sexta-feira, 17 de julho de 2015

mofo&desconexão

Eu acordei sentindo falta de conexão, não dessa WiFi nem dessas bem falhas dos nossos celulares, aquela outra que é tão mais, de se reconhecer em olhares, de compartilhar silêncios sem que eles atordoem, de abrir a alma sem receio, de saber do outro e ter e permitir acesso ao que lhe é mais íntimo,frágil e grande, de estar perto por estar conectado ...

Esse cinza ininterrupto me mofa por dentro e talvez me bloqueie essa capacidade, será que perdi a minha própria senha?

 Ontem ao assistir uma cena linda no cinema, pautada na dificuldade de expressão de sentimentos entre uma família, fui invadida por essa sensação doída de que esperamos demais dos outros, e esperamos muitas vezes o que lhes é impossível e sofremos e nos magoamos pelas incapacidades alheias, gerando muitas vezes bloqueios e incapacidades em nós. Ninguém pode medir o quanto uma palavra dita ou calada, o quanto um toque, feito ou negado, o quanto um conceito, um olhar, uma crítica, um abraço, uma abandono, uma aceitação podem alterar a nossa vida, pode formar ou deformar nosso caráter, nossa capacidade se sentir ou expressar.
           O sentir como o escrever, pode despertar empatia, projeção, repulsa, medo, insegurança, pode mexer com quem está do outro lado, mas sempre será “lido” através da lente das experiências do outro, o sentimento, e nisso o amor é o maior exemplo, nos pertence de uma forma tão íntima, que nem sempre mesmo compartilhado em anos, beijos, abraços, intimidade e dia a dia consegue ser totalmente exposto ou entendido.
         Sentimento-humano...difícil-acesso, assim como os detalhes que necessitamos para nos sentir aceitos e amados, ás vezes são ínfimos e desnecessários aos olhos alheios, e podem ao não existir, desfazerem qualquer possibilidade de contato. Uma parte lá fica a descoberto, uma parte lá exige senha de acesso, senha essa que nós mesmos muitas vezes esquecemos de desbloquear...

segunda-feira, 25 de maio de 2015

sulcos na alma

Ele me ensinou
que certas vivências
geram sulcos
na alma
e as vezes
mesmo que se queira
e precise
que a emoção
pegue outro rumo
ela não consegue...
segue o sulco
e deságua
num lugar
conhecido
ultrapassado
e sem saída

quarta-feira, 20 de maio de 2015

aprendendo a desaprender...

A gente pode aprender e desaprender pro bem ou pro mal, estar vivo faz dessas...
Eu muitas vezes percebo o quanto aprendi torto e precisei desaprender e reaprender de novo (felizmente isso não tem fim)...
Hoje mesmo enxerguei, que desaprendi a ser cuidada, e vi que o processo é mais ou menos assim: ( e vale pra uma serie infindável de sentimentos, emoções, ações)...quando se precisou tanto e não se ganhou, pode se desistir de esperar... e desaprender a ser frágil as vezes...

http://noo.com.br/8-coisas-que-aprendi-a-desaprender/

quarta-feira, 6 de maio de 2015

auto-entrevista


Te acompanho há anos e te vejo sorrir muito, estar sempre feliz,  não cansa?
Sou um pouco deslumbrada com detalhes e assim um pouco boba, sorrir é realmente fácil para mim, mas quando falta sentido eu choro muito também, só que minha lágrimas são menos expostas, cinema me faz chorar muito, e vou normalmante sozinha, enfrento minhas dores privadamente, me escondo pra sofrer.
Chamo meus momentos tatu-bola, quando tudo me fecha, tudo me dói, tudo me gera uma reação de auto-proteção.

E isso de sofrer sozinha é mais prepotência ou incapacidade?
Um pouco de incapacidade eu acho, de expor meus escuros, meu lado B, de não ser sempre feliz, como se houvessem me ensinado que existem coisas que não "ficam bem", como odiar abertamente, como invejar, sofrer entrou nesse rol, das coisas proibidas de sentir publicamente.

E amar, também é proibido publicamente?
Quando eu amo gosto da exposição desse amor, gosto das manifestações, das declarações, das mãos dadas, dos beijos na boca,de bilhetes e de te amos ditos, sou uma exibicionista, não gosto de gente que economiza demonstrações de afeto me parece sempre desculpa de quem na verdade não quer ou não sabe se dar.

"Quando amo"...tua frase me parece que amor é assim, uma fase, uma ocasião, um ritual...
Pois é, amar (e não sei se sei amar), me parece mesmo isso, uma fase, uma ocasião, um ritual, como um estado de graça, um estado pendurado no tempo, um momento onde os detalhes fazem sentido e eu fico mais leve e sorrio mais, quando começo a chorar e a querer me esconder, já duvido que seja amor, ou da minha capacidade de...

Foge?
Penso, e pensando deixo de ser leve e deixo de querer, e sim muitas vezes antecipo os fatos, não gosto de esperar o fim total, sou ansiosa, sou emocionalmente infantil, fui por muito tempo filha única e isso marca.

O que te parece marcas de uma filha única que ainda ficaram?
Não lembro de ter regalias extremas e mimos, até me ressinto por uma  certa falta de atenção na infância que me deixou com uma sensação de ausência.
Talvez por que fui uma filha única sem pedestal e direito a chiliques. Fui uma criança solitária e ficaram marcas emocionais de ansiedade, uma sensação de que o que sinto é muito importante para não ser ouvido, uma impressão de que devem prestar maior atenção em tudo que é meu até ao meu silêncio, que devem me cuidar,mesmo que eu não demonstre isso, quero e preciso sempre ser única.

Quer que adivinhem isso? Essa necessidade não expressa?
Talvez esse seja o maior sintoma, quero que prestem atenção e me leiam as entrelinhas, não quero precisar pedir, quero ganhar.

E sabe também dar?
Sei, sou bem generosa e muitas vezes me ultrapasso para agradar. Mas se não percebo um reconhecimento de volta, posso me sentir muito abusada e me fecho.
Parece um jogo ou um super controle?
Na real é mais reconhecer o descontrole e uma enorme necessidade de me preservar,pensando bem pode ser controle mesmo...

E o que precisa ser mais controlado? A emoção? A agressividade?
Me falaram dia desses que eu minimizo a emoção e talvez faça o mesmo com  agressividade, disseram que eu coloco tese encima dela, que é minha forma de dar menos ênfase...ainda estou pensando se essa leitura é correta. De fato com a agressividade nunca soube conviver bem, a minha engulo e a dos outros me ofende demasiadamente. Fui mal criada nesse sentido, nunca ouvi uma discussão ou um grito em casa, me criei achando que essas "coisas" eram anormais,"menininha boa moça, incapaz de querer mal, parecia tão verdade, esse maniqueísmo bobo,que me fez  fazer de conta que não sou sinceramente, boa e má, médico e monstro, criador e criatura..."
Dualidades...quanto a uma emoção descontrolada, tenho medo e fascínio!
Quem ganha o fascínio ou o medo?
Ultimamente o medo tem se fantasiado de maturidade e sido mais frequente, mas ando sentindo falta de momentos fascinantes...

A maturidade é uma qualidade ou um defeito?
Tem coisas interessantes em estar viva há mais tempo,uma certa tranquilidade, uma dimensão mais real das importâncias, das prioridades e até das dores. Mas tem um sensação de "já vi(vi) isso" que cansa também, é legal ser surpreendida...a maturidade pode virar defeito, pode virar distanciamento.

Tu é quem sonhou ser na tua idade?
Não sou esse tipo de gente que tem metas e sonhos muito claros, nunca me comprometi assim com objetivos tão definidos, vou vivendo o que vem sendo, não tinha uma Nádia ideal para alcançar. Mas de fato estou no lucro,tinha uma sensação esquisita de que morreria antes de completar 40 anos. Cheguei até aqui sem me dar conta direito e em muitos aspectos sou e estou melhor do que poderia imaginar, sou mãe e isso me parece uma grande distinção, virei dona do meu próprio nariz o que nunca me imaginei fazer e não desisti de me conhecer mais profundamente, por isso me trato e escrevo.
Eu sempre digo que eu falo melhor escrevendo, ainda preciso resolver isso e também os casos, onde a palavra jorra feito um acesso de loucura, pra despistar o enredo, o engasgo e a timidez.


Falta o quê?
Falta tempo e sobram possibilidades...Estou simplificando, falta amor ás vezes, falta intimidade, faltam relações verdadeiras, faltam palavras,falta inspiração,falta ideologia, falta coragem, falta silêncio do bom e lugares para estar tranquilamente, enfim...se é real a teoria do vácuo, tudo que falta está a um  passo de ser preenchido...Tomara!!!!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

o amor ...


As palavras dizem pouco!
As palavras pouco são!
Pena, já que elas são supervalorizadas por aí, nesses tempos barulhentos e inexpressivos.

Tem palavras que caíram na banalidade, ou que caíam no terreno arenoso do que “não deve ser dito”, e outras que carregam uma carga tão grande de responsabilidade e peso, que também acabam nem sendo pronunciadas.
Lembro como se fosse hoje a cara de pânico de uma amiga, ao me contar do
primeiro “eu te amo” que ela ouvira. Ela dizia: “Eu fiquei muda, não consegui dizer nem eu também.. o que eu digo agora? O que será que significa?” Me contava atônita e e como em transe :”eu te amo..ele disse...eu te amo!!!”
E despejou um monte de considerações a respeito dessa frasezinha que caiu na maldição de ser profunda e definitiva.
Acho lamentável que amor tenha toda essa carga enquanto ódio passeie por aí livre e impunemente, tão facilmente as pessoas esbravejam e ODEIAM... tão encabulados e receosos, amam e dificilmente expressam.
Ontem lendo poemas lindos de amor em forma bruta, do poeta Idésio Oliveira
deparei-me com a frase:
“Ao me sorrir, este amor trará consigo o aroma dos botões tramando flores.
Terá a fortaleza da rocha e eu me deleitarei no revelar de suas fragilidades.
Me contará onde esconde seus erros e brindaremos a cada acerto que tivermos juntos.”

Lembrei de momentos assim compartilhados, e senti que grande poder é sentir amor por dentro, como é bem bom ter a alma aquecida, e por que não compartilhar essa emoção.

Foi muito lindo perceber, que amor pode ser expresso sem ser contrato, sem ter futuro,
sem ser aliança ou qualquer dessas tranqueiras, pode ser expresso simplesmente como e com aquele sentimento mágico e quente, que nos invade, vez ou outra, quando nos deparamos com o nosso melhor lado, quando queremos proteger e dar felicidade, quando queremos espalhar calor e iluminar,como sol, amor deveria ser sentido, dado e dito com essa naturalidade. Como expressão, não como pressão, como sentimento, não esperando consentimento, nem a reciprocidade de um “eu também”.
Amor na verdade nem cabe na palavra e pode vir em forma de colo, em beijo na testa, coçando as costas, fazendo comida, andando de mãos dadas, assistindo pôr-do-sol ou nascer de lua, ouvindo música, amor pode ser a mão que segura, o abraço, o sorriso,
pode ser a entrega de um sono ou lágrima compartilhada, olhos que se cruzam cúmplices, pode ser silêncio, enfim pode ser e ter muitas formas e pode ser instantâneo.
E deve ser expresso, isso é urgente, da forma que vier.

Acho que minha amiga, ainda não havia sentido nada igual, e por isso se impressionou tanto com as palavras, por que bem no fundinho, as palavras não são nada, as palavras são símbolos que alguém determinou e escolheu como próprios, minha amiga ainda não tinha o sentimento aquecendo por dentro, e sentiu que deveria dar algum retorno pra palavra, e não deveria... nem pro sentimento deveria, por que o amor, e isso é realmente o mais mágico, o amor é de quem o sente.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

pra lembrar de sonhar...


Ontem entrei numas de que não sonho...assim de me comprometer ate o ultimo fio de cabelo com um projeto, meter o pé na porta, insistir...acho que a vida toda os sonhos vieram antes do meu projeto, e me agarrei a eles e fiz funcionar mas nunca fui proativa, fui reativa... e assim tem sido...lembrei que tenho há tempos uma pastas de visualizações, deve ter surgido depois daquele fatídico O segredo, que mesmo eu achando meio viajante, me plantou a sensação de que antes de ter é preciso querer... então com o intuito de me lembrar o que quero... aqui vai! Quero uma casa pra fugir de vez em quando...e nessa casa tem que ter varanda, pra colocar uma rede e tem que ter um pátio pra ter árvores frutíferas...e se eu tiver jeito uma horta. Nas noites nesse pátio, eu quero assistir filmes e fazer jantares embaixo da lua...  

 

sexta-feira, 27 de março de 2015

da felicidade...

Felicidade é saber se deliciar com os detalhes... A Ligia amiga dos tempos da faculdade e dos ipês amarelos, anotou essa frase que eu disse e segundo ela, é o que mais eu sei fazer, e eu torço que o tempo não me tire essa capacidade, um dos poucos talentos que consigo reconhecer em mim, e não me achar ridícula por reconhecê-lo. Eu me delicio com os detalhes e pode parecer fútil ou doido isso, pra quem não faça o mesmo, mas eu posso efetivamente andar na rua e ficar tremendamente tocada com a árvore enorme que faz um outono fora de hora, com o passarinho que aprende a voar e parece um bebê nos primeiros passos, eu tenho assim umas ilhotinhas de felicidade no dia, que podem ir desde um café expresso perfeito, que tomei sentada e desfrutando o unico raio de sol da semana, até o aconchego de minha roupa "de ficar em casa" e minha filha me abraçando sorridente depois de um dia pesado, como quando toca a musica que eu mais gosto bem na hora que coloquei os fones no ouvido, quando alguém desconhecido me sorri e dá bom dia, quando alguém me faz cumplice da sua emoção e trocamos um olhar de reconhecido entendimento, quando encontro, quando abraço, quando beijo, quando brindo, comendo empadinha de camarão com uma tal "massa podre" que a minha mãe não faz mais, ou feijão novo de colher, quando uma fruta guarda o gosto que a minha memória guardava, feliz quando uma saudade me pega no colo, uma amizade me pega na alma, quando a palavra cabe perfeita ou o silêncio diz tudo,quando alguém fotografou o momento exato ou um filme me abala escancaradamente, quando acordo, me espreguiço e me enrosco, quando faço café da manhã ,leio o jornal sem pressa por que é sábado e tenho dois dias pra me pertencer inteira, quando nasce uma florzinha num lugar imprevisto, detalhes enormes, que me fazem carinho quente, que me dão sorrisos, suspiros, lágrimas, de pura felicidade... No livro que ganhei ontem diz: "o apaixonado é um comovido á toa" , talvez seja isso, mais do que talento pra detalhes ou pra felicidade, eu devo ter talento para a comoção ou para paixões á toa...E isso me delicia!

sexta-feira, 20 de março de 2015

reencontrando o Quintana....


Ontem fui dar uma entrevista na Rádio Guaíba, na famosa Empresa Jornalística Caldas Junior e me emocionei por estar andando pelos caminhos e no mesmo elevador que por anos recebeu diariamente o meu ídolo... Vira e mexe quem me conhece sabe que sai uma citaçao ou poeminha do Quintana, como esse : "dizem que os homens são todos iguais e nisso eu não acredito, tem quem nasça em Paris eu nasci em Alegrete".

 Mário Quintana é uma espécie de manual, é consenso, AMO tanto esse "velhinho" que parece até meu avô... Meu amigo diz que de certa forma ele é mesmo avô de todos nós!
         Um dia eu vinha caminhando na Praça da Alfândega e o vi sentado de pernas cruzadas, tranqüilo, observando o movimento, senti um misto de vontade de falar e receio de invadir, e emoção por que para mim ele sempre foi um mito, aí não pensei muito, cheguei , sentei ao lado e trocamos umas palavras e ele riu de um jeito querido, constrangido com o meu deslumbre e minha tietagem, falamos das ruas de Porto Alegre, de sermos ambos filhos do interior, lá pelas tantas já me sentindo mais íntima,  falei que escrevia e pedi um conselho, ele me deu o maior conselho: “ não fica mostrando aos outros pedindo que corrijam ou que julguem o valor literário, ninguém pode avaliar sentimento e poesia é só isso...”

         Ás vezes acho que só sonhei com esse encontro e com esse conselho básico que deveria ampliar para todos os sentimentos e momentos da vida. Parar de esperar que me julguem ou aceitem, seria a mais pura e genuína liberdade. 



quarta-feira, 11 de março de 2015

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

encontros...e tramas

Pessoas que encontrei e me ajudaram a ser:

 Num domingo sentei com uma desconhecida numa mesa ao sol para almoçar:

 Ela me disse com olhar embaçado: a gente ainda sente essa emoção de se relacionar, essa esperança, até os 60, depois passa.Comigo foi assim... Essa foi uma das experiências que compartilhou comigo além da sábia capacidade de entender que casa pessoa tem a sua história e verdade, me disse também que a vida não é só feita de escolhas, que tudo também depende de se ter uma sorte bonita, e que enfim viver é isso: aceitar e conviver com os resultados ou mudá-los se não nos cabem. Uma tarde linda passamos ela com 70 e eu com 42 anos, dividindo uma mesa, o almoço, a sobremesa, o cafezinho e muita emoção, num domingo calmo, que existiu pra abençoar esse encontro. Adoro encontrar gente, adoro saber o que a vida fez com as pessoas, como as marcou, o que elas guardaram, do que ainda gostam de rir, o que gostam de relembrar, no que acham que se transformaram, o que foram e são, gosto de gente, que ao sentar na minha frente, abre o coração, olha nos olhos, não interpreta personagem, não se preserva, não se esconde atrás de verdades prontas e confortáveis, gosto de gente se expõem, se deixa reconhecer, e coloca a alma o alcance da mão. Nesse mundinho de rápidos desencontros é um privilégio, poder parar, escutar, falar, sem pressa, compartilhar momentos, desfrutar momentos e impressões. Assim ficamos, por horas, e foi uma das tardes mais gostosas dos últimos tempos. Talvez eu tenha enxergado nela a pessoa que espero ser no futuro, um pouco independente, ainda curiosa, cabeça aberta, uma senhora que não se prenda em convenções e que consiga rir e viver muito bem obrigado! Sozinha se for o caso, mas plena! Ela me contou o quanto foi perdendo pessoas, e abandonando os lutos e as roupas pretas, por que optou pela vida e por que se descobriu nessas perdas, alguém mais leve, e que sim, merecia cor. Concordamos o quanto são maçantes os intermediários, representantes das religiões. O quanto os impostos são escandalosos e exorbitantes, o quanto à política há anos tem engrenagens escusas, ela diz ter percebido o desencanto gerado pela sensação de que nada mudaria, já na eleição do Jânio Quadros. Concordamos que ás vezes as pessoas fazem sacrifícios demasiados pra serem aceitas e se mostrarem “bonitas” aplaudimos a naturalidade e a diversidade, defendida em novas propagandas. Fomos de Roberto Carlos (que ela não gosta) a Woody Allen (que ela aprendeu a gostar há pouco), de Pelé a Gisele Bundchen (exemplificando sorte e talentos bem casados), de Mário Quintana a Danuza Leão, comungamos da mesma emoção em descobertas, viagens e filmes. Concordamos que o romance e o sexo com envolvimento parecem ser o melhor caminho. Apesar de meio fora de moda atualmente. Ela uma avó que não tem paciência pra almoços de domingos obrigatórios, pra pessoas que sugam energia, pra crianças sem limites, pra novelas, pra preconceitos, uma pessoa que achou seu lugar, não precisa dar satisfação pra ninguém e não quer nada que não seja prazeroso, não quer exigência, quer ser e estar tranqüila. E merece! Grande lição de vida,, em forma de gente! Raquel, grata por me mostrar como viver e envelhecer podem ser experiências gratificantes! (E não paralisantes como muita gente apregoa por aí) Espero que a vida nos seja leve e que a sorte nos sorria lindamente e que nos proporcione outros tantos encontros desse tipo, de pura e sincera intimidade!  


Numa segunda-feira sentei ao lado e puxei papo com uma senhora numa lotação:

Venho do centro pós-almoço, numa lotação, quase dormindo e na altura da independência uma senhora senta ao meu lado, sorrio e comento com ela: _ Que soninho dá na gente essa hora, né? Ela sorriu e me disse: _Que cara doce é frágil fizeste ao dizer isso, quando estiver com teu amor repete... Eu querendo agradecer ao comentário, sorri e disse o que realmente acredito: _ São seus olhos, a gente não enxerga o que não tem... Ao que ela me responde com olhar triste: _ Quem dera, eu já não enxergo assim há muito tempo...Trabalho com o judiciário e no correr da vida, fui perdendo tanta crença e esperança, fui engolindo tanto lixo, fui me contaminando tanto...A gente não é ostra que consegue nacarar o lixo e transforma-lo a gente não é um tipo de animal que possui dois estômagos, um capaz de reprocessar lixo, a gente vai adoecendo...eu já passei por 10 cirurgias pra retirar os lixos que guardei, e há 10 anos, fiquei tão amarga, com todas as perdas, que desenvolvi uma diabete...Perdi as lentes coloridas, quem me dera ainda pudesse usa-las pra enxergar o mundo mais bonito... Nisso ela me sorri, levanta e pede pra descer...Muito próximo de onde havia entrado. Não sem antes me dizer: Não te deixa contaminar...Não deixa que a vida te faça mal...  

Numa viagem conheci um pescador:

Sou daqui filho de Maria lavadeira e do Tonho pescador: Me criei assim na lida, ajudando Mainha, vendendo peixe com o Pai, com esse cheiro enroscado no corpo, fiz três anos de escola, me apelidaram de Peixe podre e fui ficando pelos cantos, olho de peixe morto me disse a Dorinha, logo ela que era a mais linda, e se riu de mim, pra escola eu não quis mais voltar, vergonha...Sei assinar o nome e faço conta, não sou analfabeto, não precisava mais que isso...continuei pescando, o cheiro? Nem sinto mais....Mainha morreu, painho perdeu as idéias, somos comigo 9, tudo espalhado no mundo, eu fiquei...a senhora quer saber por que? Nem eu sei...acho que é a água batendo no pé, tenho essa casa e esse barquinho, preciso mais nada não, não tenho nenhuma ânsia, não tenho sede de mundo, tô tranquilo, esse canto de rio me cabe, pra mim tá bom... Podia me chamar João, José ou Antônio como o pai, mas mainha cismou me chamar Brasil, seu Brasil Pequeno é como todo mundo me chama, não gosto, mas é um apelido melhor,né? A Dorinha encontrei já moça feita, continuava bonita a desgraçada, disse que ia ganhar mundo, me abanou e sorriu bem encarnado, dizem que caiu na vida... Se sou feliz? Ah, dona...sou sozinho, sem amor até se vive, mas do jeito que dá... não dum jeito de se rir besta, o que seria muito melhor! 


Não sei se seu Brasil Pequeno que nasceu e viveu as margens do rio...ainda estará por lá... 
Não sei onde andará Raquel... 
Nem se aquela senhora que imaginava não mais enxergar colorido...venceu suas dores.

Só sei que eles permaneceram em mim e que não fui mais a mesma depois dessas conversas.
Acredito que existem encontros tramados por Deus, que como um pai que aconselha usando exemplos, coloca pessoas anjos ao nosso lado para realçar o que precisamos ver.

Hélio Leites artista plástico de Curitiba que por muitos anos foi bancário e passava os dias carimbando cheques devolvidos de pessoas desconhecidas me disse ao conhecê-lo: "pode Deus ter feito uma obra tão perfeita que pisca, chora e ri pra só carimbar cheques?"

Preste muita atenção, Deus arruma formas inusitadas pra nos lembrar que tem planos melhores pra nós!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

o medo "desenchufa"...

o medo faz isso,
nos desconecta,
nos "desenchufa",
nos intimida,
nos desabilita,
nos desacostuma da alegria,
nos acomoda no menos,
nos faz crença de não merecimento,
sou uma controladora nata e boba,
sempre que tenho dificuldades em me relacionar,
penso: eu tenho que ficar sozinha,
eu só sei ser sozinha...
isso é uma crença,
é um medo,
travestido de independência,
mas isso, é se negar a crescer e aprender...
o que todo mundo precisa?
um olhar que acolha nossa esquisitice,
nossas manias,
nossos medos,
um olhar que ilumine nossos escuros,
e nos garanta que mais adiante
o caminho segue,
e saberemos seguir,
como soubemos andar sem sermos segurados,
pedalar sem bandear pros lados,
o que todo mundo precisa:
é da permanência doce do primeiro olhar,
que nos amamentou,
e deu colo,
e a certeza que nem sempre não nos alcança,

de que ali estaremos seguros,
que a nossa fragilidade não será contra nós usada...
O que todo mundo precisa,
é de um amor, como o primeiro
que nos deu útero, aconchego,
espaço pra crescer,
tempo para ser
e depois de um parto abrupto,
nos deu o olhar/peito/sossego,
capaz de alimentar nossa fome de segurança.
mesmo sabendo, desde o primeiro abrupto,
que a vida é susto e impermanência,
a gente precisa amar
 (e incorporar e se auto-olhar com aquela doçura,
 sem nenhuma garantia e todas as esperanças,

 o amor nos deixa vulneráveis, abençoada e linda  fragilidade

. * desenchufar (espanhol) = desligar (português)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

entre ser e parecer...

Estivemos neste feriado na serra, e posso dizer que ali tive uma aula da importância de SER e da fragilidade do PARECER ... Confirmei a beleza da simplicidade e a dignidade que é ser autêntico... Foi o que vi em Antonio Prado, cuida tão bem do seu passado, conservando o casario, as boas lembranças, as receitas... e isso tudo se reverte em auto-estima, sorriso aberto,hospitalidade e acolhimento. Como símbolo disso tudo escolho a Belo- Beloni De Rossi que nos fez sentir em casa, contou como tudo começou e nos serviu um café da manhã maravilhoso, todo feito por ela. Que delícia é conviver com gente de verdade, que não fica fazendo gênero, estilo, personagem...simplesmente é : íntegro, no falar, no abraçar e ao sorrir grande. Na sequência conheci outra cidade ali pertinho, e vi o contrário: a tristeza de tentar se negar, destruíram todo e qualquer resquício de passado e historia e construíram uma cidade de fachadas e imóveis modernosos, onde se percebe alto poder aquisitivo e bem pouca autenticidade. Pena precisar negar o que viveu e todos os passos necessários pra chegar onde chegou... tentar tanto PARECER diferente do que guarda na essência. Se é que nessa luta de se desconstruir, sobrou alguma essência. Não senti vontade nenhuma de viver e/ou permanecer nessa segunda cidade, e uma vontade sem fim de conhecer ainda mais gente e histórias como dos De Rossi e de ser assim: simples e claramente feliz!!!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Tudo mais :)

TV COM - Programa Tudo mais - Padrões de beleza curti participar com amigos tão queridos e de longa data como a Milene Zardo e o Bob Bahlis, muitas risadas e conversas leves, grata Regina Lima e a produção do programa. TV COM - Programa Tudo mais - casados ou solteiros?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

versões...

Hoje mexendo nos guardados achei..uma Nádia antiga e triste que cutucava e supervalorizava a dor... "...passei anos, desenvolvendo a autopiedade, a comiseração. Desenvolvendo o dom de lembrar só das cenas tristes, exagerando nas luzes duras, nos silêncios, me corroendo para ter matéria para a dor. Por isso a Argentina que poderia ser lembrada como o prazer de desvendar o rio, de descobrir o outro lado, de aprender outra língua e outra forma de vida, que poderia ser só gostosuras, só lembrava a frustração do outro lado ser mais um lado, pobre... E aí, a infância que poderia ser só descoberta, brincadeiras, natais, a expectativa colorida de ser grande, virou medo, silêncios adultos, o ser esquecida na porta do colégio, a morte dos bichos de estimação, a solidão na outra cidade que a princípio não lhe quis, sempre a dor supervalorizada. Assim como quando chove, poderia sentir-me feliz, tranqüila, protegida e quente dentro de casa ou poderia achar que era preciso ir para a rua, me molhar, adoecer, fazendo doer à sinusite, só postura, decisão. Vivi criando dores extras, testando minha capacidade de resistência, sofrendo em vão." ....e uma Nádia mais recente e leve, que talvez por saúde mental, talvez por sabedoria, cansaço ou escolha, resolveu se fixar nos detalhes que lhe faziam feliz... eu sou feliz e isso pode soar babaca, dito assim de cara, mas sou esse tipo de gente que vê motivos pra ser feliz, em detalhes e isso é uma grande alegria, importante ressaltar li Pollyana quando pequena, e essa visão, pode ter influência do jogo do contente, por exemplo, acordo bem feliz quando vejo que tem sol e o dia está azul (como hoje) quando minha filha ri e no bom dia, me diz te amo, quando dormi enroscada e nua e posso continuar assim toda manhã beijando na boca sem pressa, sou feliz quando uma musica me interpreta, quando uma poesia me escancara, quando a primavera colore tudo e chove flor lilás de jacarandá, quando o outono derrama folhas de plátano, quando chove ( e estou quentinha em casa) e depois a terra cheira molhada, quando converso-ouço-entendo e sou igualmente entendida, quando recebo um carinho em forma de torpedo lembrança presente, quando consigo tocar e fazer alguém feliz, quando faço um brinde, quando dou risada alto, quando o sol muda de cor, quando a lua me surpreende redonda e enorme no céu, sou feliz viajando sem destino, sendo turista até mesmo por aqui, molhando os pé da água, andando de bicicleta, gosto de gente e suas histórias, sou curiosa, tenho incontinência verbal, cumprimento até quem eu não conheço (ainda), gosto de dar sorrisos e bom dia gosto de me sentir ativa, sou feliz trabalhando (até trabalhando..ahah), sou feliz no escuro do cinema, sou emoção á flor da pele, sou também um pouco solitária, não que seja opcional fui aprendendo, um pouco racional e as vezes perco as esperanças e as ideologias, e isso é um pouco triste, assim ás vezes fico prá baixo, introspectiva, carente, e não tenho rima nem palavra, pareço corroer em silêncio, sem saída, aí escrevo, respiro fundo, olho pra longe e passa... e depois quase não me reconheço nas cenas que descrevi, já vivi histórias duras que me parecem roteiros mal redigidos do Almodovar, mas de um jeito quase infantil, ainda acredito em boas pessoas, em lindas intenções, em olhares, em abraços, me emociono, me sinto viva e sempre volto a ser feliz..." Gosto mais da segunda, e por isso dei a ela mais espaço e destaque...talvez a primeira, puramente reativa, tenha necessitado ver e viver dores maiores, para redimensionar o que lhe cabia à alma, pra escolher a leveza e a felicidade possível e diária. E se posto aqui minhas duas versões é para reafirmar a capacidade que sempre teremos de mudar de rota, mudar o sentir, o sentido, curar, voltar, rever, tornar a interpretar e principalmente a capacidade de escolhermos qual o olho usar, qual a cena editar e ou reverenciar, tão donos do roteiro somos...é nossa a direção: do passo e da cena!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ah, adoro quando me interpretam...



Grata Arnaldo Antunes....Letra linda heim? 
Que Me Continua

"Se ando cheio, me dilua.
Se estou no meio, conclua.
Se perco o freio, me obstrua.
Se me arruinei, reconstrua.
Se sou um fruto, me roa.
Se viro um muro, me rua.
Se te machuco, me doa.
Se sou futuro, evolua.
Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.
Se eu não crescer, me destrua.
Se eu obcecar, me distraia.
Se me ganhar, distribua.
Se me perder, subtraia.
Se estou no céu, me abençoe.
Se eu sou seu, me possua.
Se dou um duro, me sue.
Se sou tão puro, polua.
Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.
Se sou voraz, me sacie.
Se for demais, atenue.
Se fico atrás, assobie.
Se estou em paz, tumultue.
Se eu agonio, me alivie.
Se me entedio, me dê rua.
Se te bloqueio, desvie.
Se dou recheio, usufrua.
Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua."

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

4 loucuras da sociedade - Roberto Shinyashiki

A revista Isto é publicou esta entrevista por Camilo Vanucci, e vale muito ler, reler e entender...

O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.
Em “Heróis de Verdade”, o escritor combate a supervalorização das Aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTOÉ – QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE?
Roberto Shinyashiki — Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura.
Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ — O SR. CITARIA EXEMPLOS?
Shinyashiki — Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,empregado em uma farmácia .
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata?
Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ — Qual o resultado disso?
Shinyashiki — Paranóia e depressão cada vez mais precoces.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim.
Aos nove ou dez anos a depressão aparece.
A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos.
Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ – Por quê?
Shinyashiki — O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.
Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa.
Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ — Há um script estabelecido?
Shinyashiki — Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz ?
“Qual é seu defeito?”
Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
“Eu mergulho de cabeça na empresa.
Preciso aprender a relaxar”.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.
Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:
” Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ — Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki — Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS.
Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.
Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ — Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki — Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.
Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ — Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki — Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia:
“Quando você quiser entender a essência do ser
humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham”.
Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.
A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ — O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki — Exatamente.
A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso.
Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar
suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ — Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki — Tenho minhas angústias e inseguranças.
Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos).
Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo.
Um amigão me perguntou:
” Quem decidiu publicar esse livro?”
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu.
Não preciso mentir.

ISTOÉ – Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki — O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas.
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.
Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.
O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ — Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki — A sociedade quer definir o que é certo.
São quatro loucuras da sociedade.
A primeira é instituir que todos têm de ter
sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.
A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias.
A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder.
O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.
Jeito certo não existe!
Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.
Quando era recém-formado em São Paulo,
trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:
“Doutor, não me deixe morrer.
Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada.
Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida .