segunda-feira, 7 de abril de 2014

anotações de uma noite...

 
almas na mesa

Ele / ela são parecidos um a cada canto da mesa fazendo 
piada da dor, 
não da dor alheia, fazem piada da própria dor e rindo , 
escancarando a alma, 
sem que ninguém na mesa perceba.

Ele bebe goles largos e come com voracidade, o olhar guloso, 
passeia
sobre as moças até, que uma alma decotada, lhe sorri e 
estende o copo, 
ele serve e tudo começa.

Ela presta atenção em silêncio e no meio da conversa
sobre decoração, 
abre a alma de um jeito tão comedido que poucos conseguem 
vê-la: 
o feng shui indicou que meu quarto tinha energia estagnada,
precisava mudança, 
mas não consegui mudar nada, acho que tenho dificuldade
 com a intimidade...
Ninguém comenta, lhe estende a mão ou um olhar 
cúmplice, a conversa continua 
sobre cores de paredes, 
ela e o quarto, seguem intactos...

Eles duelam com palavras ásperas e áridas, as almas se 
aturam, 
fica evidente, se agridem com silêncios
e olhares de desprezos.

Ela esconde o rosto e o enrubescer com mãos torneadas, 
feito obra de arte, 
o artista ao lado, se apaixona pela suavidade /força do gesto, 
enxerga a alma da moça, naquela escultura alva, que vibra 
sangue nas extremidades...

Ele vê filmes infantis, lembra trechos, músicas, traços, 
personagens, ri, 
como que enfeitiçado pela magia, 
cativa como o gato de botas de Sherek, quando queria ser 
dócil, 
com seu olhos lacrimosos de pupila redondas, 
só que no moço da frente a alma infantil e doce, é genuína.

Ela retoca o batom no banheiro, ensaiando dizer vontade 
no ouvido dele.
Ao voltar, gente demais, e ela perde, não a vontade, mas a 
coragem.
Morde o desejo e um beijo quase escorrega do canto da boca, 
alma sedenta e tímida.

As almas gastam o tempo ali sentadas, na mesma mesa, 
brindam, se entreolham, nem sempre se encontram 
e a noite sempre termina.

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