medos travestidos de certezas e verdades...
Tempo de poucas e estéreis palavras, pode
ser o tempo ou a vontade de não ter conceitos e desfazer “verdades”, a incômoda
sensação de que as certezas foram invenções, criadas pela necessidade de
controlar, delimitar, forjar uma normalidade e sossegar ou pior, foram medos travestidos.
Só que o sossego não vem quando a
consciência desperta e todos os conceitos ficam frágeis e burros.
Revendo desde o início, como se criam
os conceitos? A partir de experimentação, que é o jeito mais real ou por cópia
e aceitação plena do que alguém julgou verdade.
Darei um exemplo bobo, um cachorro
morde um bebê, por experimentação ele pode concluir que cachorros são animais
perigosos e que fazem “dodói”. Criou-se um conceito, um medo e talvez um
trauma. Porém pode ser que logo em seguida outro cachorro chegue perto do bebê
e em vez de morder lamba e faça brincadeiras, boas chances do conceito ser
ampliado, e que o bebê reconheça que existem cachorros que mordem e cachorros
amigos. Pode ser também que a mãe do
bebê tenha sido mordida e receie pelo filho e para “preservá-lo” incuta o
conceito de que cachorro é perigoso. E assim infinitamente, criam-se conceitos,
pré-conceitos e toda uma série de dificuldades.
O fato é que criamos uma rede de
verdades e certezas e estruturamos o que seja “nossa personalidade” encima de
conceitos, que podem ser falhos e mutantes, mas que custamos a reconhecer por
uma necessidade bem infantil e maniqueísta, de sabermos quem é bom, quem é mau,
o que é certo, o que é errado, o que podemos ou não podemos fazer, nisso se
baseiam os contos de fada, nisso se baseiam as religiões, nisso nos baseamos
quase todos os dias diante de situações, que só não são mais extremas, por que
já estamos vivendo e bem acomodados na engrenagem que nos moldamos, para sermos
aos olhos alheios e aos nossos, seres bem ajustados.
Ah, quanta estupidez já fizemos em prol
da normalidade, quando desejo virou abstração para correspondermos a papéis,
metaforicamente quanto cachorro querido foi enxotado por temermos mordidas.
E assim queremos que os outros
correspondam as nossas expectativas e façam jus aos carimbos e verbetes que
escolhemos dar a eles, como um dicionário passamos a catalogar pessoas e
sensações, com o propósito de não sermos surpreendidos, se estamos construindo
nosso eu em cima de bases tão frágeis e encima de relacionamentos, é normal que
sejamos muitos duros e críticos com qualquer mudança brusca que possa fazer
desmoronar todo um lado da nossa construção. Por isso ás vezes preferimos a
mordida á brincadeira, por que reforça nosso trauma, por que reforça o nosso
eu, e não nos coloca na situação limite em que me encontro agora, de duvidar
das certezas.
Milhares de vezes ao nos relacionarmos,
e é nos relacionamentos que mais utilizamos mecanismos de defesas e “carimbos”,
repetimos textos e cenas, ás vezes inconscientemente ás vezes não, mas
repetimos ações que não nos servem e/ou nos infelicitam, por que em algum
canto, criamos conceitos como: “os relacionamentos fazem sofrer”, “ felicidade
é coisa passageira”, “os homens são todos iguais”, ou qualquer outra estupidez
do gênero, damos de ombro e seguimos a dinâmica e não estamos buscando ser
felizes e plenos, estamos unicamente reforçando o conhecido, criando novas
bases para o trauma, justificando nossas deficiências em cima das deficiências
alheias, o que é racional, prático e terrivelmente triste.
De onde surgiram os teus conceitos? E
os pré-conceitos? Quem é teu fornecedor de carimbos? E isso te garante? E isso
te faz feliz?
E quem é essa pessoa que te dita
regras e te atordoa internamente? Esse é teu EU? E de que te serve um eu criado
assim, cercado, delimitado e medroso?
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