Esconderijo

Descobri meu lugar, onde consigo ser todas as outras que me habitam, sem conflito.
Sentindo falta daquela eu interiorana, que como criança, acreditava nas pessoas, nas boas intenções, acreditava em tudo incontestavelmente, saio a me procurar nas ruas do IAPI, cumprimento àqueles poucos que ainda sentam nas calçadas, me vejo nas crianças que brincam na rua e prossigo.
Para esquecer de mim, me exilar, caminho na rua da praia, ao meio-dia, sinto a pressa das pessoas, a neurose cronometrada do centro da cidade e sou ninguém tranqüilamente.
Quando romântica, querendo enxergar beleza, sento na beira do Guaíba e vejo ele receber brilhante, o sol que se põe vermelho, para mim e para alguns casais que se beijam e silhuetados, viram um só.
Se acordo subitamente comunicativa e quero encontrar e abraçar pessoas, procuro o Brique aos domingos e muito sociável, tomo chimarrão e sou feliz.
Querendo extravasar, xingar, gritar, vibrar, sentindo a força de ser massa, vou a Esquina democrática e sinto a força de ser multidão.
 Quando quero me sentir na Europa, caminho entre os plátanos do DMAE da Vinte e Quatro, sonho piqueniques, crianças, pandorgas, ou caminho no centro histórico tomo um café no Teatro São Pedro, passeio da Casa de Cultura, no MARGS, no Santander , imersa em arte, me sinto no primeiro mundo e me orgulho.
Para me tornar mais humana e exercitar empatia, encaro as crianças crescendo na rua a falta de perspectiva dos sem-teto que crescem dia após dia, nos sábados posso ir ao Viaduto Leopoldina ver e ajudar no trabalho lindo do PFdasruas.
Quando preciso natureza, vou aos altos do Morro do Osso, viro mato, caminho olhando pro céu e os verdes ou me permito uma sombra no Parque da Redenção e viro árvore, vento.
Para sentir a leveza, o descompromisso, a sensação de “beira-mar”, passeio por Ipanema, tentando esquecer que poderíamos andar por ali de biquini e nos refrescar, se não tivéssemos poluído tanto o nosso quase mar.
É assim, olhando e me encantando com os detalhes, caminhando entre plátanos e jacarandás por tantas ruas mágicas, que vou compondo meus pedaços, vivendo minhas metades, fazendo de Porto Alegre meu esconderijo.










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