quinta-feira, 17 de maio de 2018

O que andei desaprendendo...

encontro essa frase rascunhada por aqui...e um texto de um outro tempo, como meu pai ainda estava vivo, deve ter bem uns 10 anos, essa minha descrição do que seria IDIOTIA... talvez eu andei desaprendendo a ser leve e feliz...e tudo isso veio aqui hoje, UM NOVO DIA...pra me lembrar...

Idiotia
Li uma auto-definição do cineasta Fernando Meirelles : “eu sou um otimista incorrigível.Beiro a idiotia”.
Gostei dele se definir assim e entendi o filme Cidade de Deus ser o ponto de vista de um dos moradores que conseguiu não se contaminar, o que dá um alento, o meio não precisa necessariamente fazer o homem, o homem pode escolher, mesmo a duras penas, refazer o script, ser melhor, ser maior. E viva o otimismo!
Identificação imediata, talvez eu nunca tenha me achado otimista, mas nos últimos tempos, tenho sido além da conta, uma crente: pode ser melhor, se quisermos temos boas perspectivas, é simples e depende de cada um. Viu, também beiro a idiotia, e por mais estranho que possa parecer, beirar a idiotia, me faz melhor!
Dia desses estava com a minha filha indo ao supermercado e meu pai e minha mãe a passos mais lentos nos seguiam, por uma felicidade que nem lembro agora o motivo, ríamos nós duas, complementando a sensação fazíamos uma coreografia toda nossa e ríamos um pouco mais, quando finalmente nos alcançou meu pai me disse: Te vendo de longe, parece que tu é meio “abobada”. E foi o que eu disse pro meu pai: É verdade, ás vezes me sinto tão feliz, que acho mesmo abobada!
Os abobados ou abobalhados seriam assim meio alheios, meio fora do contexto, meio desligados por não estarem decididamente dando a mínima pros comentários e pra realidade externa. E entendi aquilo, mesmo que não tenha sido a intenção, como um elogio.
Esperar grandes feitos pra só depois disso ser feliz, pode ser um jeito bem racional de NUNCA ser feliz, é aquele velho papo de esperar uma ocasião especial pra usar uma roupa, um jogo de jantar, um perfume, esperar se formar, viajar, esperar casar, esperar ter filhos, ou esperar que eles cresçam, esperar a aposentadoria, esperar, protelar, adiar, e todos esse e outros verbos que não são felizes no presente, são muito mais bobos do que minha bobeira. 
Ser feliz por qualquer “bobagem”, é provavelmente o que me salva, que não me desespera, o que me põe sorrisos na cara, o que me dá refresco pra alma, deixa o coração batendo bem e  os olhos brilhantes.
E entendam bem, bobagens, pra quem vê de fora, dou uma importância descomunal pra detalhes que podem passar despercebidos pra muita gente: lua, chuva com sol, cheiro de chuva, cheiro de lençol limpo, carinho, arrepio, beijo na nuca, acordar abraçada, pêssego maduro,mar limpo, alguma árvore carregadinha de fruta que se possa comer no pé, gostos de infância, silêncio, músicas, flores coloridas, passarinhos cantando, filha rindo, rede, ventinho de final de tarde e suas cores todas, brindes, fazer alguém feliz, folhas de plátano, estradas, gotas de orvalho, pés descalços, tardes de ócio, conseguir registrar na fotografia exatamente o que queria, lareira acesa, palavras amigas, olhos que brilham, troca de olhares cúmplices, emoção compartilhada, conversas francas, gente que amamos rindo junto, acordar e poder dormir mais, cheiro de café da manhã, café da tarde, pão novinho e queijo gostoso, dançar quando dá vontade, banho quente, massagem, banheira cheia de espuma, torpedos queridos, abraços de coração aberto, sonho de valsa, balas sete belo, laranja de umbigo, bergamota no sol, ver gestos gentis, crianças brincando em pracinha, sorriso e sono de criança de criança, velhinhos caminhando de mãos dadas, sorvete ou picolé, beijo de canto de boca, nuvens que fazem figura e tempo pra olhá-las, balões de gás subindo, pandorgas, fogos de artifícios que fazem chover luz, tempo pra andar, pernas pra andar, mãos pra tocar e querer tocar, olhos pra ver, ter saúde e nenhuma dor, sensação de paz, um sentido ao acordar mais um dia... Ter mais um dia!

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