sexta-feira, 15 de março de 2013

Quando a amargura vira armadura...


Há muitos anos atrás eu assisti a um filme, onde o John Travolta ainda novinho, era o menino da bolha, vitima de uma doença que lhe tirava a imunidade, o menino passava a vida ali, naquele universo intocável.
Nada podia entrar ali, e as mãos que os tocavam eram igualmente revestidas de plástico.
Na época fiquei impressionadíssima com aquilo tudo, pra mim foi praticamente um filme de terror. Alguém nunca ser tocado e não ter qualquer contato, me pareceu a pior coisa do mundo.
A vida dele era restrita aquelas quatro paredes transparentes, que lhe garantiam a sobrevivência.
Por que lembrei disso?
Porque ontem um amigo me disse o quanto esteve anestesiado.
Era como se eu estivesse numa bolha, como se nada pudesse me atingir! Ele me disse.
Só que esse meu amigo da bolha, felizmente sofreu uma grande crise, foi vítima de uma injustiça, e com isso, a bolha protetora se rompeu, e ele percebeu o quanto precisava ser tocado, ouvido, entendido e acalentado.
Eu fiquei aqui em silêncio pensando, o quanto temos todos virado bolhas, pra nos proteger, pra nos preservar, por que reconhecemos nossas imunodeficiências, por que temos medo e o mundo, não anda um lugar seguro pra se viver, amar e ser.
Somos gente-bolha quando assistimos as cenas de guerra do Oriente Médio e de São Paulo, e vemos os mortos, os feridos, os números todos, como números, tirando do fato, a dor, o sangue e toda e qualquer humanidade.
Somos gente-bolha quando viramos o rosto, pra quem nos pede comida, um “troquinho”, quando atravessamos a rua pra não passar por mendigos, quando tentamos não ver, ou nos defendemos dizendo que isso não é problema nosso.
Somos gente-bolha quando desistimos de acreditar e ficamos fingindo conforto, num limbo de não sentir, negando a falta de ter esperança, sonhos, ideais e todas esses outros sentidos, que por anos nos serviram de motor pra viver e acordar.
Naquele tempo não éramos bolhas.
E nos permitíamos de peito aberto e cara limpa enfrentar o que viesse.
Talvez tenha vindo muito mais do que podemos suportar.
Talvez tenhamos desistido de dar a cara á tapa.
Ou talvez a crise não tenha sido suficientemente grande, pra nos despertar desse torpor e perfurar essa armadura transparente que nos preparamos.
Quando a amargura vira armadura...e vice versa.

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