pra me lembrar feliz...

 O Gabriel Garcia Marques começa seu livro "viver para contar" dizendo: " a vida nao é a que se viveu, e sim a que se recorda, e como recorda para contá-la "

Ontem me dei conta, ouvindo umas memorias tão iluminadas, felizes e com cheiro de mato, flor, rio e peixe...que tenho reforçado demais algumas lembranças tristes e esquecido de catar a cor , as delicias e os bons cheiros que lá atras tambem senti... O carinho com cheiro de leite de rosas da vó Alice, a delicia de dividir a cama com ela e sossegar agarradinha na pelezinha dos braços, as bolachinhas deliciosas que levava bicarbonato e ela fazia, as broas de polvilho, o fogão a lenha sempre quente e bonito no canto da cozinha, o corredor de hortênsias que já era um bem vindo antes mesmo de se chegar na casa, as arvores frutíferas carregadinhas, um luxo de quem tem pátio e o do vó era grande, tinha muitas arvores: ameixas amarelas, goiabas rosa parreira, laranja de umbigo comida em gomos, meu pai sabia descascar sem romper a casca e era como mágico toda vez que fazia isso, os moranguinhos num vermelho denso que já nem encontro mais...o lobo, meu cachorro, papagaio, as galinhas e os ovos que recolhíamos, a vaca holandesa do tio Leo que ficava no pátio e garantia muito leite, manteiga e queijo, os pães caseiros da tia Marli, os sonhos recheados, as tardes no clube náutico, a piscina ficava ao lado da casa da vó.     E as idas no caça e pesca pra passar o dia, o cheiro do protetor pra pele, que tinha no logotipo uma menininha com o biquini puxado por um cachorrinho...(como chamava?), os cafés da tarde, que amo ate hoje, os alfajores, quesos e dulce de leche da Argentina, o cheiro de lã e de gostosura que as ruas de Alvear tinham, tambem os cheiros de primavera, que era como eu chamava uma arvores bonita com flores roxas e brancas e muito cheirosa que floresciam por lá... o silencio das sestas e das ruas desertas do outo lado do rio, que parecem, agora que já tenho o cinema como auxiliar de memoria, cenários ... onde vez ou outra passava voando um mato seco enrodilhado...acho que aquele deserto de gente me dava um pouco de medo, mas era engraçado imaginar que por detrás de cada postigo cerrado, as gentes dormiam de camisola e pijama ( diziam que eles dormiam  isso) mesmo com o sol a pino..

vou ficar catando lembranças e deixar de me fixar nos olhos tristes da guriazinha que ficaram registrados nas fotografias, eu precisava talvez uma fotografias sorridentes para me lembrar leve e feliz...

ficaram as nuvens, formando imagens de todo tipo, meu brinquedo favorito, eu rezando missas e partindo bolacha maria como hóstia... eu decorei a missa, e por algum tempo nao sabia onde o pai nosso terminava, por que emendava ... com o "livrai-nos de todo mal o pai, e dai-nos hoje a vossa paz e ajudados pela vossa misericórdia sejamos sempre livres do pecado, enquanto vivemos a esperança aguardamos a vinda do Cristo salvador, vosso é o reino, o poder e a gloria para sempre, amém"... ainda sei de cor...  fui bem colonizada ...em culpa, castigo e todos os assemelhados... mas quero lembrar de coisas boas, entao lembro de ser escolhida pra fazer o discurso de formatura de jardim para o primeiro ano, e de ter corrigido meu jeito cebolinha de falar sem o R, ali no palco, compenetrada dizendo o discurso que a mãe, ensaiou comigo.

Lembro do fusca branco do pai, que nos levou pra Santa Maria, mas antes, nos levava pra passear, pro clube de caça e pesca, banhado pelo rio uruguai, lembro que um dia meu pai caçou um tatu e colocou o bicho ali, que acordou e corria de um  lado pra outro, hoje eu riria da cena ... aquele bicho deixava o fogao empestado do cheiro dele, mas nao lembro do gosto...sera que eu gostava? Lembro do gosto do peixe dourado, carne branquinha, posta grande, uma delicia que nunca mais comi... é proibido pescar sera?

lembro das Páscoas e das cestas que decorávamos com papel de seda, os ovos de galinhas pintados com o mesmo papel e que ganhavam amendoim com açúcar no recheio.

lembro da bola enorme e cor de rosa que ganhei do papai noel, da monareta verde, do colegio das madres, as saias de prega de um xadrez com verde miúdo e camisa branca, do cachorrinho que vestíamos , eu e minha amiga de infância, com os vestidos de crochê feitos pela tia-avó que eram da beijoca... uma boneca cara que eu pedi e parece que ate empréstimo precisaram fazer pra me dar de presente...

vou ficar catando em mim, outras cenas e gostos, pra me recordar feliz ao recontar...




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