domingo, 23 de janeiro de 2011

órgãos silenciosos...

Dia desses nessas fotos do tunel do tempo que vez ou outra aparecem no facebook, fui brindada com uma lembrança: bebíamos, “há mil anos atrás”, vinho de garrafão...Até comentei: era um tempo abençoado onde nem lembrávamos de ter fígado...e isso ficou batucando na minha cabeça.
O fato é que antes, todos os nossos órgãos eram silenciosos, funcionávamos, com pouquissimo sono, comíamos X com ovo, cachorro quente , frituras, carreteiro com sobras de churrasco e outras encrencas, na madrugada ou no raiar do dia, tomávamos vinhos baratos de garrafão, cervejas ao sol, e nada de fígado, nada de estômago, nada de cabeça doer, simplesmente a maquininha funcionava silenciosa e lindamente ... Os olhos também enxergavam longe e perto sem nenhuma lente auxiliar, as pernas dançavam e se enredavam noites inteiras sem nenhum dorzinha muscular, mal sabíamos da existência de um tal “nervo ciático”e nem nas aulas de biologia ligávamos pra taxas de colesterol, triglicerídeos, glicose, enfim...a vida era uma festa, sem hora nem dor pra atrapalhar... Ah, tinhamos vez ou outra umas palpitações e umas borboletas no estômagos, uns choros urgentes, mas era só o musculo do coração em pleno estado de paixão, amores sempre foram bem vindos, e dessas dores nem convém reclamar... Confesso que senti saudade desse silêncio de órgãos e dessa festa, que felizmente vivi...plenamente.
Mas aí, mais adiante, no mesmo facebook, uma amiga menina, que deveria estar em plena festa de idade escreveu: “Preciso de algo que me tranquilize e me deixe feliz!!”

Putz, como um porre de vinho que se quer esquecer, (mais tarde tive essa experiência inesquecível), lá fui eu lembrar o quanto esse é o caminho mais curto pra ficar triste, e o quanto eu fui triste e um peso, lá atrás, ao esperar que alguém me fizesse feliz e me tranquilizasse, lembro bem que na idade que ela está, esse algo é igual a alguém...
Ah, mas é dar muita responsabilidade e poder aos outros esperar que a felicidade venha de fora, e lá pelos 25 – 30 anos, os órgãos ainda estão silenciosos, mas a gente resolve dar ouvidos a cultura boba e casamenteira, e sem questionar muito, já imagina que está quase na hora, ou até que já está tarde, pra ter uma relação, que vire vínculo, que vire nucleo e que dê sentido e gere um filho...No tempo do vinho de garrafão, ao menos comigo, foi assim...

Lembro que defini essa fase numa frase: "ando me buscando em bocas e braços alheios" e foi um péssimo momento, onde estive sujeita as piores escolhas...mas felizmente passa, “mas tudo passa, tudo passará, e nada fica , nada ficará” , alguém lá do outro tempo, deve lembrar assim como eu, o Nelson Ned cantar isso...passa mesmo.
Fico feliz que tenha passado e posso mesmo suspirar aliviada, que o custo dessas vivências se resuma a órgãos que subitamente se façam presentes, a cuidados maiores com o que venha ingerir e o grande lucro: uma tranquilidade e uma paz só minha, de dentro, de aceitação, de não urgência, de talvez sabedoria...
Já não enxergo perto nem longe sem a ajuda luxuosa de um óculos, mas me sei por dentro, me reconheço, me aceito, posso mesmo dizer me amo e sei bem o tanto de bem que mereço, e isso não tem mastercard que compre...é uma felicidade simples e particular...
Ter vivido pra descobrir isso, ter tido minha filha bem depois dessa urgencia boba dos 20 e poucos anos e principalmente poder me permitir escolher e ter o que melhor me faça, merece um brinde com Freixenet ou um carmenere da melhor safra...
Um brinde ao aprendizado , um brinde ao silêncio acalentador da alma!

Ps- certa vez perguntaram ao Paulo Autran se envelhecer era bom, ao que ele respondeu: “é maravilhoso, considerando a outra opção”... Essa é a sabedoria, aproveitar a oportunidade de viver e aprender, sempre!

2 comentários:

Anita Félix disse...

Ahhh ... tão bacana isso que você escreveu.....adoro passar por aqui...
beijos!

Familia D' Almeida Bianco disse...

Nadia!! tens que escrever um livro!! Parabens!! Nao imagina o bem que me fez!!!
Obrigada!!
Patricia