terça-feira, 11 de agosto de 2009

Virar a página...

Eu gosto imensamente da escritora Adriana Falcão. Tenho a impressão que poderíamos compartilhar bons momentos e boas risadas se um dia fossemos próximas, por isso cada livro que ela assina, me chama a atenção e facilmente cola meu olhar do inicio ao fim. Foi assim também com o livro que acabo de ler: "A arte de virar a página" (2009, editora Fontanar). Com imagens de Leonardo Miranda, despretensiosas frases e fotos que contam fatos corriqueiros do dia-a dia mostram que sempre haverá uma situação nova a cada virar de página, o que minha alma pollyanesca reconhece: "pior que perder alguém que se ama, só se perdêssemos também a memória". É essa Adriana simples que me encanta.

Li essa frase e passei a viajar na memória, que sempre me pareceu uma ficção pessoal e intrasferível, por que sabe-se lá que mecanismo ativa esta ou aquela lembrança? Que sinaliza que esta é uma lembrança a armazenar? De repente vem um cheiro, um som, um toque, uma cena, um gosto e a memória completa o filme.

Fotografia me faz isso, aquele instante paralisado, facilmente cria forma e traz tudo de volta. Um álbum é um arquivo de memória. Deve ser por entender e sentir assim que sofri tanto com um incêdio que teve em minha rua há muito tempo atrás e que me veio à lembrança agora.

Numa casa simples de madeira morava um senhor idoso, mas pouco se sabia dele. Viúvo, arriscavam umas vizinhas, parece que perdeu toda a familia de forma trágica "tricotavam" outras, de fato só se sabia que era um homem de hábitos simples e sozinho, por que não recebia nenhuma visita e todo fim de tarde sentava para tomar chimarrão na porta da casa acompanhado de um rádio de pilha.

A casa, um sobrado de madeira, carecia de cuidados e pintura, mas permanecia inalterada até uma noite, quando incendiou. Muito rapidamente, o sobrado virou enormes labaredas e, mesmo com os bombeiros e a ajuda dos vizinhos, virou tocos de madeiras chamuscados. Não sei o que foi feito do pobre homem, logo o espaço virou uma obra, um edificio e ficou essa memória arquivada entre tantas.

Lembro que, curiosa, cheguei muito perto do vizinho naquela noite, que desconsolado só repetia: "Não consegui salvar nenhuma fotografia, nenhuma fotografia...".

Volto à cena, entendo porque aquela dor me tocou tanto e a solidão daquele homem me pareceu ainda maior e sem possibilidade de consolo. Estavam queimadas suas memórias. Numa noite, em minutos, perdeu de novo toda a família, seus sorrisos, os casamentos, os batismos, os aniversários, a infância da filha, etc... mas isso, já é minha ficção, não sei nada do meu ex- vizinho, além de que era um homem sozinho, de hábitos simples, que não recebia visitas e não teria agora, nem música, nem álbuns de retratos para folhear.

Triste assim. Simples assim...

Na minha tentativa de jogo do contente, torço que ele tenha virado a página... refeito fotografias sorridentes e que more bem acompanhado num outro sobrado branco com janelas azuis recém pintadas.

Um comentário:

Francis Lummertz disse...

adorei isso. esses senhores nos ensinam tanto né... teu texto é muito parecido com dois que recentemente escrevi no blog: a cidade da lembrança e S-20 Orla Zona Sul. Nádia, como lamento por não acompanhar teus textos antes... Beijão.