quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um presente de Natal de Marcelo Canellas

"Estou ainda com uns presentes atrasados. Não me resta alternativa que não seja a de me imiscuir em um shopping, acuado e tonto feito um cão perdido. O ar condicionado não dá vazão, e Papai Noel sua em bicas distribuindo balas ao enxame de moleques que o cerca na entrada do cinema. Fujo da algazarra, mudo de corredor. Em vão. Todas as lojas estão apinhadas. Minha vantagem é que já sei o que quero, e entro na fila para ser atendido. Uma senhora pisa no meu pé e ainda fica brava porque eu estou atrapalhando.

Fecho os olhos, conto até 10, e aí ocorre o improvável: em meio ao zunzum infernal do pregão dos vendedores, distingo o timbre feminino de uma voz conhecida. Uma luz no caos, como se a frase fosse posta com a mão dentro do meu ouvido. E foi apenas um agradecimento, uma gentileza protocolar depois da compra, algo assim como “muito obrigado, e um feliz Natal” e só. Mas o sotaque da minha cidade estava ali e, junto com ele, toda uma carga de memória afetiva que despertara de um sono imemorial.

Viro-me apenas para confirmar; era ela mesma. Ao me ver, sorriu. Aproximou-se, mostrando uma surpresa algo constrangida. Talvez estivesse puxando o fio do passado para tentar chegar até mim. Então, exitosa, falou o meu nome. E eu falei o dela. Nos abraçamos e olhamos demoradamente um para o outro, e de cima a baixo, como se buscássemos vestígios de nossa adolescência em nossos corpos maduros.. Quanto tempo? Talvez não nos víssemos há uns 25 ou 30 anos. Falamos de filhos, de nossos casamentos, de nossas carreiras. Que loucura, como o tempo passa. Pois é. Pois é. Ficamos meio bestas, felizes pelo encontro casual, e um pouco tristes também porque o mundo é cheio de hiatos, de rupturas involuntárias, de momentos perdidos talvez.

O espaço entre a última vez que nos vimos e o reencontro no shopping foi um oco de décadas em nossa convivência, e é de se espantar que o afeto percorra o vácuo do tempo e retome o ponto onde parou. A ideia de não vê-la mais me pareceu absurda. E só então percebi que estava retomando uma amizade verdadeira. “Minha querida”, “meu querido”... Fomos emendando interjeições banais como a dissipar um pouco do choque benigno desse milagre de que os seres humanos são capazes, o de se ver no outro mesmo depois de uma vida de desencontros. Foi meu grande presente de Natal."


Espero que este Natal encha vocês desse tipo valioso de presente: de encontro, afeto, abraço, reencontro, beijo, esperança em tudo que ainda há pra se fazer, um ano iluminado e MUITO MELHOR PRA VIVER!!!

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