domingo, 25 de abril de 2010

pra lembrar como é simples ser feliz!

das formas da saudade

Meu pai usava palitos de dentes, um hábito da fronteira, uma birra com minha mãe, um gosto, vai saber...ficava com aqueles palitos rolando de um canto a outro da boca, mascava-os, de forma que as vezes tão íntimo e esquecido do acessório, dava umas cochiladas com palito e tudo.
Nunca gostei dos tais palitos, tinha receio que um dia engolisse, além de achar estranho achava um pouco anti-higiênico, mas eram dele.
Ah, como são estranhas as lembranças e embrulhadas ás vezes, modifiquei meu desgostar...
Digo isso, por que agora que meu pai se foi, deu pra aparecer palitos aqui pela minha casa, em algum cantinho está lá, plena a saudade de meu pai, eu pego eles com cuidado, como se pudesse abraçá-lo, pisco pro céu agradecida, entendo e guardo com carinho os recados do meu pai.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Nem mais no cinema, temos garantia de final feliz!



Nem mais no cinema, temos garantia de final feliz!
Escrevi essa constatação numa época que buscava desesperadamente um final feliz, buscava que ao menos a telona e o escuro me acolhessem com essa possibilidade, não foi um tempo fácil, como não são fáceis os finais, os amores e as não garantias da vida...
Hoje uma amiga me disse que deveria ter uma legenda nas locadoras sinalizando que aquele filme tinha final feliz, lembrei de mim...
Queria ter alguma grande tese, como essa que o Guel tenta desenvolver no filme Romance...Será a infelicidade a tônica de todos os romances? Será o que nos move? Será mais fácil conviver com um que outro surto de felicidade do que com uma paz, estável e amorosa? Será que uma paz amorosa estável é viável?
Como a Nancy do Chico Buarque eu poderia cantar tragicamente num tango: "quem sou eu para falar de amor, se amor me consumiu até a espinha...O amor jamais foi meu, o amor me conheceu, se esfregou na minha vida e me deixou assim..." Há tempos eu não sou tão trágica, "deve ser da idade" me socorre a Marina, ou uma constatação forte e mutante como lua cheia: somos seres apaixonados e a paixão não é bichinho domesticável, somos seres sedentos e talvez o mundo nem tenha assim tanta água, ou quem sabe seja simples como já disse o Vinicius, os amores são eternos enquanto duram e frágeis...frágeis como somos nós, querendo garantias na eternidade...Querendo estabilidade de pés firmes, no que é vôo na essência...

Feliz de quem ama, feliz de que amou, feliz de quem ainda amará...

sábado, 17 de abril de 2010

A Camila voltou delicadamente...

Ela começa assim, com uma citação do Neruda:
"Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras" e eu fico grata por que sei bem como é bonito se encher de flor e tem gente assim, que ajuda nos brotar e é desse tipo de energia que eu quero (sempre) estar próxima...
ah, eu gosto da Camila, e conheci nem sei bem como, mas com certeza, sei por quê, temos essências parecidas, rimos e choramos por coisas similares, por que as almas tem isso de se reconhecer, reconheci a Milla nas distâncias e aproximações da blogesfera e sou feliz que ela exista, e feliz quando ela ama, e muito feliz, agora que ela volta a ter um blog, anos e anos depois do seu delicioso e intimo Chocolate meio amargo...conheçam a Camila...
Temos mais um gosto em comum, achamos o Mark Ruffalo uma delicia.
Ah esse olhar, esse jeitinho e essa boca... são capazesde fazer uma primavera eterna, repleta de cerejeiras....

sábado, 10 de abril de 2010

nas chuvas do meu passado...



naquele tempo
quando o céu ficava cinza
uma velha brigava com o vento
cobria os espelhos
e guardava palmas bentas
pras tempestades
eu criança e alheia a tudo
brincava na chuva
com bolitas brilhando nos olhos
fazia arco-íris

lá, eu tinha todo o tempo do mundo
e infinita
não tinha medo, nem gripe

.....

Lembrei como as chuvas, e não as palmas, me pareciam bentas na minha infância, eu gostava de comer chuva, rindo de boca aberta, eu me sentia livre e solta, eu morava perto de um rio que ás vezes subia e nos fazia passear de canoa, foi isso que ficou, nada era realmente trágico aos meus olhos, nada...Tudo de alguma forma era uma nova possibilidade de brincadeira.

Procurando o olhar de uma menina que me fez lembrar a importância de brincar, achei a Roberta que numa janela agora on line, continua rindo e abanando, como antigamente, mas acima de tudo, tentando fazer o bem...

A menina que me tocou ontem, é uma dentre os tantos desabrigados pela chuvas no Rio, perdeu toda a família. Num desses exercícios de maldade que me parecem ás vezes o jornalismo, foi levada pela equipe da Rede Globo de volta ao morro desvastado pela água. Olhava ao longe, sacudia a cabeça e enumerava: "ali tinha a nossa casa, ali uma creche, ali era a nossa vizinha...Agora, eu vou ficar na minha tia por uma semana e depois vou ter que tocar a vida."

A capa da veja que traz o Cristo Redentor chorando diz: "Culpar as chuvas é demagogia. Os mortos do Rio de Janeiro que o Brasil chora foram vítimas da política criminosa de dar barracos em troca de votos".

Essa menina pouco maior do que eu na chuva das lembranças, nunca experimentou a sensação de eternidade, aquele olhar duramente amadurecido provavelmente nunca terá a leveza minha e da Roberta ao lembrar das águas, aquela menina e tantas outras já nasceram sob o signo do medo e do desamparo, são vítimas sem o direito abençoado de serem crianças e eu sofro e fico cinza por todas elas...

A chuva sob o olhar do meu amigo Alexandre Godinho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

sexta-feira á noite...

Primeira festa de 15 anos da minha filha...fazer hora pra buscar...bebo um vinho e espero em paz, plena sexta-feira...
Bá, o tempo é uma coisa rápida, antes era eu querendo amanhecer...
Agora ah, agora acho tão divertido um bom happy-hour seguido de uma boa noite de sono, um bom amor pra dormir abraçado tão diferente daquela outra época de busca de emoções mais borbulhantes, de pistas, de curtir o sol nascer ainda com a roupa da festa e os sapatos altíssimos que na manhã sempre apertam além da conta, tenho um pouco da saudade das canjas restauradoras,mas não estou reclamando, nem saudosista, juro! Tenho certeza que o tempo me fez melhor,mais seletiva,mais exigente, mais firme nas escolhas.
Não fico em bar que me atende mal, não tomo cerveja quente ou champagne que não seja brut geladíssima e boa, não volto em restaurante de comida meia-boca, não danço em pistas que me obrigem a ficar parada na fila (fila pra fazer marketing, ainda? Isso é tão antigo!), não me submeto a esperar, não aguento a falta de consideração ou os maus serviços, enfim podem dizer que fiquei velha ou chata, talvez...Estou na vida tempo suficiente para com conhecimento de causa escolher o que me faz bem e não aguentar o que me desagrada.
Ouvi a Madonna dizer um dia : "Se eu não aproveitar o tempo pra adquirir sabedoria, vou aproveitar pra quê????"
É assim não é?
Ai, Jesus, me abana!!!! ahahahhah

segunda-feira, 5 de abril de 2010

nada além..

por entre nossos abraços,
sobravam espaços vagos,
já não haviam palavras,
já não havia sentido,
no fundo da madrugada,
nosso silêncio gritando
uma certeza
doída:nossas bocas
não precisam dizer nada,
nada além,
do que já não se falou...

lembrei desse poeminha antigo: de palavras que perdem o tempo de validade, de emoções que gritam nas madrugadas e insones atrapalham as manhãs, lembrei de fins silenciosos, de fins escandalosos, de adeus cercados de ódios, mágoas e acusações ou de adeus exaustos, cansados, de adeus de desistência, pouco importa a forma, os fins serão sempre doídos... e necessários, como brilhantemente já disse Paulo Mendes Campos:
"...de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."