segunda-feira, 28 de março de 2011

num domingo de outono...

Imagem linda de Luciana Mena Barreto

Domingo de garoa fina, enfrento a minha preguiça e sigo pra um filme do 7º Festival de cinema internacional, o filme que havia me chamado a atenção: “Na companhia de estranhos”. Um drama canadense que mostra uma viagem e um incidente, que estimula as trocas e conversas de oito mulheres estranhas entre si (sete senhoras entre 70 e 80 anos e a condutora do ônibus de trinta e poucos).
Por que o assunto me interessaria? Por que gosto de histórias de vida, gosto de encontros e emoções compartilhadas e suponho que goste de gente, e digo suponho por que tive uma prova quase questionável disso, antes do inicio do filme. Um grupo ruidoso de senhoras, parecendo adolescentes, provavelmente na faixa dos 70-80 anos, sentou na fileira atrás da minha e tagarelavam estridentes e emocionadas sobre uma excursão que fariam em breve. Eu alheia e não conectada com a beleza de se manter a emoção tão em dia, mesmo com o passar dos anos, só pensava: tomara que parem de falar, senão vou me irritar... E já estava assim bem ranzinza e previamente propensa a uma irritação, quando o filme começou e elas foram aos poucos, silenciando.
O que me marcou, foi que passado algumas brincadeiras e risadas onde diziam: Ah, mas essa está pior que nós! Tem problema nos joelhos, olha como caminha... Foram como eu, entrando na história, e mergulhamos todas nas emoções ali compartilhadas.
Um filme bonito, parecendo mais um documentário, com depoimentos tocantes, de vidas que foram marcadas e moldadas, e com o resultado final em balanço.

Como bem disse o Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo, e a vida o que quer de nós é coragem...”

No embrulho vêm um montão de coisas lindas, muitas inesperadas, a maioria sequer planejada, muitas emoções e amizades que vão nos alicerçar, muitas razões para seguirmos firmes, muitas risadas e descargas de ocitocina e serotonina que nos garantirão muitos e novos coloridos, surpresas que nos darão tempero... nosso alimento e matéria-prima, mas junto disso tudo, muita adversidades e incidentes. O que garante que todas as histórias de vida são tocantes, são de luta, de enfrentamento, de queda seguida de reação. Se continuamos aqui, somos todos sobreviventes e, tivemos que nos adaptar a alguma realidade, engolir alguma frustração, abandonar algum sonho, seguir apesar do medo e principalmente fazer um esforço danado para não se abandonar ao ranço, não perder nem a esperança, nem a emoção. Por que a vida gosta de testar nossa resistência e quer ver afinal o quanto aprenderemos nisso tudo.

Fiquei tentando me projetar anos adiante, imaginar que personagem parecia comigo, foi um exercício interessante, porque obviamente percebi que tenho muito que mudar e aprender se não quiser me tornar uma senhorinha chata e intransigente. O que comprova minha irritação no inicio do filme, é que preciso urgentemente testar minha flexibilidade e tolerância, conviver com a diferença sem um olhar ou postura crítica, reconhecer e apreciar a emoção alheia e permitir que me toque.

Ali no escuro e ao final enfrentando a chuva da saída, tive que reconhecer o quanto é uma questão de postura. Se todas as historias em absoluto tem durezas e aconchegos, em que lembranças eu pretendo me apegar?
Qual postura eu terei na velhice: divertida ou séria, ativa ou apática, leve ou pesada, prática ou acomodada,solitária ou bem acompanhada,saudável ou doente, triste ou feliz? Será que culparei os outros e o tempo ou aceitarei minha responsabilidade?
Envelhecer sem sentir-se vítima do tempo e da vida é uma leveza, um exercício que é necessário aprender.
Somos ensinados a valorizar a ação, a juventude, o vigor e a rapidez, teremos obrigatoriamente que conviver com uma diminuição de ritmo, sem nunca parar, aprender a respeitar os joelhos e o coração, aprender a cultivar prazeres e alegrias possíveis.
É um aprendizado longo, que começa com uma postura de agora, de respeito e reconhecimento ao que somos, de valorização ao que fomos capazes de fazer, ao que conseguimos realizar e manter, a nossa resistência diária, ao cuidado com o nosso “embrulho”.

Sorri ao final, para minhas colegas de sessão e esperei chegar aos 70-80 planejando conhecer novos lugares, com o mesmo deslumbramento delas.

Como eu estava suficientemente sensível e já escolhi o cinema como meu prazer íntimo e pessoal, encarei a chuva e mais uma sessão, seguido de um café gostoso e um olhar menos crítico.
Um jardim não é menos belo no outono, só é diferente. Aprendi no filme seguinte.

sábado, 26 de março de 2011

Um texto antigo...sobre a aniversariante..

Lembrando por que me escolhi Porto Alegre pra morar...

Descobri meu lugar, onde consigo ser todas as outras que me habitam, sem conflito.
Sentindo falta daquela eu interiorana, que como criança, acreditava nas pessoas, nas boas intenções, acreditava em tudo incontestavelmente, saio a me procurar nas ruas da auxiliadora, cumprimento àqueles que ainda sentam nas calçadas, me vejo nas crianças que brincam na rua e prossigo.
Para esquecer de mim, me exilar, caminho na rua da praia, ao meio-dia, sinto a pressa das pessoas, a neurose cronometrada do centro da cidade e sou ninguém tranqüilamente.
Quando romântica, querendo enxergar beleza, sento na beira do Guaíba e vejo ele receber brilhante, o sol que se põe vermelho, para mim e para alguns casais que se beijam e siluetados, viram um só.
Se acordo subitamente comunicativa e quero encontrar e abraçar pessoas, procuro o Bric aos domingos e muito sociável, tomo chimarrão e sou feliz.
Querendo extravasar, xingar, gritar, vibrar, sentindo a força de ser massa, vou à Beira-Rio e sossego o stress me sentindo multidão.
Quando quero me sentir na Europa, caminho entre os plátanos do DMAE da Vinte e Quatro, tomo um café no Teatro São Pedro, passeio da Casa de Cultura, no Margs, me sinto no primeiro mundo e me orgulho.
Para assumir toda a culpa do mundo, encaro as crianças na sinaleira, a falta de perspectiva dos moradores de rua, cada vez em maior numero, me sinto impotente e enfraqueço.
Quando preciso natureza, caminho no Morro do Osso ou me permito uma sombra no Parque da Redenção e viro árvore, vento.
Para sentir a leveza, o descompromisso, a sensação de "beira-mar", passeio por Ipanema, tentando esquecer que poderíamos
andar por ali de biquini e nos refrescar, se não tivéssemos poluído tanto o nosso quase mar.
Ah, e quando eu quero a "boêmia que aqui me tem de regresso", vou pra parte festiva da cidade baixa, e se quero boa música, violões e vozes, é no São Jorge e o Dragão* que ficarei até de madrugada.
É assim, caminhando entre plátanos e jacarandás por tantas ruas mágicas, que vou compondo meus pedaços, vivendo minhas metades, fazendo de Porto Alegre meu ninho&esconderijo.



*O São Jorge fechou, e eu nunca mais encontrei um outro boteco pra chamar de meu...aceito sugestões!!

quinta-feira, 24 de março de 2011

o que será que me dá, me "bole" por dentro...


Não entendo por que, mas essa musica seeeeeeeempre mexeu comigo de um jeito totalmente imprevisto...não é a letra, nem o olhar desafiador do Bowie, acho que são os acordes, causa é uma espécie de desassosego...
Vou colocar aqui no meu "diário" pra sempre voltar e lembrar...é bom ter por perto, musicas que nos toquem, mesmo que sem nenhuma razão aparente...Vai ver é saudade de Marte né?

domingo, 20 de março de 2011

o menino que comia chuva...



Vi um menino tomando banho de chuva, era pouco mais que um bebê, dois anos talvez, estava no colo do pai, que pra tornar o incômodo uma brincadeira dizia bem alto: "Socorro, a chuva está molhando meu filho...Socorro!"
O menino no colo ria muito, lambia a chuva e tinha tal deslumbramento nos olhos, e tanto brilho que fiquei me perguntando: há quanto tempo será que perdi isso? Será que ainda tenho viva essa capacidade de brincar com o imprevisto, de transformar um banho num acontecimento, um colo no melhor lugar do mundo?
Em que momento a mágica capacidade do deslumbramento nos abandona? Ou somos nós, que nesse exercício de gente grande, abrimos mão dela?
Será que só temos essa capacidade nas inaugurações? Seria aquele o primeiro banho de chuva do menino?
Por que as chuvas não mudam, a natureza continua a fazer coisas interessantes: arco-íris, luas enormes ou mínimas, pôr do sol multicolorido, lagartas que viram borboletas, flores, primavera, outono, etc... Isto falando só em fenômenos naturais.
Fora às outras possibilidades de deslumbramentos: palavras que nos interpretam, olhares que se cruzam e param, músicas que nos tocam, arrepios e suspiros, toques, abraços, beijos, etc...
Será que com o tempo, perdemos a capacidade de nos surpreender?
Será que o “correr da vida”, ao nos apresentar surpresas não divertidas, nos cria defesas e olhares opacos?
Será que os exercícios adultos, de pressa, urgência, seriedade e maturidade, nos paralisam?
Será que ficamos tão bestas, a ponto de considerarmos besteira, rir por encantos passageiros?
Vendo aquela alegria brilhante do menino senti uma vontade enorme de também comer chuva e brindar com ele, essa capacidade sábia, que as crianças tem e alguns adultos não abandonam; de curtir o que a vida oferece, pra ser feliz!
Deslumbrante...Cada dia que nasce sempre é...O resto do dia é o que fazemos dele...
Eu quis como o menino, aprender a curtir tudo, rir aberto, provar e lamber as oportunidades.
Viver e ser feliz depois disso, me pareceu uma escolha simples, estar na chuva pra se molhar!

sexta-feira, 11 de março de 2011

ação e reação

"...O pensamento indígena conclui que, tendo outrora sido humanos, os animais e outros seres do cosmo continuam a ser humanos, mesmo que de modo não evidente.
Se tudo é humano, nós não somos especiais; esse é o ponto...E, ao mesmo tempo , se tudo é humano, cuidado com o que você faz, por que, quando corta uma árvore ou mata um bicho, você não está simplesmente movendo particulas de matérias de um lado para o outro, você está tratando com gente que tem memória..."se vinga, contra-ataca, e assim por diante. Como tudo é humano, tudo tem ouvidos, todas as ações têm consequência
"
Parte da entrevista pra Cult do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e que lembrei ao ver as cenas tristes no Japão...