sábado, 30 de abril de 2011

como é frágil...

Como é frágil... foi essa a conclusão que cheguei ao final do filme A minha versão do amor, e não consegui verbalizar.

Como é frágil! Acordei convicta... Frágil: a vida,o amor, as relações, as pessoas por mais pose de forte carreguem, as palavras, os ouvidos, os corações e as almas. Frágil a saúde, que sem muito aviso, pode nos abandonar e nos deixar desolados.

Não estamos preparados á perdas, de nenhum tipo, nem a grandes reconhecimentos, nem a assumir responsabilidades de um modo geral, podemos sempre culpar: o outro, o estado das coisas, o governo, a meteorologia, os hormônios, o síndico, o tempo, a falta de dinheiro, um alguém alheio... Por que é frágil também nosso autoconhecimento, nossa visão do todo, nossas certezas. E nossa coragem.
E por ser tudo assim tão frágil, qualquer movimento, mínimo que seja, abala a estrutura, cria o desajuste e quando se somam, põem definitivamente tudo abaixo. Amar não é álibi, nem diminui nenhuma culpa ou ato. Sempre tive muita raiva de quem pensa e age assim, supondo que o amor á tudo perdoa.

A soma de fragilidades, melindres e expectativas, tornam as relações, o que há de mais frágil no mundo.

Um descaso ali, uma palavra seca lá adiante, um desconhecimento, um plano não compartilhado e/ou desconsiderado, um silêncio mal interpretado, um desentendimento não superado, “uma mágoa nova vira chaga antiga” como bem disse o Leminski e lá se vão às promessas juradas ao padre, os sonhos tramados nas tardes, lá se vai toda a rima, a admiração e os porquês, nenhuma relação sobrevive sem isso

domingo, 24 de abril de 2011

biografia e amor não revelados...

Minha avó morreu, sem que eu tivesse acesso a toda sua história, minha avó foi uma obra que não consegui apreciar, e digo isso com uma tristeza imensa, por que já não posso abraçá-la, nem beijá-la, nem lhe dar o amor que merecia.

Minha avó precisava ser amada, mas como muitos que não foram bem amados, era uma pessoa difícil, que testava os limite dos afetos, que dizia palavras secas e duras talvez ou por que não aprendeu a adoçá-las ou simplesmente por que precisou ficar amarga pra se defender.

Me lembro criança sem nada saber e sempre ter que deixar a sala quando a conversa era de “gente grande”, cresci nesse “antigamente” onde as famílias guardavam segredos e silenciavam “maus passos”, como eram chamadas paixões avassaladoras, gravidez prematuras, fugas de casa, traições, filhos fora do casamento, casamentos infelizes e outras coisinhas do tipo. E assim nesse jogo de esconde-esconde muitas histórias de bisavôs, avôs, tios e até mesmo de nossos pais ficaram incompletas, quanta incompreensão a partir disso.

Sempre que leio biografias, me reapaixono pelos biografados, me identifico, me aproximo, me sinto cúmplice.

“Homem é tudo igual, homem não presta!” minha avó disse-me um dia, como se ensinasse um mantra perfeitamente embasado em toda a sua história, “o amor é que nem fumaça, sufoca mas passa”, a sua mesma dor ditava, eu imaginava que era uma certa espécie de ódio que ela nutria por mim, que lhe fazia tão ferozmente tentar destruir meus recém descobertos sonhos românticos.

Faltou conhecer a biografia de minha avó, faltou enxergá-la, ouvir de sua dor e compartilhá-la e desarmadamente poder mimá-la e dar o colo que só esperei receber, faltou entender que atrás daquele muxoxo que ela fazia diante das minhas emoções de adolescente, existia muito amor, um amor desajeitado, cuidadoso e grande, alicerçado num medo enorme de me ver sofrer, como ela sofreu um dia, por amar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Depois dos 40- Artur da Tavola

 Coisas que a vida ensina depois dos 40

Amor não se implora, não se pede não se espera...Amor se vive ou não.

Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.

Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para mostrar ao homem o que é fidelidade.

Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.

As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.

Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.

Água é um santo remédio.

Deus inventou o choro para o homem não explodir.

Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.

Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.

A criatividade caminha junto com a falta de grana.

Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.

Amigos de verdade nunca te abandonam.

O carinho é a melhor arma contra o ódio.

As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.

Há poesia em toda a criação divina.

Deus é o maior poeta de todos os tempos.

A música é a sobremesa da vida.

Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.

Filhos são presentes raros.

De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.

Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves queabrem portas para uma vida melhor.

O amor... Ah, o amor...O amor quebra barreiras, une facções,destrói preconceitos, cura doenças...

Não há vida decente sem amor!

E é certo, quem ama, é muito amado.

E vive a vida mais alegremente...

 © Artur da Távola

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ah, a hora da musica lenta...


Eu sou de antigamente e me sinto assim “antiga” quando relembro saudosamente de certos rituais da minha adolescência. Existiam amores platônicos fortíssimos que podiam durar mais de ano, acreditam? Existiam diários registrando esses amores, que tinham até chave. Existia a paquera na frente do colégio, ou flerte pra ser mais exata e totalmente antiquada. Existiam bailes, festas de garagem, luz negra e existia a melhor parte: a hora da música lenta.
A hora da música lenta era a hora mágica onde a aproximação se fazia, onde a paquera do colégio confirmava a escolha. Onde se aproximavam (mas não muito) os corpos, onde se sentia aquele frio na “espinha”, o cheiro e a voz pertinho do ouvido, ai...era a hora que a timidez dos meninos precisava ser vencida, por que eles “tiravam pra dançar”, e muitas vezes era a hora em que era feito o “pedido em namoro”. Esse assunto deve estar soando mentiroso para qualquer pessoa de menos de 20 anos, mas acreditem, era assim mesmo...
Então depois do “pedido” começava o namoro, o acompanhar do colégio até em casa, as mãos dadas, depois o convite para a matine, que era o cinema durante o dia onde “normalmente” acontecia o primeiro beijo, tudo assim, mais lento, mais passo a passo, e acreditem era lindo!

O tempo foi passando, as declarações de amor foram saindo de moda, amor foi sendo considerado brega, tudo necessitava ser rápido, imediato, aí entraram com tudo os “fast-food”, surgiu uma espécie de fast-vida, a música passou a ter uma batida quase cardíaca. Pra tudo parecia muito tarde, nessa “reestruturação” de mundo, muitos valores “bailaram” e música lenta ninguém dança mais!
Eu adoraria que amor não fosse brega, que intimidade fosse coisa natural, que as pessoas dessem tempo para se conhecer, namorar, descobrir afinidades, admirarem-se profundamente (além de “shapes”e silicones). Que sexo fosse conseqüência de se amar (e não sou puritana!!) e que homens e mulheres falassem a mesma língua, que construíssem relações de afeto e não de jogos.
Mas sei que sou romântica e fora-de-moda querendo tudo isso, ás vezes me pego querendo “absurdos” como honestidade, dignidade e confiança no ser humano...estou quase senil!!!
Mas como gosto de acreditar , lanço aqui uma campanha - À VOLTA DA MÚSICA LENTA PRÁ DANÇAR!!! Quem sabe o que um namorinho...um amor de antigamente...uma luz negra...podem desvendar...

domingo, 10 de abril de 2011

com a palavra Monja Coen...

JAPÃO


Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me
incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do
povo Japonês: kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si
mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e
disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz
de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o
mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos
vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas
nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade,
paciência, honra e respeito de todas as vítimas. Filas de pessoas
passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém
queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas,
alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se
mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e
gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas
necessitando de remédios perdidos – mas esperaram sua vez também para
receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos,
roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene
pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de
verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques.
Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que
recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de
kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença.
Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.
Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar
falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo
minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos
causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus
sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos
cuidadas e respeitadas.
O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de
mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a
atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade,
sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas
encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de
resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do
exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias,
helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda
população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que
“somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi
telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da
confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que
não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e
quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo,
tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está
interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de
salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos
na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas
tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades,
vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada
produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma
tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a
paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à
reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de
respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que
acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza
em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a
amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso
dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com
elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a
respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)
Monja Coen