domingo, 2 de novembro de 2014

Meus desacontecimentos...

Fui assistir uma mesa redonda na feira do livro, promovido pela APPOA, trazendo Eliane Brum ... Que estava lançando Meus desacontecimentos, autografado hoje e que felizmente
 ( infelizmente pra mim), esgotou antes que eu pudesse adquiri-lo...
Catei pedacinhos pra relembrar do papo pra registrar nuances de toda a conversa...

"Aprendi ali que ninguém é substituível. Alguns se tornam substituíveis ao se deixar reduzir a apertador de parafusos da máquina do mundo. Alienam-se do seu mistério, esquecem-se de que cada um é arranjo único e irrepetível na vastidão do universo. Quando a alma estala fingem não saber de onde vem a dor. Então engolem a última droga da indústria farmacêutica para silenciar suas porções ainda vivas. Teriam mais chance se ousassem se apropriar de sua singularidade. E se tornassem o que são. Para se perder logo adiante e se buscar mais uma uma vez, já que ser é também a experiência de não ser. – pág 104"

Uma psicanalista fazendo a sua leitura da leitura disse:" o homem carrega um mal estar provocado pela natureza, pela decadência física ou pelas relações com os demais,  o que gera uma fenda. Como consegue expressá-la: a arte, a palavra, a tentativa de entendimento é o que nos torna aptos.
Manoel de Barros dizia:.. "Sempre me ocupei de coisa do chão , um dia encontrei um pente perdido ao lado de uma arvore, sem utilidade, mais parecia uma folha  dentada se desfazendo , ali aprendi a novidade do velho-novo, a função do desobjeto."

Pensei ao ouvir isso, que a arte, a palavra, a expressão são capaz de nos reinventar...
Entendi que é a capacidade de se aproximar da fenda, desvenda-la e resignifica-la, nossa única chance de sermos sãos... Que esse mal estar/ fenda nos aproxime, se revele através da arte e nos salve...

Respondendo a uma pergunta da platéia: O que permite aos sobreviventes escreverem?
Eliane Brum diz:"Eu escrevo para suportar o buraco, pra criar sentido o que não tem sentido.., não encontro vida fora das palavras... Me ancoram... Eu escrevo para suportar , para não matar e para não morrer."

É delicioso quando nos deparamos com alguém capaz revelar seus desacontecimentos e esquisitices com familiaridade, com  naturalidade até, gerando cumplicidade,  de forma a acolher os nossos estranhamentos com doçura ou assim nos permitir...

 Momento bom seguido de uma chuva, apreciada inteiramente e sem guarda-chuva
enxurrada boa me lavando a alma e me acendendo os olhos pras cores do caminho...



E um olhar mais apaziguador à todo quebra-cabeça ...




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