Das nádias que me compõem...

Eu tenho esse blog, pouco usado hoje em dia, mas que decididamente virou meu diário on line, meus guardados, hoje mexendo nele achei...uma Nádia antiga e triste que cutucava e supervalorizava a dor... "...passei anos, desenvolvendo a autopiedade, a comiseração. Desenvolvendo o dom de lembrar só das cenas tristes, exagerando nas luzes duras, nos silêncios, me corroendo para ter matéria para a dor. Por isso a Argentina que poderia ser lembrada como o prazer de desvendar o rio, de descobrir o outro lado, de aprender outra língua e outra forma de vida, que poderia ser só gostosuras, só lembrava a frustração do outro lado ser mais um lado, pobre... E aí, a infância que poderia ser só descoberta, brincadeiras, natais, a expectativa colorida de ser grande, virou medo, silêncios adultos, o ser esquecida na porta do colégio, a morte dos bichos de estimação, a solidão na outra cidade que a princípio não me quis, sempre a dor supervalorizada. Assim como quando chove, poderia sentir-me feliz, tranqüila, protegida e quente dentro de casa ou poderia achar que era preciso ir para a rua, me molhar, adoecer, fazendo doer à sinusite, só postura, decisão. Vivi criando dores extras, testando minha capacidade de resistência, sofrendo em vão." ....

Mas tem uma Nádia mais recente e leve, que talvez por saúde mental, talvez possa ser sabedoria, cansaço ou escolha, resolveu se fixar nos detalhes que lhe faziam feliz... 

Eu sou feliz e isso pode soar babaca, dito assim de cara, mas sou esse tipo de gente que vê motivos pra ser feliz, em detalhes e isso é uma grande alegria, importante ressaltar, li Pollyana quando pequena, e essa visão, pode ter uma tardia influência do jogo do contente, por exemplo, acordo bem feliz quando vejo que tem sol e o dia está azul (como hoje) quando minha filha ri e no bom dia, me diz te amo, quando dormi enroscada e nua e posso continuar assim toda manhã, beijando na boca sem pressa, sou feliz quando uma musica me interpreta, quando uma poesia me escancara, quando a primavera colore tudo e chove flor lilás de jacarandá, quando o outono derrama folhas de plátano, quando chove ( e estou quentinha em casa) e depois a terra cheira molhada, quando converso-ouço-entendo e sou igualmente entendida, quando recebo um carinho em forma de torpedo lembrança presente, quando consigo tocar e fazer alguém feliz, quando dou risada alto, quando o sol muda de cor, quando a lua me surpreende redonda e enorme no céu, sou feliz viajando sem destino, sendo turista até mesmo por aqui, molhando os pé da água, andando de bicicleta, gosto de gente e suas histórias, sou curiosa, tenho incontinência verbal, cumprimento até quem eu não conheço (ainda), gosto de dar sorrisos e bom dia gosto de me sentir ativa, sou feliz trabalhando, sou feliz no escuro do cinema, sou emoção á flor da pele, de um jeito quase infantil, ainda acredito em boas pessoas, em lindas intenções, em olhares, em abraços, me emociono, as vezes enfraqueço, fico triste, murcho a esperança, mas basta um instantinho de luz, já me sinto viva e volto a ser feliz...sempre volto.

Gosto mais da segunda,  gosto dessa que vê coração em toda parte  a primeira, puramente reativa, talvez tenha necessitado ver e viver dores maiores, para redimensionar o que lhe cabia à alma, pra escolher a leveza e a felicidade possível e diária. E se posto aqui minhas duas versões é para reafirmar a capacidade que sempre teremos de mudar de rota, mudar o sentir, o sentido, curar, voltar, rever, ressignificar, tornar a interpretar e principalmente para reforçar a capacidade diária e nossa, de escolhermos qual o olho usar, qual a cena editar e ou reverenciar, tão donos do roteiro somos...é nossa a direção: do passo e de toda a vida!


Sou as duas e muitas outras, algumas preciso curar, outras preciso deixar que se fortaleçam, algumas só preciso reconhecer, desapegar e seguir... e por isso voltei a escrever aqui, pra me dar voz e vida , poder me reconhecer por inteiro e escrito, as vezes falivel, as vezes capenga, as vezes fujona, as vezes cinza e pesada,noutras leve e coloridíssima, eu e todas as outras nadias que me compõem e...pra hoje escolho a leveza e a cor!!



















Comentários

Teus sentires expressos em pinceladas literárias nos deixa mais intenso e cheio de cores e sabores que só se superam com tua presença em tempo real. Grato pela volta. Mais e muito mais brotem desses teus tantos corações em vivência intensa. Vida longa a tudo teu.

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