domingo, 20 de março de 2011

o menino que comia chuva...



Vi um menino tomando banho de chuva, era pouco mais que um bebê, dois anos talvez, estava no colo do pai, que pra tornar o incômodo uma brincadeira dizia bem alto: "Socorro, a chuva está molhando meu filho...Socorro!"
O menino no colo ria muito, lambia a chuva e tinha tal deslumbramento nos olhos, e tanto brilho que fiquei me perguntando: há quanto tempo será que perdi isso? Será que ainda tenho viva essa capacidade de brincar com o imprevisto, de transformar um banho num acontecimento, um colo no melhor lugar do mundo?
Em que momento a mágica capacidade do deslumbramento nos abandona? Ou somos nós, que nesse exercício de gente grande, abrimos mão dela?
Será que só temos essa capacidade nas inaugurações? Seria aquele o primeiro banho de chuva do menino?
Por que as chuvas não mudam, a natureza continua a fazer coisas interessantes: arco-íris, luas enormes ou mínimas, pôr do sol multicolorido, lagartas que viram borboletas, flores, primavera, outono, etc... Isto falando só em fenômenos naturais.
Fora às outras possibilidades de deslumbramentos: palavras que nos interpretam, olhares que se cruzam e param, músicas que nos tocam, arrepios e suspiros, toques, abraços, beijos, etc...
Será que com o tempo, perdemos a capacidade de nos surpreender?
Será que o “correr da vida”, ao nos apresentar surpresas não divertidas, nos cria defesas e olhares opacos?
Será que os exercícios adultos, de pressa, urgência, seriedade e maturidade, nos paralisam?
Será que ficamos tão bestas, a ponto de considerarmos besteira, rir por encantos passageiros?
Vendo aquela alegria brilhante do menino senti uma vontade enorme de também comer chuva e brindar com ele, essa capacidade sábia, que as crianças tem e alguns adultos não abandonam; de curtir o que a vida oferece, pra ser feliz!
Deslumbrante...Cada dia que nasce sempre é...O resto do dia é o que fazemos dele...
Eu quis como o menino, aprender a curtir tudo, rir aberto, provar e lamber as oportunidades.
Viver e ser feliz depois disso, me pareceu uma escolha simples, estar na chuva pra se molhar!

2 comentários:

Anita Félix disse...

E você acredita que perdeu este deslumbramento pelas coisas tão bonitas da vida?? Nada! Além da sua percepção de deslumbramento, nos brinda com esta imagem e este texto que trazem um pouco daquela chuva pra cá...
Obrigada!
Beijos!

@gleitecn disse...

Gostei muito do texto, traz de forma sensivel a percepcao do invisivel!
Obrigado por nos presentear com texto tao bacana!
Parabens