terça-feira, 27 de janeiro de 2015

versões...

Hoje mexendo nos guardados achei..uma Nádia antiga e triste que cutucava e supervalorizava a dor... "...passei anos, desenvolvendo a autopiedade, a comiseração. Desenvolvendo o dom de lembrar só das cenas tristes, exagerando nas luzes duras, nos silêncios, me corroendo para ter matéria para a dor. Por isso a Argentina que poderia ser lembrada como o prazer de desvendar o rio, de descobrir o outro lado, de aprender outra língua e outra forma de vida, que poderia ser só gostosuras, só lembrava a frustração do outro lado ser mais um lado, pobre... E aí, a infância que poderia ser só descoberta, brincadeiras, natais, a expectativa colorida de ser grande, virou medo, silêncios adultos, o ser esquecida na porta do colégio, a morte dos bichos de estimação, a solidão na outra cidade que a princípio não lhe quis, sempre a dor supervalorizada. Assim como quando chove, poderia sentir-me feliz, tranqüila, protegida e quente dentro de casa ou poderia achar que era preciso ir para a rua, me molhar, adoecer, fazendo doer à sinusite, só postura, decisão. Vivi criando dores extras, testando minha capacidade de resistência, sofrendo em vão." ....e uma Nádia mais recente e leve, que talvez por saúde mental, talvez por sabedoria, cansaço ou escolha, resolveu se fixar nos detalhes que lhe faziam feliz... eu sou feliz e isso pode soar babaca, dito assim de cara, mas sou esse tipo de gente que vê motivos pra ser feliz, em detalhes e isso é uma grande alegria, importante ressaltar li Pollyana quando pequena, e essa visão, pode ter influência do jogo do contente, por exemplo, acordo bem feliz quando vejo que tem sol e o dia está azul (como hoje) quando minha filha ri e no bom dia, me diz te amo, quando dormi enroscada e nua e posso continuar assim toda manhã beijando na boca sem pressa, sou feliz quando uma musica me interpreta, quando uma poesia me escancara, quando a primavera colore tudo e chove flor lilás de jacarandá, quando o outono derrama folhas de plátano, quando chove ( e estou quentinha em casa) e depois a terra cheira molhada, quando converso-ouço-entendo e sou igualmente entendida, quando recebo um carinho em forma de torpedo lembrança presente, quando consigo tocar e fazer alguém feliz, quando faço um brinde, quando dou risada alto, quando o sol muda de cor, quando a lua me surpreende redonda e enorme no céu, sou feliz viajando sem destino, sendo turista até mesmo por aqui, molhando os pé da água, andando de bicicleta, gosto de gente e suas histórias, sou curiosa, tenho incontinência verbal, cumprimento até quem eu não conheço (ainda), gosto de dar sorrisos e bom dia gosto de me sentir ativa, sou feliz trabalhando (até trabalhando..ahah), sou feliz no escuro do cinema, sou emoção á flor da pele, sou também um pouco solitária, não que seja opcional fui aprendendo, um pouco racional e as vezes perco as esperanças e as ideologias, e isso é um pouco triste, assim ás vezes fico prá baixo, introspectiva, carente, e não tenho rima nem palavra, pareço corroer em silêncio, sem saída, aí escrevo, respiro fundo, olho pra longe e passa... e depois quase não me reconheço nas cenas que descrevi, já vivi histórias duras que me parecem roteiros mal redigidos do Almodovar, mas de um jeito quase infantil, ainda acredito em boas pessoas, em lindas intenções, em olhares, em abraços, me emociono, me sinto viva e sempre volto a ser feliz..." Gosto mais da segunda, e por isso dei a ela mais espaço e destaque...talvez a primeira, puramente reativa, tenha necessitado ver e viver dores maiores, para redimensionar o que lhe cabia à alma, pra escolher a leveza e a felicidade possível e diária. E se posto aqui minhas duas versões é para reafirmar a capacidade que sempre teremos de mudar de rota, mudar o sentir, o sentido, curar, voltar, rever, tornar a interpretar e principalmente a capacidade de escolhermos qual o olho usar, qual a cena editar e ou reverenciar, tão donos do roteiro somos...é nossa a direção: do passo e da cena!

Nenhum comentário: