segunda-feira, 30 de setembro de 2013

entre lagarta e tatu-bola

Minha avó fazia carinho em forma de pastel, demorei anos pra entender isso e perdoa-la pela falta de contato.
Lembrei disso vendo duas cenas que me comoveram no domingo, a cena de uma criança que ao ser adotada, recebe o beijo da futura mãe e limpa o beijo sem jeito e já mais velha dá seu depoimento: " eu não estava acostumada a ser beijada" e o pai de um ator, que disse claramente e com a voz embargada:" eu sempre fui muito duro e rígido com ele, eu nunca soube dizer, mas agora eu posso e não quero perder essa oportunidade, eu te amo meu filho!"
Sabe-se lá por quanto tempo essa não expressão travou a relação deles dois, sabe-se lá quanto tempo alguém demora pra aprender a ser tocada sem receio, sabe-se lá como alguém se fecha em concha e desaprende de vez a demonstrar emoção.
Vi também num filme francês dia desses a mesma dificuldade, talvez até pior, já que o personagem incapacitado de demonstrar sentimentos, se sentia acuado e fazia o extremo oposto do que desejava, ofendia e afastava. Conheço muita gente assim, triste e incapacitada.
Achei também uma carta que escrevi há anos atrás pra uma pessoa que foi importante na minha vida, onde dizia:" não quero guardar em mim tudo isso e me tornar uma velha seca, com os cantos da boca virados pra baixo, incapaz de ter tentado". Houve uma época, que a minha melhor forma de "falar" era escrevendo cartas, e muito escrevi.
Depois de algumas não respostas e de uns não entendimentos, também tive minhas dificuldades, me reconheci frágil e de um jeito defensivo, resolvi que nem todo mundo era capaz de receber e compartilhar emoção, me achei muito entregue, excessiva e resolvi me conter, como que fazendo diques internos, fui controlando palavras, fui deixando de escrever cartas, fui desistindo antes de esgotar, e o passo seguinte dessa minha economia de emoção, que aliás não aconselho pra ninguém, foi o que nomeei síndrome tatu-bola:"fiquei incapaz de reconhecer se os toques eram perigosos ou amistosos, tudo que se aproximava me fechava", foram outros tempos.
"Pronto, pronto, passou!", minha alma deve ter dito isso e soprado com carinho as dores todas, e felizmente, fui reaprendendo a sentir sem medo, fui deixando de esperar dos outros permissão pra ser, fui me tornando eu, chorona, emotiva e intensa, apesar dos riscos e não me arrependo.
Parafraseando o Barão de Itararé: " triste daquele que não tem idéia pra mudar", triste daquele que não tem emoção pra compartilhar ou as tem lá dentro, tão aprisionadas e mudas que elas só sabem arder.
Minha avó morreu e nem deixou escrita a receita de seus pastéis que eram deliciosos, quase mágicos, mas deixou escrito em mim, a necessidade de expressar o que dói e alegra, o que aprisiona ou dá asas, o que está em carne viva, o que é latente.
Minha avó, de um jeito enviesado, como ela mesma dizia, me ensinou que emoção deve ser liberta.

Triste reconhecer, ainda não aprendi... um tatu-bola anda me guardando a alma...

se eu fosse lagarta 
saberia estar tecendo borboleta 
mas não sou 
e o nada é viscoso 
não tem rosto 
ou razão aparente 
mas oprime sufoca imobiliza 
não sei de que matéria é feito 
se de pesadelos noturnos 
ou essas frustrações, 
que engolimos em cápsulas diárias 
ou de esperas ou medos 
ou de tudo que emitimos 
e não tem eco 
o nada 
é assim um lamaçal 
só que invisível 
uma areia movediça 
onde a gente afunda 
e se suja 
sem que ninguém note 
uma dor sem sossego 
um drama 
sem solução imediata 
o nada é assim 
um oco 
por onde vaza toda a energia

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