quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

senha bloqueada?



Mário Quintana que sempre foi pra mim um carinho puro, um amor leve, me disse um dia:“um bom poema é aquele que dá impressão de que está lendo a gente...e não o contrário”
     Ele é o máximo, uma espécie de manual, é consenso, AMO tanto esse "velhinho" que parece até meu avô... Tenho um amigo que diz que de certa forma Mário Quintana é mesmo avô de todos nós!
         Um dia eu vinha caminhando na Praça da Alfândega e o vi sentado de pernas cruzadas, tranqüilo, observando o movimento, senti um misto de vontade de falar e receio de invadir, e emoção por que para mim ele sempre foi um mito, aí não pensei muito, cheguei , sentei ao lado e trocamos umas palavras e ele riu de um jeito querido, constrangido com o meu deslumbre e minha tietagem, falamos das ruas de Porto Alegre, de sermos ambos filhos do interior, lá pelas tantas já me sentindo mais íntima,  falei que escrevia e pedi um conselho, ele me deu o maior conselho: “não fica mostrando aos outros pedindo que corrijam ou que julguem o valor literário, ninguém pode avaliar sentimento e poesia é só isso...”
          Ás vezes acho que só sonhei com esse encontro e com esse conselho básico que deveria ampliar para todos os sentimentos e momentos da vida. Parar de esperar que me julguem ou aceitem, seria a mais pura e genuína liberdade.
               .... 
          Ontem ao assistir uma cena linda no cinema, pautada na dificuldade de expressão de sentimentos entre uma família, fui invadida por essa sensação doída de que esperamos demais dos outros, e esperamos muitas vezes o que lhes é impossível e sofremos e nos magoamos pelas incapacidades alheias, gerando muitas vezes bloqueios e incapacidades em nós. Ninguém pode medir o quanto uma palavra dita ou calada, o quanto um toque, feito ou negado, o quanto um conceito, um olhar, uma crítica, um abraço, uma abandono, uma aceitação podem alterar a nossa vida, pode formar ou deformar nosso caráter, nossa capacidade se sentir ou expressar.
           O sentir como o escrever, pode despertar empatia, projeção, repulsa, medo, insegurança, pode mexer com quem está do outro lado, mas sempre será “lido” através da lente das experiências do outro, o sentimento, e nisso o amor é o maior exemplo, nos pertence de uma forma tão íntima, que nem sempre mesmo compartilhado em anos, beijos, abraços, intimidade e dia a dia consegue ser totalmente exposto ou entendido.
         Sentimento-humano...difícil-acesso, assim como os detalhes que necessitamos para nos sentir aceitos e amados, ás vezes são ínfimos e desnecessários aos olhos alheios, e podem ao não existir, desfazerem qualquer possibilidade de contato. Uma parte lá fica a descoberto, uma parte lá exige senha de acesso, senha essa que nós mesmos muitas vezes esquecemos de desbloquear.
       Aí meu “avô” me coloca no colo e me diz sorrindo meigo : “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”...
Bora desbloquear a senha!!!! Já!!!




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