das perdas & ganhos
"perdi
colegas,namoradas,caes.
perdi
arvores, pássaros,
perdi um rio
e eu mesmo nele me banhando.
isso o que ganhei: essas perdas.
isto o que ficou: esse tesouro de ausências." poesia de Rui Espinheira Filho
Assim como o Rui, a gente cresce se apegando no "havido", nos ritmos que já nos tocaram, caso a alma esteja um pouco sofrida, podemos nos apegar na dor, pra não conhecer dores novas e novos riscos, podemos.... é meio deprimente guardar tesouro de ausências, e não de presenças... talvez até guardar esperas fosse mais ganho, não a espera passiva de quem vai ganhar, mas de quem vai buscar... tesouro de buscas, de planos, de utopias, de quereres que nos empurrem pra frente..." a utopia, lá longe é o que nos ajuda a caminhar" como bem lembrou o Eduardo Galeano.
Mas normalmente, nos alimentamos de nãos...e nós... bem danados de desamarrar... nos "maneamos" como diriam em Itaqui...
"tem mais presença em mim o que me falta" me disse o Manoel de Barros, quando eu também me alimentava de vazio... vez ou outra ainda faço isso, "é humano, demasiado humano", pode ser vício... Podemos inventar um antes, esconderijo, "perfeito" na nossa edição de verdades, a mente é eximia nisso, em reinventar o passado, de um jeito que nos justifique...não posso ser simplista, as vez não é invenção, mas que é foco, não tenho duvida, é colocar luz direta e forte escurecendo todo o resto em volta, impedindo até nossa própria clareza ao enxergar...
Mas voltando a poesia do rui, que estava em meus rascunhos desse blog abandonado, entre tantos inícios e ideias que não dei prosseguimento...ela ficou aqui, pra me fazer pensar e confirmar, não se perde nada do que se viveu... simplesmente nada, tudo é matéria prima, desse emaranhado que nos sustenta...
...eu sei que os esconderijos muitas vezes viram clausura, abafados e claustrofóbicos, e mesmo assim, ah que incongruência, é pra lá que queremos as vezes voltar... sera pela sensação de voltar ao útero? uma volta ao antes da violência do mundo? uma tentativa de fugir dos olhares que nos negaram a aceitação e novamente aconchego?
Esconderijo
O
que deixou
de ser preenchido
ocupa um espaço absurdo
por dentro...
um vácuo
talvez intransponível
de expectativa frustrada,
muro,
dique,
nada
de ser preenchido
ocupa um espaço absurdo
por dentro...
um vácuo
talvez intransponível
de expectativa frustrada,
muro,
dique,
nada
o difícil é reconhecer esse nada, se adonar dele e pensar, a serviço de que vem a dor e o esconderijo...e assumir qual parte vamos deixar comandar, a que se esconde, a que coloca os escudos, a que se fecha, a que se resguarda...a quem vamos dar a voz? quem vai falar por nós?
eu tenho no meu havido, um pátio que virou metáfora e inspiração de mil sensações e poesias.. o tanto que me adocei naquele pátio é equivalente a solidão que senti por lá, mas é de lá que vem todo o barro que me reconstitui... é por isso que eu digo: amor é pátio, não montanha-russa ... por que amar é também se deparar com a nossa solidão e nossa vulnerabilidade...
Se eu estou conseguindo?
Eu mal saí do útero e ainda me ressinto com tudo que não ganhei, ainda me escondo no pátio, as vezes brinco e finjo que as goiabas todas são deliciosas e sem bicho, e noutras vejo os bichos muito maiores que são... estou tentando, tateando nos meus escuros, mas não estou parada esperando, como se ainda não soubesse andar, sei, que mesmo com medo é preciso ir, dói, mas as vezes vem uns sopros de pronto pronto passou, vem uns olhares que mesmo me enxergando integralmente me aceitam, me encorajam e me amam...é neles que eu quero crer...aprender a me alimentar de sim...e ter gratidão por esse amontoado de presenças que me fazem querer nascer...nascer demora!

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