domingo, 30 de agosto de 2009

Exercícios da terapia...

Interpretar... releitura de textos alheios:

Texto 1:
Tu me conta entre satisfeito e aborrecido do teu exercício bem educado de comprar a cuca que a faxineira traz diariamente, enrolá-la e jogá-la no lixo de casa.
Alimento minha raiva, com tua “educação” prepotente, não existe gentileza em menosprezar dona Maria e sua cuca de banana, mesmo pagando por ela. Enrolar num papel grosso a doçura e a necessidade de reconhecimento que poderiam melhor alimentá-la. Desprezar com civilidade.
Sei dos teus recheios, de não suportar a pobreza, teu preconceito com os ingredientes alheios e a proximidade claustrofóbico dos olhos que demorarem em ti. Sei da tua inabilidade de produzir e saborear doçura, sei da tua sensação de não merecimento muito bem disfarçada.
Sei que é culpa o que equivocadamente chamas educação. Te odeio se auto-elogiando, se julgando um homem bom, por saber pagar e apagar tua culpa no lixo de casa.
A doçura de ser gente vaza e te lambuza em vão.
Patético como esse embrulho íntimo, que só tua casa recebe é o tua incapacidade de compartilhar , de olhar em volta.
Enquanto tu segue sem fome, com esse fastio de quem não quer contato
Eu sigo faminta ao lado do lixo, esperando tua cuca diária intocada.


Texto2:


Minha mãe
me gerou
porcelana branca,
sem detalhes, sem cor,
do tipo mais comum
de fácil reposição.
Minha mãe
não me alimentou
catando migalhas,
que ela maníaca
não deixava cair
me criei
na falta
na ausência
minha mãe
uma cortina de voal
estava sempre voando
frágil
incômoda
decorativa
Minha mãe
me fez temer
sua loucura branca
me fez cúmplice
responsável
ordenado e pesado
como as porcelanas
que nunca me atrevi a quebrar
o ódio é minha coberta de mesa completa

Terapia literária...limites!

Catei uma bolsa na Oficina literária do Fabrício Carpinejar, e digo catei por que foi mesmo um trabalho de garimpeiro, achar entre os grossos cadernos classificados do jornal dominical, o anuncio da oficina, o primeiro a encontrar, ganharia a bolsa, ufa, valeu a procura, entre um anuncio de jazigo e outro lá estava e cá estou...
Nas noites de segunda e quarta Fabrício nos instiga:
"Poema é tensão...não busca de aceitação!
Se a gente quer usar a literatura pra agradar alguém, fudeu com a literatura!
Quem precisa mostrar que sabe, não sabe!
Se cabe pra tudo, não serve pra nada!
O que contar? Por que contar? Qual a intenção? Pra que usar um história?"
...
Aponta meus clichês e todas minhas frases prontas, as rimas raquiticas, os medos e as defesas encravados em textos que já leio com receio,já me reconhecendo não capacitada...
Que sirva pra isso essa terapia, para querer ser mais, coisa que só me reconhecendo menos poderei atingir...
"A linguagem é uma caixa-preta, a linguagem trai e a verdade vem..."

Sem "não" é inviável viver...

No meio de um comentário da Carmen, essa frase do Marcelo me salta aos olhos...
Sem "não" é inviável viver...

sem um NÃO
bem dito
o gosto do SIM
se esvai
e

como arde
um NÃO prescrito


Eu que fui alfabetizada no sim, comedido e "bem educado", no sim recheado de não, mas nunca clareado.
Quero a liberdade dos extremos,quero o meu NÃO bem dito, quero meu não possível e visível á luz do dia,
Quero toda a bendita leveza do meu SIM repleto de desejo, meu sim de sorriso aberto e não amarelo e conformado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Azul que te quero azul!!!

foto Marcelo Nunes

Um pouco de AZUL...
por que hoje é sexta-feira..
amanhã é sábado...
e Alagoas é semana que vem...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

gente-metade

Tenho medo de gente
que se sente metade
pessoas frágeis
meio esgaçadas por dentro
que compulsivas
querem tapar
todos os buracos
emocionais
por onde vazam.

Tenho medo
dessa gente-metade
que aceita de tudo
supondo estar enfim
se complementando
buscam-se
desesperadamente
em bocas e braços
alheios...e
se perdem em si...


Inventam,
falas
personagens
se moldam forjando
encaixe.

Fui metade por anos, sei bem desse surto...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Da acidez...

Uma vez uma senhora me contou, com olhos tristes, que tinha se amargado tanto que havia desenvolvido uma diabete.
_Não somos ostras minha filha, não conseguimos transformar lixo em pérola, em nós lixo engolido, vira doença!
Lembro disso, por que nesse exato momento tenho 3 aftas me ardendo a cada palavra dita, a cada garfada, a cada gole, me impedindo de sorrir aberto e de beijar.

Como fiquei assim tão ácida sou obrigada a me perguntar?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Miedo...

Composição: Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienen miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tienen miedo de subir y miedo de bajar
Tienen miedo de la noche y miedo del azul
Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar
Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienen miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara
Medo de encarar
Medo de calar a boca
Medo de escutar
Medo de passar a perna
Medo de cair
Medo de fazer de conta
Medo de dormir
Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Medo... que dá medo do medo que dá

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Gentileza gera gentileza!

O conselho* é aqui claro e direto: seja gentil. Faça com os outros aquilo que você gostaria que fizessem a você. Exercite ao máximo a sua capacidade de compreensão, de gentileza, conquiste as pessoas com atos singelos.
Tudo o que você precisa, neste momento, não é pedir amor. É dar este amor, sem criar expectativas de retorno.
É quando você parar de cobrar que receberá tudo o que almeja. Você sofrerá testes, no que diz respeito à capacidade de agir de forma compreensiva e gentil. Tente resistir à tentação de pôr pra fora agressividade e grosseria. O uso da palavra delicada, neste momento, faz toda a diferença!

Conselho: Exercite ao máximo a gentileza.

Assista e pratique GENTILEZA- clip lindo de Marisa Monte
*Personare.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

...o amor por André Comte-Sponville

"Uma declaração filosófica de amor

Uma declaração filosófica de amor? Poderia ser, por exemplo, a seguinte:

Há o amor segundo Platão: 'Eu te amo, tu me fazes fal­ta, eu te quero.'

Há o amor segundo Aristóteles ou Spinoza: 'Eu te amo: és a causa da minha alegria, e isso me regozija.'

Há o amor segundo Simone Weil ou Jankélévitch: 'Eu te amo como a mim mesmo, que não sou nada, ou quase nada, eu te amo como Deus nos ama, se é que ele existe, eu te amo como qualquer um: ponho minha força a serviço da tua fra­queza, minha pouca força a serviço da tua imensa fraqueza...'

Eros, philia, agapé: o amor que toma, que só sabe gozar ou sofrer, possuir ou perder; o amor que se regozija e com­partilha, que quer bem a quem nos faz bem; enfim, o amor que aceita e protege, que dá e se entrega, que nem precisa mais ser amado...

Eu te amo de todas essas maneiras: eu te tomo avida­mente, eu compartilho alegremente tua vida, tua cama, teu amor, eu me dou e me abandono suavemente... Obrigado por ser o que és, obrigado por existir e por me ajudar a existir!"


Meu conselho nada filosófico:
para quem já provou e ainda pode desfrutar desse momento dádiva que é sentir-se pleno...agradeça e delicie-se!
para quem ainda não...busque incansavelmente!

O amor não nos dá asas, ele só nos deixa repletos de ar e horizontes, o vôo é por nossa conta..( e risco!)

Virar a página...

Eu gosto imensamente da escritora Adriana Falcão. Tenho a impressão que poderíamos compartilhar bons momentos e boas risadas se um dia fossemos próximas, por isso cada livro que ela assina, me chama a atenção e facilmente cola meu olhar do inicio ao fim. Foi assim também com o livro que acabo de ler: "A arte de virar a página" (2009, editora Fontanar). Com imagens de Leonardo Miranda, despretensiosas frases e fotos que contam fatos corriqueiros do dia-a dia mostram que sempre haverá uma situação nova a cada virar de página, o que minha alma pollyanesca reconhece: "pior que perder alguém que se ama, só se perdêssemos também a memória". É essa Adriana simples que me encanta.

Li essa frase e passei a viajar na memória, que sempre me pareceu uma ficção pessoal e intrasferível, por que sabe-se lá que mecanismo ativa esta ou aquela lembrança? Que sinaliza que esta é uma lembrança a armazenar? De repente vem um cheiro, um som, um toque, uma cena, um gosto e a memória completa o filme.

Fotografia me faz isso, aquele instante paralisado, facilmente cria forma e traz tudo de volta. Um álbum é um arquivo de memória. Deve ser por entender e sentir assim que sofri tanto com um incêdio que teve em minha rua há muito tempo atrás e que me veio à lembrança agora.

Numa casa simples de madeira morava um senhor idoso, mas pouco se sabia dele. Viúvo, arriscavam umas vizinhas, parece que perdeu toda a familia de forma trágica "tricotavam" outras, de fato só se sabia que era um homem de hábitos simples e sozinho, por que não recebia nenhuma visita e todo fim de tarde sentava para tomar chimarrão na porta da casa acompanhado de um rádio de pilha.

A casa, um sobrado de madeira, carecia de cuidados e pintura, mas permanecia inalterada até uma noite, quando incendiou. Muito rapidamente, o sobrado virou enormes labaredas e, mesmo com os bombeiros e a ajuda dos vizinhos, virou tocos de madeiras chamuscados. Não sei o que foi feito do pobre homem, logo o espaço virou uma obra, um edificio e ficou essa memória arquivada entre tantas.

Lembro que, curiosa, cheguei muito perto do vizinho naquela noite, que desconsolado só repetia: "Não consegui salvar nenhuma fotografia, nenhuma fotografia...".

Volto à cena, entendo porque aquela dor me tocou tanto e a solidão daquele homem me pareceu ainda maior e sem possibilidade de consolo. Estavam queimadas suas memórias. Numa noite, em minutos, perdeu de novo toda a família, seus sorrisos, os casamentos, os batismos, os aniversários, a infância da filha, etc... mas isso, já é minha ficção, não sei nada do meu ex- vizinho, além de que era um homem sozinho, de hábitos simples, que não recebia visitas e não teria agora, nem música, nem álbuns de retratos para folhear.

Triste assim. Simples assim...

Na minha tentativa de jogo do contente, torço que ele tenha virado a página... refeito fotografias sorridentes e que more bem acompanhado num outro sobrado branco com janelas azuis recém pintadas.

sábado, 1 de agosto de 2009

Pablo Picasso...

Dizem que Picasso dizia para certas moças quando as encontrava, que já as havia pintado muito antes de conhecê-las, uma inspiração anterior. Partindo de um dos maiores sedutores da história da arte, essa parecia só uma boa "cantada".
Lembro disso por que há pouco encontrei entre uns poeminhas amarelados meus, escritos há mil anos atrás o seguinte:
...me enrosquei nos teus pêlos
tua pele, no teu cheiro
e me aninhei com cuidado
no vão aberto em teu peito...

Assim como me reconheci numa música que ouvia na minha adolescência:
"se eu dia eu chegar
muito estranho
deixa essa água no corpo
lembrar nosso banho
mas se um dia eu chegar
muito louco
deixa essa noite saber
que um dia foi pouco
cuida bem de mim
e então misture tudo
dentro nós..."


Naquela época, eu não tinha esse amor e o conhecimento dessas sensações, não tinha a vivência de paz e intimidade de um banho compartilhado e quanto essa lembrança poderia lavar dores mais adiante, não tinha um peito onde quisesse fazer ninho, eu feito o Picasso, antevia, criava, sonhava esse amor de cuidados...
Inspiração anterior...