segunda-feira, 9 de agosto de 2010

duas cenas de uma só personagem...

Cena 1 – eu ingênua

Eu sempre tentei proteger a minha filha da realidade. Como ás vezes tento proteger a mim mesmo, fugindo de algumas notícias e de horrores que a TV e a internet me fazem engolir goela abaixo, uma alienada? Sim, ás vezes...
Evito os programas e as notícias sangrentas, pago uma TV á cabo para que ela assista filmes e séries que me pareçam mais de acordo, para que possamos assistir programas que não nos tirem o sono, censuro filmes e cenas, tento bobamente e em vão, preservá-la...
Enquanto assisti o filme: “quem quer ser um milionário?”, ela assistiu um de 3D com as amigas na sala ao lado, jamais pensei que ela pudesse assistir aquele filme comigo. Talvez se tivéssemos visto o filme juntas, eu teria percebido que minha filha já formou um olhar sobre o mundo e a vida, sem a tal ingenuidade que eu supunha ainda poder preservar.
Esse assunto veio até o nosso almoço, por que um amigo que assistiu o tal filme acompanhado da filha de 10 anos, me disse chocado que ela percebeu a má intenção do apresentador “dando” a resposta errada, enquanto ele havia sido enganado pela suposta benevolência. Eu também acreditei, que aquele “Silvio Santos indiano” queria ajudar, tinha se compadecido com o esforço e a pobreza daquele menino,tinha se lembrado de seu próprio início...
Quis saber qual seria a reação da Alice e ao contar a cena, ela sem titubear me disse: É claro que ele está dando a reposta errada!
Pode parecer esquisito, mas eu fiquei um pouco triste de ver crianças ou pré-adolescentes (será toda uma geração?) ,com esse grau de “esperteza”, que eu entendi como essa incapacidade de crer.
Comento com a minha filha e ela me diz como se formulando uma tese: “mãe, nós temos muito acesso a informação, não somos crianças como vocês imaginam, não somos ingênuos, sabemos que o mundo é o que é...
Tu é ingênua mãe!”
Ah, sim eu ás vezes sou...e gosto... Pollyanna vive... Santa ingenuidade, Batman !

O mundo pode ser terrível: frio, calculista, ganancioso, violento, eu estava bobamente querendo preservá-la disso, mas...Ela já percebeu!


Cena 2 – eu precisando crer

Noite de domingo em Porto Alegre, frio cortante
na cama embaixo de cobertor e edredon
vejo uma entrevista com meninos que moram nas ruas:
repórter:_É Deus quem te guia ?
menino:_ Tomara!

Que esperança e crença
pode ter um menino que além de morar na rua,
dorme empoleirado no toldo dos corredores de ônibus,
para se proteger dos "grandes"?
Esperança que exista alguém ainda maior que possa protegê-lo.
Tomara!

Eu como aquele menino de rua, tenho optado por crer que existe sim um Deus, uma vida depois disso tudo, uma vida antes , onde tudo possa se justificar e ter enfim um sentido e justiça...É insuportável não crer, é insuportável que a vida desses meninos e de tantas outras pessoas, seja só um amontoado de dor e carência e que ao final, tudo termine assim...Uns morrendo de dor, outros de frio e de outras tantas formas desumanas.
Prefiro e preciso acreditar que um Deus lá de cima olha, abençoa e de alguma forma promete dias melhores...Mas também não posso negar, que temos uma parcela de culpa horrível, no estados de todas as coisas e vidas.
Em um dos filmes que compõem o documentário11 de setembro, quando a professora comenta que um avião destruiu uma das torres, um menininho pergunta:
_ Foi o Deus?
Ao que uma outra menina responde:
_ Não seu bobo, o Deus não faz aviões, o Deus fez os homens!

Tem muito “humano” por aqui brincando de Deus e destruindo vidas, tem muita gente fornecendo as armas para depois, baseado no “perigo que é alguém armado” se outorgar o direito e o dever, de ir até lá desarmar, matar e “cuidar do território”.
Tem muito “humano” fomentando a violência, patrocinando e lucrando com o crime e toda uma série de injustiças sociais, para depois pedir pena de morte.

Que haja um Deus e que esteja de olho em tudo isso!

Um comentário:

Luciane Slomka disse...

Ah, Nádia, quanta coisa para refletir nisso que tu escreveu. Concordo tanto contigo que não é a toa que meu blog se chama crer para ver. Porque está cada vez mais dificil acreditar nas coisas e nas pessoas. Acho que a Alice e a geração dela sabem disso, e apesar de tu ter parecido meio boba de ter tentado evitar que ela enxergasse essas pequenas "crueldades" do mundo tão cedo, talvez esse tentativa por si mostre a ela que a gente precisa tentar desnaturalizar essa lei do mais esperto. Que apesar den perdermos a ingenuidade não podemos perder a capacidade de ao menos QUERER acreditar que as pessoas podem querer ser boas, e que isso pode vir como algo do ser humano, e que sejo menos raro.
Mas, como tu bem disse: TOMARA!
Beijão querida!