nas chuvas do meu passado...

naquele tempo
quando o céu ficava cinza
uma velha brigava com o vento
cobria os espelhos
e guardava palmas bentas
pras tempestades
eu criança e alheia a tudo
brincava na chuva
com bolitas brilhando nos olhos
fazia arco-íris
lá, eu tinha todo o tempo do mundo
e infinita
não tinha medo, nem gripe
.....
Lembrei como as chuvas, e não as palmas, me pareciam bentas na minha infância, eu gostava de comer chuva, rindo de boca aberta, eu me sentia livre e solta, eu morava perto de um rio que ás vezes subia e nos fazia passear de canoa, foi isso que ficou, nada era realmente trágico aos meus olhos, nada...Tudo de alguma forma era uma nova possibilidade de brincadeira.
Procurando o olhar de uma menina que me fez lembrar a importância de brincar, achei a Roberta que numa janela agora on line, continua rindo e abanando, como antigamente, mas acima de tudo, tentando fazer o bem...
A menina que me tocou ontem, é uma dentre os tantos desabrigados pela chuvas no Rio, perdeu toda a família. Num desses exercícios de maldade que me parecem ás vezes o jornalismo, foi levada pela equipe da Rede Globo de volta ao morro desvastado pela água. Olhava ao longe, sacudia a cabeça e enumerava: "ali tinha a nossa casa, ali uma creche, ali era a nossa vizinha...Agora, eu vou ficar na minha tia por uma semana e depois vou ter que tocar a vida."
A capa da veja que traz o Cristo Redentor chorando diz: "Culpar as chuvas é demagogia. Os mortos do Rio de Janeiro que o Brasil chora foram vítimas da política criminosa de dar barracos em troca de votos".
Essa menina pouco maior do que eu na chuva das lembranças, nunca experimentou a sensação de eternidade, aquele olhar duramente amadurecido provavelmente nunca terá a leveza minha e da Roberta ao lembrar das águas, aquela menina e tantas outras já nasceram sob o signo do medo e do desamparo, são vítimas sem o direito abençoado de serem crianças e eu sofro e fico cinza por todas elas...
A chuva sob o olhar do meu amigo Alexandre Godinho.
Comentários
E que o preço dessa tragédia não se reflita em milhares de infâncias interrompidas. Vamos torcer.
Como vc escreve bonito, menina, parabéns.
Estou te lincando lá no blog.
Beijos e tudo de bom,
Roberta