quinta-feira, 25 de março de 2010

Lembranças...

A Carmen me lembra um Drummond lindo nessa tarde cinza:
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO- Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!


Me deu uma vontade danada de mexer nas minhas memórias e descobrir o que me fez minha própria Itabira..

Eu nasci em Itaqui
lá onde a terra é solta
e o rio Uruguai sobe e desce
deve vir de lá minha necessidade de pés descalços
e mãos lambuzadas de barro
essa minha ânsia de pátio e pandorga
e uma sensação de enchente
que vez ou outra me transborda

tenho almofadas de chita
e gosto por árvores, luas e alfajores
que aprendi por lá
tenho vizinhos a quem dou bom dia e pergunto um pouco da vida
restou minha curiosidade infantil e interiorana

nessa cidade grande que escolhi
tenho saudades
de noites, grilos e
cadeiras nas calçadas
como um porto dde calma em mim
tudo misturado com um vento norte
de uma outra cidade que me habita

Estou tão longe, anos luz
felizmente a opinião dos vizinhos
que moldava passos antes
hoje já não me abate
ainda assim o orgulho besta
que aprendi por lá, permanece
como as ruas de pedra, inalterado.
Mas Itaqui, diferente de Itabira
não me dói...
me acalma e me conforta
como café da tarde
Itaqui me reconstrói...

2 comentários:

Clube do Bem disse...

Nádia, sou um paulista, nascido numa cidade de 40 mil habitantes bem no interiozão de SP, mas morei por 14 anos em Porto Alegre e hoje estou em Dublin, no Velho Mundo. Engraçado mas nunca tive vontade de voltar a morar no interior de novo, talvez, porque não tenha sido tão feliz lá como em PoA. No entanto, agora, longe de tudo, tenho vontade de café da tarde, de pandorga! Afinal:"é o hábito de sofrer, que tanto me diverte". Adorei as Pandorgas! Bjão!

Dona ervilha disse...

Muito linda a "tua Itabira". Gostei do texto, me deu vontade de puxar uma cadeira na calçada de Poa e conversar contigo até anoitecer. Fica o convite. Beijo.