quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

encontros...e tramas

Pessoas que encontrei e me ajudaram a ser:

 Num domingo sentei com uma desconhecida numa mesa ao sol para almoçar:

 Ela me disse com olhar embaçado: a gente ainda sente essa emoção de se relacionar, essa esperança, até os 60, depois passa.Comigo foi assim... Essa foi uma das experiências que compartilhou comigo além da sábia capacidade de entender que casa pessoa tem a sua história e verdade, me disse também que a vida não é só feita de escolhas, que tudo também depende de se ter uma sorte bonita, e que enfim viver é isso: aceitar e conviver com os resultados ou mudá-los se não nos cabem. Uma tarde linda passamos ela com 70 e eu com 42 anos, dividindo uma mesa, o almoço, a sobremesa, o cafezinho e muita emoção, num domingo calmo, que existiu pra abençoar esse encontro. Adoro encontrar gente, adoro saber o que a vida fez com as pessoas, como as marcou, o que elas guardaram, do que ainda gostam de rir, o que gostam de relembrar, no que acham que se transformaram, o que foram e são, gosto de gente, que ao sentar na minha frente, abre o coração, olha nos olhos, não interpreta personagem, não se preserva, não se esconde atrás de verdades prontas e confortáveis, gosto de gente se expõem, se deixa reconhecer, e coloca a alma o alcance da mão. Nesse mundinho de rápidos desencontros é um privilégio, poder parar, escutar, falar, sem pressa, compartilhar momentos, desfrutar momentos e impressões. Assim ficamos, por horas, e foi uma das tardes mais gostosas dos últimos tempos. Talvez eu tenha enxergado nela a pessoa que espero ser no futuro, um pouco independente, ainda curiosa, cabeça aberta, uma senhora que não se prenda em convenções e que consiga rir e viver muito bem obrigado! Sozinha se for o caso, mas plena! Ela me contou o quanto foi perdendo pessoas, e abandonando os lutos e as roupas pretas, por que optou pela vida e por que se descobriu nessas perdas, alguém mais leve, e que sim, merecia cor. Concordamos o quanto são maçantes os intermediários, representantes das religiões. O quanto os impostos são escandalosos e exorbitantes, o quanto à política há anos tem engrenagens escusas, ela diz ter percebido o desencanto gerado pela sensação de que nada mudaria, já na eleição do Jânio Quadros. Concordamos que ás vezes as pessoas fazem sacrifícios demasiados pra serem aceitas e se mostrarem “bonitas” aplaudimos a naturalidade e a diversidade, defendida em novas propagandas. Fomos de Roberto Carlos (que ela não gosta) a Woody Allen (que ela aprendeu a gostar há pouco), de Pelé a Gisele Bundchen (exemplificando sorte e talentos bem casados), de Mário Quintana a Danuza Leão, comungamos da mesma emoção em descobertas, viagens e filmes. Concordamos que o romance e o sexo com envolvimento parecem ser o melhor caminho. Apesar de meio fora de moda atualmente. Ela uma avó que não tem paciência pra almoços de domingos obrigatórios, pra pessoas que sugam energia, pra crianças sem limites, pra novelas, pra preconceitos, uma pessoa que achou seu lugar, não precisa dar satisfação pra ninguém e não quer nada que não seja prazeroso, não quer exigência, quer ser e estar tranqüila. E merece! Grande lição de vida,, em forma de gente! Raquel, grata por me mostrar como viver e envelhecer podem ser experiências gratificantes! (E não paralisantes como muita gente apregoa por aí) Espero que a vida nos seja leve e que a sorte nos sorria lindamente e que nos proporcione outros tantos encontros desse tipo, de pura e sincera intimidade!  


Numa segunda-feira sentei ao lado e puxei papo com uma senhora numa lotação:

Venho do centro pós-almoço, numa lotação, quase dormindo e na altura da independência uma senhora senta ao meu lado, sorrio e comento com ela: _ Que soninho dá na gente essa hora, né? Ela sorriu e me disse: _Que cara doce é frágil fizeste ao dizer isso, quando estiver com teu amor repete... Eu querendo agradecer ao comentário, sorri e disse o que realmente acredito: _ São seus olhos, a gente não enxerga o que não tem... Ao que ela me responde com olhar triste: _ Quem dera, eu já não enxergo assim há muito tempo...Trabalho com o judiciário e no correr da vida, fui perdendo tanta crença e esperança, fui engolindo tanto lixo, fui me contaminando tanto...A gente não é ostra que consegue nacarar o lixo e transforma-lo a gente não é um tipo de animal que possui dois estômagos, um capaz de reprocessar lixo, a gente vai adoecendo...eu já passei por 10 cirurgias pra retirar os lixos que guardei, e há 10 anos, fiquei tão amarga, com todas as perdas, que desenvolvi uma diabete...Perdi as lentes coloridas, quem me dera ainda pudesse usa-las pra enxergar o mundo mais bonito... Nisso ela me sorri, levanta e pede pra descer...Muito próximo de onde havia entrado. Não sem antes me dizer: Não te deixa contaminar...Não deixa que a vida te faça mal...  

Numa viagem conheci um pescador:

Sou daqui filho de Maria lavadeira e do Tonho pescador: Me criei assim na lida, ajudando Mainha, vendendo peixe com o Pai, com esse cheiro enroscado no corpo, fiz três anos de escola, me apelidaram de Peixe podre e fui ficando pelos cantos, olho de peixe morto me disse a Dorinha, logo ela que era a mais linda, e se riu de mim, pra escola eu não quis mais voltar, vergonha...Sei assinar o nome e faço conta, não sou analfabeto, não precisava mais que isso...continuei pescando, o cheiro? Nem sinto mais....Mainha morreu, painho perdeu as idéias, somos comigo 9, tudo espalhado no mundo, eu fiquei...a senhora quer saber por que? Nem eu sei...acho que é a água batendo no pé, tenho essa casa e esse barquinho, preciso mais nada não, não tenho nenhuma ânsia, não tenho sede de mundo, tô tranquilo, esse canto de rio me cabe, pra mim tá bom... Podia me chamar João, José ou Antônio como o pai, mas mainha cismou me chamar Brasil, seu Brasil Pequeno é como todo mundo me chama, não gosto, mas é um apelido melhor,né? A Dorinha encontrei já moça feita, continuava bonita a desgraçada, disse que ia ganhar mundo, me abanou e sorriu bem encarnado, dizem que caiu na vida... Se sou feliz? Ah, dona...sou sozinho, sem amor até se vive, mas do jeito que dá... não dum jeito de se rir besta, o que seria muito melhor! 


Não sei se seu Brasil Pequeno que nasceu e viveu as margens do rio...ainda estará por lá... 
Não sei onde andará Raquel... 
Nem se aquela senhora que imaginava não mais enxergar colorido...venceu suas dores.

Só sei que eles permaneceram em mim e que não fui mais a mesma depois dessas conversas.
Acredito que existem encontros tramados por Deus, que como um pai que aconselha usando exemplos, coloca pessoas anjos ao nosso lado para realçar o que precisamos ver.

Hélio Leites artista plástico de Curitiba que por muitos anos foi bancário e passava os dias carimbando cheques devolvidos de pessoas desconhecidas me disse ao conhecê-lo: "pode Deus ter feito uma obra tão perfeita que pisca, chora e ri pra só carimbar cheques?"

Preste muita atenção, Deus arruma formas inusitadas pra nos lembrar que tem planos melhores pra nós!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

o medo "desenchufa"...

o medo faz isso,
nos desconecta,
nos "desenchufa",
nos intimida,
nos desabilita,
nos desacostuma da alegria,
nos acomoda no menos,
nos faz crença de não merecimento,
sou uma controladora nata e boba,
sempre que tenho dificuldades em me relacionar,
penso: eu tenho que ficar sozinha,
eu só sei ser sozinha...
isso é uma crença,
é um medo,
travestido de independência,
mas isso, é se negar a crescer e aprender...
o que todo mundo precisa?
um olhar que acolha nossa esquisitice,
nossas manias,
nossos medos,
um olhar que ilumine nossos escuros,
e nos garanta que mais adiante
o caminho segue,
e saberemos seguir,
como soubemos andar sem sermos segurados,
pedalar sem bandear pros lados,
o que todo mundo precisa:
é da permanência doce do primeiro olhar,
que nos amamentou,
e deu colo,
e a certeza que nem sempre não nos alcança,

de que ali estaremos seguros,
que a nossa fragilidade não será contra nós usada...
O que todo mundo precisa,
é de um amor, como o primeiro
que nos deu útero, aconchego,
espaço pra crescer,
tempo para ser
e depois de um parto abrupto,
nos deu o olhar/peito/sossego,
capaz de alimentar nossa fome de segurança.
mesmo sabendo, desde o primeiro abrupto,
que a vida é susto e impermanência,
a gente precisa amar
 (e incorporar e se auto-olhar com aquela doçura,
 sem nenhuma garantia e todas as esperanças,

 o amor nos deixa vulneráveis, abençoada e linda  fragilidade

. * desenchufar (espanhol) = desligar (português)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

entre ser e parecer...

Estivemos neste feriado na serra, e posso dizer que ali tive uma aula da importância de SER e da fragilidade do PARECER ... Confirmei a beleza da simplicidade e a dignidade que é ser autêntico... Foi o que vi em Antonio Prado, cuida tão bem do seu passado, conservando o casario, as boas lembranças, as receitas... e isso tudo se reverte em auto-estima, sorriso aberto,hospitalidade e acolhimento. Como símbolo disso tudo escolho a Belo- Beloni De Rossi que nos fez sentir em casa, contou como tudo começou e nos serviu um café da manhã maravilhoso, todo feito por ela. Que delícia é conviver com gente de verdade, que não fica fazendo gênero, estilo, personagem...simplesmente é : íntegro, no falar, no abraçar e ao sorrir grande. Na sequência conheci outra cidade ali pertinho, e vi o contrário: a tristeza de tentar se negar, destruíram todo e qualquer resquício de passado e historia e construíram uma cidade de fachadas e imóveis modernosos, onde se percebe alto poder aquisitivo e bem pouca autenticidade. Pena precisar negar o que viveu e todos os passos necessários pra chegar onde chegou... tentar tanto PARECER diferente do que guarda na essência. Se é que nessa luta de se desconstruir, sobrou alguma essência. Não senti vontade nenhuma de viver e/ou permanecer nessa segunda cidade, e uma vontade sem fim de conhecer ainda mais gente e histórias como dos De Rossi e de ser assim: simples e claramente feliz!!!