Lembranças...
A Carmen me lembra um Drummond lindo nessa tarde cinza:
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO- Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Me deu uma vontade danada de mexer nas minhas memórias e descobrir o que me fez minha própria Itabira..
Eu nasci em Itaqui
lá onde a terra é solta
e o rio Uruguai sobe e desce
deve vir de lá minha necessidade de pés descalços
e mãos lambuzadas de barro
essa minha ânsia de pátio e pandorga
e uma sensação de enchente
que vez ou outra me transborda
tenho almofadas de chita
e gosto por árvores, luas e alfajores
que aprendi por lá
tenho vizinhos a quem dou bom dia e pergunto um pouco da vida
restou minha curiosidade infantil e interiorana
nessa cidade grande que escolhi
tenho saudades
de noites, grilos e
cadeiras nas calçadas
como um porto dde calma em mim
tudo misturado com um vento norte
de uma outra cidade que me habita
Estou tão longe, anos luz
felizmente a opinião dos vizinhos
que moldava passos antes
hoje já não me abate
ainda assim o orgulho besta
que aprendi por lá, permanece
como as ruas de pedra, inalterado.
Mas Itaqui, diferente de Itabira
não me dói...
me acalma e me conforta
como café da tarde
Itaqui me reconstrói...
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO- Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Me deu uma vontade danada de mexer nas minhas memórias e descobrir o que me fez minha própria Itabira..
Eu nasci em Itaqui
lá onde a terra é solta
e o rio Uruguai sobe e desce
deve vir de lá minha necessidade de pés descalços
e mãos lambuzadas de barro
essa minha ânsia de pátio e pandorga
e uma sensação de enchente
que vez ou outra me transborda
tenho almofadas de chita
e gosto por árvores, luas e alfajores
que aprendi por lá
tenho vizinhos a quem dou bom dia e pergunto um pouco da vida
restou minha curiosidade infantil e interiorana
nessa cidade grande que escolhi
tenho saudades
de noites, grilos e
cadeiras nas calçadas
como um porto dde calma em mim
tudo misturado com um vento norte
de uma outra cidade que me habita
Estou tão longe, anos luz
felizmente a opinião dos vizinhos
que moldava passos antes
hoje já não me abate
ainda assim o orgulho besta
que aprendi por lá, permanece
como as ruas de pedra, inalterado.
Mas Itaqui, diferente de Itabira
não me dói...
me acalma e me conforta
como café da tarde
Itaqui me reconstrói...
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