e gargalhar na mesma medida, se tivéssemos a pratica de sermos reais e assumir os infinitos que somos, também nas redes sociais, essas vidas renderiam posts bonitos de Instagram e stories fenomenais, onde assumiríamos que somos todas assim: frágeis e fortíssimas, tesudas e desengonçadas, felizes e tristes, sozinhas e acompanhadas, querendo as vezes amores que sejam montanha-russa e e noutras que sejam pátio, querendo sossego num abraço ou a delícia de se espalhar na cama toda sozinhas, tanto a ser, reconhecer e compartilhar... só precisamos nos reconhecer, ser de verdade, nos mostrar, nos acolher, aprender a pedir ajuda, a formar boas redes de proteção e encontrar melhores parceiros de viagem....
 “Ter a força” é não desistir!


ps-Grata as meninas do Sarau Nosotras, por me lembrar ontem a noite, da força que é ser mulher e da necessidade e beleza de ter uma rede de mulheres pra contar!

Comentários

Unknown disse…
Cada vez que leio uma poesia me sinto forte com suas palavras. Quando a dor nós faz forte, conhecemos tantas habilidades. Obrigada minha amiga por me emprestar essa espaço de esperança para viajar nas leituras.

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