quinta-feira, 30 de outubro de 2014

medos travestidos de certezas e verdades...

 

   Tempo de poucas e estéreis palavras, pode ser o tempo ou a vontade de não ter conceitos e desfazer “verdades”, a incômoda sensação de que as certezas foram invenções, criadas pela necessidade de controlar, delimitar, forjar uma normalidade e sossegar ou pior, foram medos travestidos.
          Só que o sossego não vem quando a consciência desperta e todos os conceitos ficam frágeis e burros.
          Revendo desde o início, como se criam os conceitos? A partir de experimentação, que é o jeito mais real ou por cópia e aceitação plena do que alguém julgou verdade.
          Darei um exemplo bobo, um cachorro morde um bebê, por experimentação ele pode concluir que cachorros são animais perigosos e que fazem “dodói”. Criou-se um conceito, um medo e talvez um trauma. Porém pode ser que logo em seguida outro cachorro chegue perto do bebê e em vez de morder lamba e faça brincadeiras, boas chances do conceito ser ampliado, e que o bebê reconheça que existem cachorros que mordem e cachorros amigos.   Pode ser também que a mãe do bebê tenha sido mordida e receie pelo filho e para “preservá-lo” incuta o conceito de que cachorro é perigoso. E assim infinitamente, criam-se conceitos, pré-conceitos e toda uma série de dificuldades.
         O fato é que criamos uma rede de verdades e certezas e estruturamos o que seja “nossa personalidade” encima de conceitos, que podem ser falhos e mutantes, mas que custamos a reconhecer por uma necessidade bem infantil e maniqueísta, de sabermos quem é bom, quem é mau, o que é certo, o que é errado, o que podemos ou não podemos fazer, nisso se baseiam os contos de fada, nisso se baseiam as religiões, nisso nos baseamos quase todos os dias diante de situações, que só não são mais extremas, por que já estamos vivendo e bem acomodados na engrenagem que nos moldamos, para sermos aos olhos alheios e aos nossos, seres bem ajustados.
        Ah, quanta estupidez já fizemos em prol da normalidade, quando desejo virou abstração para correspondermos a papéis, metaforicamente quanto cachorro querido foi enxotado por temermos mordidas.
        E assim queremos que os outros correspondam as nossas expectativas e façam jus aos carimbos e verbetes que escolhemos dar a eles, como um dicionário passamos a catalogar pessoas e sensações, com o propósito de não sermos surpreendidos, se estamos construindo nosso eu em cima de bases tão frágeis e encima de relacionamentos, é normal que sejamos muitos duros e críticos com qualquer mudança brusca que possa fazer desmoronar todo um lado da nossa construção. Por isso ás vezes preferimos a mordida á brincadeira, por que reforça nosso trauma, por que reforça o nosso eu, e não nos coloca na situação limite em que me encontro agora, de duvidar das certezas.
        Milhares de vezes ao nos relacionarmos, e é nos relacionamentos que mais utilizamos mecanismos de defesas e “carimbos”, repetimos textos e cenas, ás vezes inconscientemente ás vezes não, mas repetimos ações que não nos servem e/ou nos infelicitam, por que em algum canto, criamos conceitos como: “os relacionamentos fazem sofrer”, “ felicidade é coisa passageira”, “os homens são todos iguais”, ou qualquer outra estupidez do gênero, damos de ombro e seguimos a dinâmica e não estamos buscando ser felizes e plenos, estamos unicamente reforçando o conhecido, criando novas bases para o trauma, justificando nossas deficiências em cima das deficiências alheias, o que é racional, prático e terrivelmente triste.
          De onde surgiram os teus conceitos? E os pré-conceitos? Quem é teu fornecedor de carimbos? E isso te garante? E isso te faz feliz?
          E quem é essa pessoa que te dita regras e te atordoa internamente? Esse é teu EU? E de que te serve um eu criado assim, cercado, delimitado e medroso?
          O cachorro te mordeu ou foi aprendido? 
          Onde andam teus medos? E tuas asas?


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

o olhar...


oque todo mundo precisa?
um olhar que acolha
nossa esquisitice
nossas manias
nossos medos
um olhar que ilumine
nossos escuros
e nos garanta
que mais adiante
o caminho segue
e saberemos seguir
como soubemos
andar sem sermos segurados
pedalar sem bandear pros lados

oque todo mundo precisa
é da permanência do olhar
doce
que nos amamentou
e deu colo
como uma certeza
que nem sempre nos alcança
de que ali estaremos seguros
e que a nossa fragilidade
não será contra nós usada

O que todo mundo precisa

é de um amor, como o primeiro
que nos deu útero, alimento
espaço pra crescer
tempo para ser
e depois de
um parto abrupto
nos deu no olhar/peito
sossego
capaz de alimentar
nossa fome, de segurança

mesmo sabendo
desde o primeiro abrupto
que a vida é susto
e impermanência
a gente precisa amar

sem nenhuma garantia
e todas as esperanças
...
quem te ama
te autoriza
a ser
quem se ama
se autoriza
a ser...
 

Talvez virar adulto 
seja incorporar o olhar, 
se auto-olhar 
 com aquela doçura... 
 
E isso, o que dificulte tudo ...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014