em tempos de pandemia, outras formas de conexões...
Entrei num Cineclube, uma forma de ver cinema (que eu amo) só que em casa e a possibilidade de participar de discussões posteriores, em zoom... isso é uma das grandes graças que esse tempo me trouxe, a mudança de padrão, o aceitar de um novo formato, o prazer deu outro jeito, mil coisas, a alegria de ter a internet possibilitando tanto...
Sao tempos loucos, de valores absurdos sendo mostrados nas ruas, de intolerâncias, de agressividades, de comportamento egóicos e completamente displicentes com os demais...tempos tristíssimos de milhares de mortes, que mesmo sabendo os números nao parecem reais..., tempo de fome, de desempregos, de empresas nao conseguindo se manter, um tempo onde quem pode, fica em casa, se distancia, e nao se coloca e nao coloca ninguém em risco... isso faz, quem pode e tem alguma consciência e pensamento coletivo...ah, sim tem também os coletivos, as ONGs, as organizações nao governamentais garantindo alimentos e alguma dignidade pra tanta gente que se tinha pouco, hoje perdeu tudo...
Mas voltando ao cineclube, quem me convidou foi a Lilian Tiemi - Especialista em desperdícios, que também conheci on Line e tem me apresentado ótimas conexões, como essa, o Cinema em casa é da Casa Séfora, uma casa de Cultura de Natal, em associação com o Cine Belas Artes de SP e com gente que eu dificilmente conheceria, apesar de termos todos, esse gosto por cinema e boas divagações posteriores, programas que a pandemia garantiu, e eu gosto muito...
O filme de ontem, o francês "O gosto dos outros" que eu ja havia visto ha anos atras, e foi muito interessante rever, o que ficou claro, é que foi outra nadia quem assistiu ontem, reconheci sem duvida, eu estava olhando e sentindo diferente, o que na primeira vez me chamou a atenção, nessa nao bateu da mesma forma....gostei tanto de me perceber mudada, e principalmente de me afeiçoar e me encantar mais com as possibilidades e nao com as impossibilidades, que o filme mostra...com as mudanças bonitas e sutis que os encontros e a arte são capazes de fazer acontecer ...
Hoje, vim aqui no meu arquivo do computador, para tentar descobrir o que a Eu de 2002 estava vivendo pra ter, visto tudo com um outro olhar , tao mais descrente e embaçado, na primeira vez... Nao achei, mas encontrei esse texto, falando do quanto estávamos no automático e o quanto incomodada eu estava, em 2005, com a desimportância de coisificação que estávamos, deixando tudo passar sem cuidado, emoções nao vividas e sentidas... Quando eu poderia imaginar, que 15 anos depois, estaríamos forçosamente tendo que parar e repensar posturas... e formas de conexões...
Vai o texto antigo pra me relembrar... algumas dessas coisas eu sigo querendo ainda...
Sábado, Junho 11, 2005 ]
Tem me batido uma certeza por esses dias, estamos perdendo um tempo precioso, nesse tempo que já não damos, para as palavras e as emoções aflorarem.
Estamos perdendo muito tempo, não querendo perder tempo. Estamos atropelando os sentidos. Nada é assim degustado com o prazer e com a lentidão necessária, tudo numa corrida maluca, tudo com cronômetro, tudo metralhado: informações, palavras, filmes, músicas, gente. Nessa de não perder tempo, perdemos todo o resto.
As pessoas estão num tal descompasso e distanciamento emocional, que mal se olham já grudam, mal se tocam já transam, mal se conhecem já se esquecem, não quero parecer uma antiquada, mas tudo isso me parece com um trecho de uma antiga música do Cartola:
"ainda é cedo...
mal começastes a conhecer a vida
já anuncias a hora da partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar...
em casa esquina trais um pouco a tua vida
e eu pouco tempo não serás mais o que és....
...o mundo é um moinho
quando notares estás à beira de um abismo
abismo que cavastes com teus pés".
Dessas relações (que nem isso são), desses contratos urgentes, me fica escancarada à impressão de que muitas pessoas entraram nessa ciranda propositalmente fugindo do amor, do silêncio e de si mesmo.
Mas não quero falar só de amor, mesmo que ele me pareça a maior vítima dessa pressa toda, por que já não nasce.
Quero falar de ritmo, me cansa essa urgência, tenho certeza que estou perdendo tempo quando não me permito um tempo.
Não pertenço a esse século e talvez isso explique tudo: quero dançar música lenta e não esses ritmos alucinados, quero a roda de viola e não o mega show onde só pelo telão vejo alguma coisa, quero a bateria de verdade não a eletrônica, quero os filmes com tempo real e emoção idem como o francês "confissões muito íntimas", não quero ficção americana e seus filmes super editados e nervosos, mil vezes um almoço de verdade e um fast-food, tudo bem que um e-mail tem sua importância mas eu quero ainda receber carta, tudo bem que o celular tenha sua utilidade, mas quero só ás vezes encontrar de surpresa, e receber bilhetes ao invés de torpedos, quero serenata, quero silêncio, quero ler livros e não textos em computador, quero conhecer pessoas conversando e olhando nos olhos, não pelo orkut e pelos chats e quero principalmente conviver, admirar e querer muito antes de beijar.
A idéia que me vem desse tempo em vertigem é moinho e logo em seguida abismo e se querer diferente disso seja alucinação e viagem, tchau fui!
Segunda , Maio 10 ,2021
... e a possibilidade de parar, me fez valorizar, ainda mais, o tempo precioso de quase tudo ...

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