terça-feira, 27 de outubro de 2009

as escolhas...

Minha filha desde muito pequena diz que foi ela quem me escolheu, explica assim: “eu ficava lá do céu espiando tudo e aí um dia resolvi, é dessa mulher ali que eu quero nascer, ela que vai ser minha mãe”, essa mulher ali era eu, com aquele homem ali que era o pai dela, ela resolveu e veio, simples assim.
Essa teoria espírita ou bem próxima disso é dela, sempre me agradou o fato ter sido escolhida e sempre apesar de rir da convicção dela, acalentei a idéia de que se tratava de uma lembrança anterior.

Novamente foi ela que me ajudou a pensar que aquele “bonequinho de cera”, (palavras dela) deitado sem mais sorrir e dizer bobagem, não era meu pai, “o Vô não está mais ali mãe, está aqui...”(e apontou pro ar), foi assim que ela encarou a sua primeira perda, um outro processo, um final de plano, simples assim.

Uma vez eu escrevi: “ não sei da morte, suas perdas e essa dor de nunca mais”, num tempo que eu ainda não sabia, hoje eu sei e é uma falta diária, dos detalhes, das músicas, dos hábitos, da voz, do cheiro, do abraço, dos conselhos, das brincadeiras, do silêncio, do telefonema de toda noite: “E aí bicho bom, com o tu está?” Falava-se do dia e um “ amo vocês” arrematava a ligação e nos fazia dormir com os anjos. É assim, uma falta em pedacinhos, e dói.

Meu irmão me conta da grande dor que foi não poder comemorar e comentar com o nosso pai a vitória do Inter, o que era hábito deles, sendo ambos colorados doentes e na mesma noite e não por acaso, sonha que estamos numa festa e nosso pai, está bem e lá de longe, nos olha sorridente e de repente sai por uma porta.

Hoje eu quero e mais do que isso preciso desesperadamente acreditar no que sempre acreditou minha filha, preciso dessa certeza de projetos anteriores, escolhas feitas lá no céu e desse olhar atencioso de almas nos protegendo, nos elegendo, sorrindo das nossas façanhas terrestres, torcendo por nós.
Nos esperando do outro lado da porta, quando também estivermos prontos, quando dermos por encerrado nosso estágio.


De uma forma menos doída quero sabê-lo perto, pra sempre, como nosso novo anjo da guarda.

Ele está nos espiando, está tranqüilo, está feliz...

Acredito que se emocionou com o mural de fotos e o cantinho de lembranças que fiz dele.

Saboreou comigo a cerveja com a empada de camarão preferida dele, que comi em sua homenagem.

Viu o Inter ganhar no domingo.

Ouviu as bobagens que o padre falou na missa de sétimo dia.

Estava ali entre nós e todos os abraços que recebemos e deve ter feito uma ou outra piadinha irônica.

Meu pai que nos espia sorridente, com certeza sabe que fui eu que o escolhi e que o escolheria de novo, pra ser meu pai ...

“eu estava lá espiando do céu e apontei lá pra praça de Itaqui um casalzinho novo e apaixonado e decidi aqueles dois ali, quero ser filha deles”...

Não poderia ter feito melhor escolha!!!

domingo, 25 de outubro de 2009

Em um tempo remoto eu dizia palavras de ordem: "o povo unido jamais será vencido!" Seguido de um estribilho do vandré: "vem vamos embora que esperar não é saber/fazer, quem sabe faz a hora nao espera acontecer!"

Mudou o tempo? O grupo? A fé? A cor? A esperança?

Mudou quase tudo...

A frase que me vem nesse domingo, também é antiga, porem mais proxima e verdadeira traz a revolução pra dentro: "não se iluda, nada muda se você não mudar!"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...

Um dia mandei esse bilhete pro meu pai, e outros tantos, por que sempre soube o quão importante e grande era nosso amor e nossa vida:

Paizão, preciso te dizer que eu te amo muuuuito, mas mais que isso, tenho muuuito orgulho de ser tua filha. Quando estou lá no meu boteco, rodeada de gente, de todas as idades e tipos, ouvindo músicas até amanhecer (ás vezes), tenho certeza que é a parte que tu me deu que está lá, e que se sente tão bem na noite, e não preciso beber para sentir quanto é mágico e especial estar com as pessoas, conviver, trocar, aprender, e são de todos os tipos, o tio que vende churrasquinho na esquina, um juiz, um músico bom demais que nunca chegou a fazer sucesso, os chatos, enfim, gente!
Tu me ensinou a desfrutar, aproveitar a vida, seus momentos e respeitar a todos, já que ninguém é mais importante ou melhor que ninguém, sensação legal e real que aprendi te vendo tratar a todos igualmente. Por isso meu velho gostoso e lindo, sei que te levo nas minhas noitadas e no meu coração sempre, onde tu tem uma suíte bem escurinha e com cama grande.

Te amo!


Que bom ter um PAI e uma MÃE com letra maiúscula assim, e que bom ter herdado esse gosto pela vida e pela liberdade e o respeito ao próximo que tão bem vocês me ensinaram! Quero que a Alice aprenda essas coisas boas... vocês são muuuuuito importantes pra nós!!!

Isso é muito íntimo. Se eu trago aqui, é para que vocês se inspirem a fazer o mesmo com seus amores, digam...por que abraços, beijos e carinhos devem ser diários, felizmente eu aproveitei bem meu tempo com meu velho e agora tenho muito pra lembrar!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Simples assim...


Sou daqui filho de Maria lavadeira e do Tonho pescador: Me criei assim na lida, ajudando mainha, vendendo peixe mais pai, com esse cheiro enroscado no corpo, fiz tres anos de escola, me apelidaram de Peixe podre e fui ficando pelos cantos, olho de peixe morto me disse a Dorinha, logo ela que era a mais linda, e se riu de mim, pra escola eu não quis mais voltar, vergonha...Sei assinar o nome e faço conta, não sou analfabeto, não carecia mais que isso...continuei pescando, o cheiro? A senhora sabe que nem sinto mais?...Mainha morreu, painho perdeu as idéias, somos comigo 9, tudo espalhado no mundo, eu fiquei...a senhora quer saber por que? Nem eu sei...acho que é a água batendo no pé, tenho essa casa e esse barquinho, preciso mais nada não, não tenho nenhuma ânsia, não tenho sede de mundo, tô tranquilo, esse canto de rio me cabe, pra mim tá bom...
Podia me chamar João, José ou Antônio como o pai, mas mainha cismou me chamar Brasil, seu Brasil Pequeno é como todo mundo me chama, não gosto muito, mas é um apelido miór,né?
A Dorinha encontrei já moça feita, continuava bonita a desgraçada, disse que ia ganhar mundo, me abanou e sorriu bem encarnado, dizem que caiu na vida...
Se sou feliz? Ah, dona...sou sozinho, sem amor até se vive, mas do jeito que dá... não dum jeito de se rir besta, o que seria muito miór!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

sem forçar...

Fui sempre muito precipitada e forçava portas,forçava palavras, forçava minha presença, voltava e insistia quando já haviam claramente se despedido de mim, repetia de novo, de novo, de novo, como um Teletubbies non sense.

Mas isso tudo foi antes, muito antes quando eu ainda voava pelo jardim feito semente, feito pólen, isso foi antes de germinar em lugares das quais me arrancaram por ser impróprio, foi antes de nascer e florescer em frestas.
Foi antes de desenvolver minha alma tatu-bola, que também aprendi no jardim, só que já em terra.
Onde aprendi a me fechar aos toques, a rolar nas insensibilidades, a mudar de direção.
Não faço apologia não é melhor o segundo estágio, ser tatu-bola foi meu ônus, ser semente era puro bônus, voar sem medo e poder germinar é mais gostoso, dar frutos é mais saboroso, virar flor é mais bonito.
Mas vocês devem saber até Darwin defendia isso, quem sobrevive não é o mais forte é quem melhor se adapta, e de alguma forma, virar tatu-bola é minha sobrevivência...
Forçar a presença desgasta, cansa, dói, ouvir durezas deixa o ouvido insensível, deixa o peito áspero, ser arrancado desfaz raízes, ás vezes simplesmente não é a hora, não é a estação, não é primavera...
Voando eu tinha o vento e uma visão de longo alcance, mas aqui em terra firme eu estou mais perto, e espero germinar sem risco, dentro do meu enrodilhado guardo as mesmas sementes, só espero o tempo certo, o raio de sol, a lua e a terra mais fértil...
Espero que a primavera venha logo e alguma criança brincando comigo na palma da mão me leve mais longe do que eu possa ir sozinha caminhando...

todo tempo do mundo...

A gente não tem todo tempo do mundo...só a intenção de tê-lo..e a insconsciência de acreditar na eternidade.
Pra continuarmos e nos justificarmos, nos amparamos nesse postergar, estúpido e infantil.
Não é só por que vi meu pai frágil naquelas roupas verdes e desconfortáveis que todos os hospitais colocam nos pacientes.
Não é só por que eu precisei desesperadamente da ajuda daquelas enfermeiras que parecem estagiárias de anjos.
Não é só por que subitamente a força tinha que ser minha e ela me faltou.
Não é só por que vi meu pai e outras tantas pessoas terem nova chance.
Não é só por que algumas pessoas que eu amava morreram sem que eu tenha tido tempo para dedicar a elas.
Não é só por que sei de tantas palavras mortas nunca ditas a pessoas vivas.
Não é só por que a Mercedes Sosa morreu e minha amiga Carmem nunca vai assistir ao show dela.
Não é só por que estava um dia lindo e virou temporal.
Não é só por que é segunda.
Mas eu sei, hoje mais do que anteontem que o tempo não tem constância, o tempo não tem medida, propósito, previsibilidade... é como esse céu de hoje do azul pro cinza num sopro de vento...
O tempo não tem nenhuma responsabilidade,nós é que temos!

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Tão bonito o comentário do Marcelo, que colo aqui pra todos lerem:
Tudo pode mudar o tempo todo! É a graça e a tragédia da vida! O doce nunca seria tão doce se não houvesse o amargo!

Roda Viva(chico buarque)

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..."

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

As sensações primeiras

"Eu volto aos filmes antigos não apenas para revê-los, mas também com a esperança de reviver as sensações de quando os vi pela primeira vez.(Isso não se aplica apenas aos filmes. Mas a tudo na vida)" David Gilmour-no livro O clube do filme