sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

e o Caio me acompanha...

A turma da comunicação de Santa Maria era responsável pela feira do livro, e assim fomos rumo a Porto Alegre, falar com livreiros, editoras, escolher livros, convidar pessoas...
Não sei exatamente como o convidado ilustre foi chamado, como aceitou, como veio, mas lembro-o como se fosse hoje, como os dedos muito longos e olhar de uma profundidade sem fim, no coreto da praça autografando, com uma bata branca e uma bandana na cabeça, destacando-se na multidão.
Com uma tranqüilidade zen, que a nós que havíamos devorado seus livros, parecia fervilhar desespero por dentro, observávamos seu silêncio, compenetrados, como discípulos que aguardam uma grande revelação após um suspiro.
Caio bebia chá conosco, esquentava as mãos longas e nos olhava simplesmente, nos via jovens, ansiosos e de algum jeito muito próprio e intimo nos sentia interpretando seus textos, seus pensamentos, suas humanas buscas, dores e contradições. Ele parecia antever que o tempo nos faria surpresas, nem sempre agradáveis, ele parecia entender o quão estúpida e vil a vida pode ser e temia e torcia por nós.
Assim lembro dele, nessa intimidade que a leitura e o silencio dão...
Lembro também das tantas vezes que chorei ao lê-lo, das tantas que voltei a reler um parágrafo ou um conto inteiro, que a minha vida parecia reprisar.
Tive um namorado, que quando me via lendo Caio ia embora, me deixava sozinha, sabia que eu ia precisar algum silêncio e alguma lágrima solitária depois, assim eu e Caio nos entendíamos e fomos íntimos e muito próximos.
A ultima vez que nos vimos, estava já muito debilitado, num show do Péricles Cavalcante, se não me falha a memória, estava ladeado de dois grandes amigos Adriana Calcanhoto e Luciano Alabarse, num degrau aguardava a abertura da sala, lembro que num pedaço de papel escrevi:

quis te dar
um jardim de margaridas
pra encher de primavera o teu agosto
acender sol quente nesse teu ar chuvoso
dar novos gostos, doces
pra desfazer teu desgosto


Mais ou menos isso, um bilhete sem cópia, que ele pegou com os dedos longos e me sorriu, meu desejo vivo de que ele resistisse, brilhasse e me interpretasse por mais tempo...
Ele se foi pouco depois, mas me acompanha em frases que releio e em lembranças que re-visito, como essa.
E me interpreta, em cada fim ou nova dor, quando sigo por que segue o vento e o céu está azul:

..."Não ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy-ends cinderelescos, ela queria acreditar. Até a noite súbita em que não conseguiu mais.
... Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul- aquela não dor, afinal."(ao simulacro da imagérie - Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

os amores quando acabam...

Tenho nostalgia dos amores quando acabam, da velhice de mãos dadas que não viverão, das helenas e das claras tramadas em tarde quentes que jamais nascerão, tenho verdadeira pena desses amores abortados antes das bodas de prata, que cansam de se reinventar, pena das poesias que não mais inspiram e das inspirações que serão enterradas em armário e gavetas, tenho pena do alvoroço que já não provocam, pena das pernas que perambulam no silêncio descompromissado dos bares, pernas que ficavam melhor entrelaçadas, tenho nostalgia de intimidades que não foram atingidas, de desejos que dormirão insatisfeitos...

Sinto isso por todos os amores nos quais pressenti longevidade e me enganei.

Sou uma saudosa de um amor resistente, uma platônica do amor grande, maior que toda crise, uma pessoa que suspira com sonhos e imagens alheias, o amor por tabela também me alimenta, o amor que suponho me alarga a alma.

O amor que sonho sem conseguir perpetuar também me gera pena, mas uma piedade menor, por que imagino fruto da falta de jeito, nunca soube construir castelos, nem de areia nem de cartas, a ansiedade sempre colocou movimento excessivo nas mãos, muitas palavras na minha boca, e muitas delas não tem rima e nem resposta possível, achoque é por isso sobra espaço vago nos meus braços, falta eternidade nos meus projetos.

Assim amo os amores que enxergo, amo a persistência que imagino, terceirizo minha fantasia , projeto e antecipo um "felizes para sempre".

Mas os amores acabam, e alguns tão frágeis nem deixam vestígios.
Quando os finais chegam, uma criança em mim, desiste de continuar
esperando, uma criança em mim, descobre os presentes de natal no guarda-roupa e insiste na tristeza de não ter mais um Papai Noel pra esperar acordada espiando nas janelas...


Querido Papai Noel
Eu quero um amor beeeeeeeeem grande,
maior que eu de presente!!!!


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

desperta...

Gosto de gente
que me faz repensar certezas
gente que implode/explode
algo em mim
sem volta
mina as estruturas frageis
com as quais me mantenho
gente hidroelétrica
que muda o curso do rio
e gera nova energia
com toda a força
represada e redescoberta
Gente que sem noção do que faz
me refaz
num piscar lento de olhos
num sorriso
num olhar demorado
gosto de gente
que espelha minha antítese
me adultera
no sentido mais adultero da palavra
me faz outra!

Assim como em filmes, livros e músicas
gosto de gente que marca
que mexe
e não me deixa sair ilesa

gosto do enlevo
da sensação que uma parte minha
despertou agora
e
gosto
imensamente
desse despertar...

percepção e texto antigos...

Os humanos fogem e se armam; os humanos temem os humanos, temem as demonstrações, as palavras, os silêncios, as reações dos iguais...mesmo que elas sejam carinhosas metem medo.

Será que é do humano a capacidade de ser feliz, tranquilo e estável?

Parece que nos criaram descrentes e impotentes para a felicidade; para o amor também, nos anestesiaram dia após dia descrevendo amor e dor como sinônimos, nos convenceram que os humanos são perigosos e estamos há milênios, fugindo do nosso instinto mais puro, fugindo do encontro (criando muros, cercas, medos, racionalizações e impossibilidades)

Dos animais, o homem é o mais despreparado para a vida espontânea-o único totalmente dependente dos demais humanos e que nega isso constantemente!

Estamos todos humanamente sozinhos por receio ou reconhecimento de nossas fragilidades? Pobres de nós!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

no verde tentando ser e aprender...



Quando as situações me atingem frontalmente, para o bem ou para o mal, as palavras sempre me parecem falhas para descrevê-las, mesmo que eu sempre tenha a intenção de compartilhar as emoções, algumas eu sei, não conseguirei...
Digo isso por que gostaria de contar o TUDODELINDO que foi o Integria e a Oficina literária do Fabricio Carpinejar, sobre as delicias que a Maria Alice e o Esteban aprontam na cozinha, sobre a paz que sinto por lá, sobre o rio que me povoa de infancia, sobre as pessoas que conheci, olhei profundamente e abracei, sobre as palavras e a paixão da escrita acesas em todos nós pelo Fabro, sobre as risadas, a cumplicidade, as alegrias e as dificuldades que senti, sobre uma paixão platônica que relembrei e dormiu enroscada na minha lembrança desde lá, sobre uma Nadia de quem eu quero me reaproximar... o que eu posso dizer e não vai ser nem perto do que senti, é que esse tempo, me trouxe uma confirmação de que o caminho é mesmo esse...o caminho é tentar ser e aprender sempre, não se contentar feito girino nadando feliz em poça d'agua, é se enfrentar e se superar...de pés e coração descalços.

Só pra registrar, aqui vão as duas crônicas bem pequnenas feitas por lá:(saimos todos querendo mais)

Ela já estava na casa quando cheguei.
Amarela, dona do pátio, prepotente, me olhava distante e fria: A gata loira!
Foi nessa época que desenvolvi horror de gatos, ela era superior a mim no domínio, ela não trocava, não me queria ali, eu era a turista,ela a propriétária.
Tentei pratos de leite, servil como quem precisa ser aceita, cobertor, caixa pra dormir, cuidados e carinhos, aos quais ela virava as costas, gorda e impassível.
Cada dia mais insuportável, minha rejeição personificada.
Espiava seus movimentos e um dia soube, estava grávida; me acalentei com a possibilidade de filhotes frágeis e carinhosos.
Que nada, na manhã seguinte a uma noite de miados roucos, lá estava ela diabólica, ao lado de três cabeças de filhotes mortos.
Enquanto a gata loira foi levada embora num saco de estopa eu fiquei com o pátio inteiro pra mim e com a lembrança:
Mães podem devorar filhos!
Ainda bem que a minha era morena,tentei me convencer em vão...

********
Egoísmo é uma espécie de zumbido que fez trilha sonora á todos os meus domingos de infância: Rádio, jogo de futebol em rádio.
Diante de um pai absorto e fanático, eu ficava triste, revoltada e só.
Tentei torcer para o Internacional e ouvir algum sentido naqueles rituais gritados e vermelhos; eram tardes onde eu, na beira da mesa, catava migalhas de atenção e fingia vibrar sem abraço, por gols e títulos alheios.
Manga, Figueroa, Lula, Minelli...precisava gostar, esquecer ou participar, mas aquele rádio tonteando sempre ligado, me doía.
Resolvi, se a atenção não era mesmo possível, queria ao menos um domingo em silêncio; juntei a mesada, comprei um rádio pequeno com fones de ouvido e dei de presente para o meu pai.
Em troca ganhei um pai ainda mais distante, que agora parecendo débil, gritava os lances em voz alta e ria sozinho.
Penso agora, talvez não fosse egoísta aquele rádio de antes. Ele tentava compartilhar sua alegria, partilha impossível , já que nunca consegui perdoar aquele pai tão feliz e alheio a mim.
Egoísmo mesmo, foi o meu silêncio vermelho de raiva e torto como os dedos do Manga.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

ninho..

É preciso
dar ninho pros filhotinhos na alma
que nem todo os bichos assustam
uns fazem companhia
e outros, os mais terríveis
nos pertencem, nos permeiam,
são tão nossos, quanto os cheiros
que transpiramos, únicos
fazem nova pele e as vezes couraça
fazem a emoção perder o rumo
e escorrer cara a fora

como o engasgo que surge quando a palavra não basta
como o tecido do coração que de tanto ser , esgaça
quero a leveza das garças

graça e nudez
livre e sem manto
tua mão fuçando minha alma nua
o brilho do amor recém desperto
acendendo a noite
e eu rindo displicente e tua

tua demora
me faz dobrar esquinas nessa espera vã
que nada costura
faz rasuras com minhas palavras
a fonte que seca por anos, ontem desaguou
com mesmo frescor de um antes

voamos em círculo
seres alados...desaprenderam a parar
como seres calados...que desaprendem de falar
e desacreditam dos verbos
a procura do que já nem sabem
feito oração decorada de domingo
coração guardado pra não gastar
a vontade desenfreada inoportuna

veio com gosto de antigamente
teu amor, que parecia mudo, hoje não cala
transformei-o em acalanto
de repente me fiz rua, só pra te ver passar
em poça me transformei
pra te ver menino brincando
de libertar barcos e cais
quis apagar do dicionários, o jamais
reconstruir catedrais
de translucidas saudades

o amor que me veio, trouxe brisa e rede
me abriu espaço no peito
com jeito, de quem faz ninho
.
aquece-alimenta e cuida
e vibra o desabrochar
esse amor na verdade
não voltou/ nem veio agora
era uma história
que não desisti de sonhar
esteve desde sempre
aquecido em banho-maria
eu sempre uma guria
ele sempre o meu rapaz

*poesia ON-LINE A 4 MÃOS, I e N, para o amor que virá!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

modernidades....



Eu penso e ás vezes tento esquecer por que me acho arcaica, uma espécie de dinossauro emocional ao pensar assim, mas não adianta,o pensamento sempre volta: Onde pessoas que beijam sem antes e fazem sexo sem depois podem chegar?
Quem não chega a se conhecer, a se admirar ou se saber antes, não pode construir nada, não pode sequer desenvolver alguma afetividade, não pode compartilhar...
Não me admiro que num futuro bem próximo as palavras do Dráuzio se realizem, mas o que me apavora é que além de não saber o que fazer com os órgãos, terão esquecido como é amar...
Está lançada minha humilde campanha por buscarmos a INTIMIDADE, a AFETIVIDADE e a GENTILEZA essas deliciosidades que tem sido esquecidas amontoadas entre detalhes superficiais e medos...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

depois do filme.."foi apenas um sonho"...

Buscar ser feliz ou ao menos lutar contra o vazio e a falta de esperança, desenhando um novo sentido, é um ato de coragem!
Quando "sanidade" aplaudida se afirma na negação dos desejos, na sublimação, na acomodação, querer ser ou fazer diferente faz muito barulho e incomoda demais!
Acredito que a razão de viver está na busca de uma tal felicidade, que é vizinha da paz de sermos plenos e estarmos empenhados nisso, um ciclo!

Numa sociedade que acredita que a manutenção da ordem e da estabilidade são demonstrações de saúde mental, querer ser feliz rompendo dogmas e estigmas, é uma "loucura", um risco, que o dia-a-dia, as obrigações facilmente nos estimulam a evitar...

Tristeza e vazio completo se nos deixarmos levar por tudo isso, ou melhor se nos deixarmos ficar, parados nisso tudo...Mudar é preciso!

Ter no que acreditar e ter uma razão pra seguir, isso é ser FELIZ!!
SEJAMOS!!!!