segunda-feira, 6 de abril de 2009

na falta de cartas & de amores...


Acho que era o Quintana que dizia que só tinha valor estimativo, sempre achei isso lindo...eu talvez tenha mais valor estimativo e apego do que deveria, na época das cartas eu guardava todas, tinha também bilhetes, rosas secas, papeis de sonho de valsa, folhas de plátano, diários, rolhas de vinho e champagne, até um dia que fiz uma queima de arquivo, fiz meu passado virar cinzas....Como se apego queimasse...
Hoje tenho e-mails guardados, tenho MSNs salvos, continuo a mesma só que a lembrança ocupa menos espaço, lembrança compacta, lembrança em Kb, mas ainda e sempre lembrança guardada, e-mail relido, reprise de emoção...Estou começando a ter certeza que sou um tipinho apegado mesmo e não vai ter budismo que me salve...
Queria postar aqui uma parte de uma carta e-mail que encontrei, vou chamar carta de despedida, só por que acabo de ver um filme italiano gostoso, daqueles que fazem rir sozinha e acreditar que sim, o amor existe:

"Eu li há pouco a importância de escrever cartas de despedida e deixar claro, pras pessoas que passaram por nós, o quanto importante foram em nossas vidas, antes de seguirem. Até pra que todos, possamos seguir inteiros.
Então, eu estou aqui escrevendo uma carta e esperando sinceramente que tu não tenha sujado demasiadamente a nossa lembrança, pra poder me ler desarmado.
Talvez o que eu tenha chamado e esperado ser o AMOR nem exista mesmo, tão mito e fantasioso ficou, tão rima e tão negação de raiva parece, tão fusão, tão união, que chega mesmo a parecer mais prisão e irrealidade, do que asas, leveza e liberdade.
Talvez eu não tenha te amado, mesmo que alguns momentos tenha sentido a sensação quente de querer cuidar e se aconchegar, e que chamei de amor nas vezes que senti e disse.
O fato é que tive contigo momentos muitos gostosos e próximos da intimidade e entrega que considerei o ideal e tudo isso merece brinde e um bom espaço de lembrança colorida.
A parte em preto e branco da lembrança é a sensação de que eu precisaria ser outra pra que fosse possível uma manutenção de paz e felicidade, uma outra, que eu não sou e mesmo que quisesse tentar me submeter e me tornar, não me faria feliz.
Não acredito que as pessoas precisem mudar pra agradar ninguém, e quando começamos a nos querer outros, quando suspiramos o que não temos mais ou que não conseguimos ter, já deixamos de ser nós..."


Releio e repriso essa sensação, amar é não querer do outro, um outro, mas ele na sua totalidade, querer e admirar simplesmente.

Brincando ontem com um amigo, olhando em volta do circo de conquista ao qual não nos enquadrávamos, concordamos: "se pintássemos o cabelo de loiro, usássemos roupas justas e rebolassemos, talvez"... Quem seríamos, travestidos de conquistadores?...Nada admiráveis, nada dignos, e nós esses tipos apegados, que fazem poesia e choram em filmes românticos e colecionam e-mails e lembranças, precisamos de brilhos que não faíscam a olho nú, brilhos nada visíveis, felizmente!

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