segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

um hom...bom...

A primeira vez que lembro dele, enxerguei um menino que com olhos brilhantes fazia maravilhas em forma de imagem e cor, era engraçado e pouco se levava a sério...Eu tinha um amor adolescente tranqüilo e me divertia ouvindo os relatos da relação complicada que ele tinha na época, viviam brigando, ele tomava fogos homéricos tentando reconciliação e chorava dizendo: “ eu sou um hom-bom”...
Tempos depois convivíamos trabalhávamos, ele era um ótimo colega, brilhante, divertido, amigos. Um dia fora de qualquer contexto ou planejamento, fui surpreendida por uma emoção nova numa troca de olhares gulosos, fugi o que pude da situação até que mergulhei, e amanhecemos rindo e dançando algumas vezes, ele ainda era um menino que não levava nada a sério...e talvez por isso não tenha enxergado o tanto que mexeu comigo, com meu tranquilo amor adolescente e com a minha vida, o tanto que me frustrou e me magoou, a cena dele e da namorada reconciliados na minha frente enquanto eu “naturalmente” engolia choro misturado com churrasco. Pouco tempo pra tanto drama ele diria, e riria, então nem ficou sabendo ou talvez tenha recebido alguma carta, que escrevi e sei lá se mandei, onde eu falava inspirada no Caio Fernando Abreu de que eu esperava que ele fosse uma avenca e ele tinha virado árvore e tinha raízes e que crescia...eu era mais dramática aos vinte e poucos anos e me apaixonava profundamente.

Tu conheceu a Laura? Me pergunta mil anos depois quando nos reencontramos...Sim, eu conheci a Laura e por um tempo te dividi com ela, e perdi, seria a resposta, que se calou frente a qualquer comentário bobo...A Laura já tinha virado amiga, nós já tínhamos virado conhecidos distantes, vinte anos, é muito tempo!
Fui novamente surpreendida, quis ser aquela que há vinte e tantos anos, cultivava avencas e árvores e disponível, derrubava paredes para comportá-las, aquela que se apaixonava por olhares brilhantes, possibilidades e podia amanhecer para continuar sorrindo, pra continuar dançando, pra continuar iluminada, de um jeito que só uma paixão pode acender...
Embora ele não tenha me amado e me visto inteiramente há vinte anos atrás e nem saiba as tantas paredes que precisei derrubar ou refazer nesses anos todos, eu talvez deva vê-lo agora, como um homem bom, por me trazer a lembrança de volta, por me despertar essa saudade de mim, esse desejo de luz e por me convidar pra dançar, mesmo que a gente não tenha acertado o ritmo!

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