segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

conheço mulheres fortes...

... não essa força de bíceps, mal conseguem abrir uma garrafa de vinho, ninguém lhes deu esse legado, nem foi espada, talvez sejam fortes por que não tiveram outro jeito...E em certos momentos ou a pessoa se fortalece ou se quebra...
             Conheci A: veio lá de uma cidade pequena pra essa cidade, que era enorme, se perdia nas ruas, tinha vontade de correr pro colo do pai e da mãe, chorava impunemente na rua (com um certo alívio, em cidade pequena isso era impossível), mas tinha convicção de que era uma escolha e que se desistisse, ia sentir-se um nada...Continuou, firme, até que essa cidade não lhe assustou mais, até já fazer parte, até já ser dona ou pseudo, do seu nariz.Tudo que chorou e enfraqueceu virou história virou base e lá estava A. Ganhando a cidade e a força!

            Conheci B: Cheia de planos românticos conhecer o mundo, junto com o namorado, o namoro acabou um mês antes da viagem, já estava de passagem comprada, planos feitos e foi, com um parco inglês e um livrinho de frases prontas, ganhar o mundo. Achou a Europa enorme, linda, conheceu o que pode, o que planejou, parou em albergues,de mochila nas costas,  conheceu o mundo e a ela mesma um pouco mais e furou uma bota de tanto andar...viajou sozinha, conheceu pessoas e voltou feliz!

             Conheci C:Ficou grávida, de um namoro longo, mas o "amor" rejeitou a idéia, tinha outros planos, receios e achava melhor não...Ela, que não queria abortar, descobriu uma força extra e ali com uma barriga enorme, tratou de traçar novos planos, casa nova, não tinha espaço pra enfraquecer, tinha uma vidinha por dentro, que precisava de luz e de todo o amor e força que ela conseguisse...E conseguiu! Não teve um pai pertinho, falando com a barriga e ajudando a segurar o “rojão”, mas foi na medida do possível uma grávida feliz!

              Conheci D:Que contrariando as opiniões da família, casou com um psicopata charmoso, que lhe roubou a paz, o dinheiro, à auto-estima e só não foi infeliz “pra sempre” por que amparada por uma amiga, vencendo todas as vergonhas e engolindo todos os sonhos, foi a Delegacia da Mulher e ao IML registrar ocorrência das agressões que sofria.

             Conheci E:Que descobriu um câncer no seio e um companheiro que não tinha muita habilidade para tratar com doenças, que não sabia como encararia a quimioterapia e que muito insensivelmente resolveu que não estava “preparado”e sumiu.

                A vida não perguntou para A, B, C, D ou E... se estavam preparadas se apresentou e elas como aquele personagem desenho animado, se obrigaram a gritar: “EU TENHO A FORÇA!!!!!!"

Só que assim algumas desistiram de fazer planos futuros, começaram a parecer totalmente independente, se convenceram que viajar sozinha é que era bom, que ir ao cinema sozinha é que era bom, que ter uma gravidez sozinha era bom, assim desse jeito torto e com muito choro na chuva, aprenderam a serem fortes, a usar furadeira, a trocar lâmpadas e resistências de chuveiro, a não pedir ajuda, a não depender de ninguém, a não esperar por ninguém...

               Muitas delas (quase todo a abecedário), andam por aí sozinhas e muitas por razões diversas, temem novas relações, temem a intimidade. Mas pergunte a A, B, C, D....se gostam de ser/estar assim, com certeza ouvirá quase em coro que: “ Tudo na vida é melhor com parceria, compartilhado, com cumplicidade!”

              Aprenderam a viver sozinhas, mas essa solidão não foi escolha. Para algumas virou tese, virou defesa, virou talvez dureza e negação, talvez tenha se travestido de “força” e provavelmente com toda essa “força” andaram mascarando e se afastando de um tanto de sonhos que por falta de espaço, parceria ou viabilidade, resolveram desconsiderar.

              Talvez A.B. C. D. E...  Só precisem voltar a se mostrar, só precisem reconhecer que ser sensível, não é uma fraqueza, querer colo de pai e mãe e um amor pra viajar junto e compartilhar vida e compras no supermercado também não... Talvez só precisem aprender a pedir ajuda e encontrar melhores parceiros de viagem...E assim deixar de sofrer o que passou!

 Como diz uma delas: “nós somos a regra, não a exceção!” Ou alguém aí conhece quem não sofreu? Quem nunca se frustrou? Quem nunca amou sem ser amado? Quem nunca sofreu uma rejeição?

Só quem está vivo e tentando, passa por isso.

E “ter a força” é não desistir!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

senha bloqueada?



Mário Quintana que sempre foi pra mim um carinho puro, um amor leve, me disse um dia:“um bom poema é aquele que dá impressão de que está lendo a gente...e não o contrário”
     Ele é o máximo, uma espécie de manual, é consenso, AMO tanto esse "velhinho" que parece até meu avô... Tenho um amigo que diz que de certa forma Mário Quintana é mesmo avô de todos nós!
         Um dia eu vinha caminhando na Praça da Alfândega e o vi sentado de pernas cruzadas, tranqüilo, observando o movimento, senti um misto de vontade de falar e receio de invadir, e emoção por que para mim ele sempre foi um mito, aí não pensei muito, cheguei , sentei ao lado e trocamos umas palavras e ele riu de um jeito querido, constrangido com o meu deslumbre e minha tietagem, falamos das ruas de Porto Alegre, de sermos ambos filhos do interior, lá pelas tantas já me sentindo mais íntima,  falei que escrevia e pedi um conselho, ele me deu o maior conselho: “não fica mostrando aos outros pedindo que corrijam ou que julguem o valor literário, ninguém pode avaliar sentimento e poesia é só isso...”
          Ás vezes acho que só sonhei com esse encontro e com esse conselho básico que deveria ampliar para todos os sentimentos e momentos da vida. Parar de esperar que me julguem ou aceitem, seria a mais pura e genuína liberdade.
               .... 
          Ontem ao assistir uma cena linda no cinema, pautada na dificuldade de expressão de sentimentos entre uma família, fui invadida por essa sensação doída de que esperamos demais dos outros, e esperamos muitas vezes o que lhes é impossível e sofremos e nos magoamos pelas incapacidades alheias, gerando muitas vezes bloqueios e incapacidades em nós. Ninguém pode medir o quanto uma palavra dita ou calada, o quanto um toque, feito ou negado, o quanto um conceito, um olhar, uma crítica, um abraço, uma abandono, uma aceitação podem alterar a nossa vida, pode formar ou deformar nosso caráter, nossa capacidade se sentir ou expressar.
           O sentir como o escrever, pode despertar empatia, projeção, repulsa, medo, insegurança, pode mexer com quem está do outro lado, mas sempre será “lido” através da lente das experiências do outro, o sentimento, e nisso o amor é o maior exemplo, nos pertence de uma forma tão íntima, que nem sempre mesmo compartilhado em anos, beijos, abraços, intimidade e dia a dia consegue ser totalmente exposto ou entendido.
         Sentimento-humano...difícil-acesso, assim como os detalhes que necessitamos para nos sentir aceitos e amados, ás vezes são ínfimos e desnecessários aos olhos alheios, e podem ao não existir, desfazerem qualquer possibilidade de contato. Uma parte lá fica a descoberto, uma parte lá exige senha de acesso, senha essa que nós mesmos muitas vezes esquecemos de desbloquear.
       Aí meu “avô” me coloca no colo e me diz sorrindo meigo : “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”...
Bora desbloquear a senha!!!! Já!!!