domingo, 25 de janeiro de 2009

ela já sabia
o quanto a vida
não previa ensaio
e já tinha abandonado
a estúpida prepotência
meso adolescente
de ter tudo sob controle
de ter a resposta certa
na ponta da língua
já tinha abandonado também
a urgência
e a sensação boba
de que alguém a preencheria
abandonou a busca insana
de si mesma em braços alheios
e os beijos de língua dispersos
e sem outro sentido
que não a satisfação bálsamo
que ela também já sabia
não vinha com sexo
e sim com entrega

já não era uma dor reconhecer
que a vida era um jogo
do qual ela desconhecia
as regras
falava com estranhos
e ria sozinha
e seguia as vezes com alívio
por estar seguindo
e não estar parada
feito poça d'agua
tinha desses orgulhos
de ser resistente
sobrevivente
de estar

em alguns domingos á noite
brindava a vida
mesmo sem ter nenhum controle
planejamento, técnica,estratégia
ela se sabia vencendo
a si mesma
o que já é muito
o que talvez seja tudo
ela já se sabia
e nenhum personagem cabia
nessas horas de sossego e lua
ela se queria exatamente
assim como havia sido

sossegada
dormia abraçada
na paz de ser/estar inteira....

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

arsenal de luz...

Tenho um amigo brilhante que afirma: confiança e virgindade só se perdem uma vez...
E o Caio Fernando Abreu que sempre foi meu escritor-Gêmeo diz igualmente com brilho: “nós podemos passar a vida inteira sem ver, mas a partir do momento que espiarmos, nunca mais seremos os mesmos”.
Ando convivendo com relações que se rompem longos casamentos que sucumbem, projetos que perdem a validade, confianças perdidas e irrecuperáveis e sou obrigada a pensar: será que adiamos esse espiar para preservarmos nossa ingenuidade e tranqüilidade? Ou será que como bem diz a filosofia oriental: “o mestre só aparece quando o discípulo está pronto”?
O fato é que é sempre com muita dor e despreparo e dúvida que damos por encerrado e frustrado um sonho.
Apego, diriam os budistas, e concordo que este é um grande mal do homem.
Orgulho, outro grande mal, diriam os mais elevados.
Infantilidade suponho no melhor sentido dela.
Acredito que uma parte crédula da nossa alma, armazena um arsenal de fé, certeza e desejo aceso que trazemos intactos desde a infância, o que nos serve de gerador de força e luz.
É assustador perceber que estamos maculando nosso depósito, e á cada projeto malogrado, á cada relação falida, á cada injustiça sofrida, á cada realidade brutal, nosso arsenal sofre uma ruptura e por ali, esvaímos e perdemos essência.
Por isso os pontos finais são tão difíceis, por que não se perde só um ou outro desejo, uma que outra relação, perde-se leveza, perde-se espontaneidade, perde-se o prazer de acreditar, perde-se nossa criança!
Já que ainda é janeiro, e resolvemos que tudo começa, quero desejar que esse mundo tão duro, não nos endureça que esse tempo tão estressado, não nos enlouqueça que nossos arsenais de infância sejam mais resistentes e poderosos que os golpes futuros, e que a gente enxergue o que for preciso, sem jamais perder a virgindade do olhar e a confiança.
“A força e a felicidade são qualidades da alma” que em 2009 a gente acredite e brilhe!


Foto Vicente Sampaio

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Caixa DOIS...Fabrício Carpinejar

Como o amor pode ser tão perdulário em seu início e tão pão-duro em seu final? Como um homem ou uma mulher se doam no começo como santos para se expulsarem depois com a implicância de demônios? Como a celebração desemboca em exorcismo? Será que a avareza do final foi disfarçada no começo? Ou aquilo que temos deixamos de ser?

Complicado equacionar essa resposta. Se o homem ou a mulher fossem o que são no enlace não haveria desenlace. Mas eles mudam. Mudam drasticamente. No início, o amor é perdulário. Gasta o que não viu. Dedica-se a seduzir como um disciplinado marceneiro. Tudo é plaina e curva. Rosa de madeira e pétalas líquidas. Enamoradas, as pessoas contam tudo, abrem suas histórias, memórias, acidentes, virtudes e proezas com uma franqueza incomparável. Em três dias, parecem que nasceram para estarem ali, um de frente ao outro, um no outro. Não se desgrudam, não se soltam. Cedem para agradar, dançam se não gostam de dançar, escutam jazz se não gostam de jazz, comem o que sentem alergia. Vencem os preconceitos e os princípios com uma espontaneidade infantil. Entregam seus mais valiosos bens sem fazer inventário. Quando conseguem ficar juntos, a entrega mútua assume a formalidade do compromisso e os dois vão esfriando a passionalidade e entram no transe 'de já nos conhecemos". E ficam ríspidos, rigorosos, rígidos dia após dia. A generosidade seminal se transmuda em indigência. As questões se reduzem à rotina e ao que precisam comer no jantar. O sorriso é esgar, contração facial involuntária, de quem não se mantém atento e está em coma. Adentra-se no terreno da audição seletiva, do fingimento. "Eu finjo de escutar e tu finges falar; tu finges escutar, eu finjo falar". Transam pela proximidade física, não pela proximidade afetiva. Antes abertos e transparentes, agora não se fala mais nada, não se confessa mais nada, se amam e dizer isso de vez em quando basta. Não basta. Sabe-se que não basta dizer "eu te amo". A gente não pode amar uma certeza. Ama-se uma verdade. Ama-se uma mentira. Uma certeza, nunca. Pode-se no máximo concordar com uma certeza, não participar. O amor é um quebra-cabeça ao contrário, há sempre uma peça por começar, nunca uma peça por terminar.

O que acontece para a troca total resultar em privação adulta? Poupa-se o amor. Economiza-se o amor. Canaliza-se a energia do amor para outros fins (afinal, ele continuará existindo). Todo amor tem um caixa dois. Todo amor tem um ladrão, um paraíso fiscal, onde alguém desvia os recursos, as experiências e a vontade que deveriam ser utilizados para a aproximação constante do casal. O amor termina não pela falta de compreensão, de amizade e de desejo, termina sim porque um dos dois quis tirar vantagem sozinho e deixou de colaborar para a imaginação. A corrupção do amor é mais alta do que a corrupção do político, pois envolve pureza e lealdade. O amor ainda não conheceu verdadeiramente a democracia
.

Como eu queria acreditar que não é assim ou que não é amor o que assim contamina e termina, mas infelizmente devo admitir que o Carpinejar mais uma vez falou por mim...e é por medo de tudo isso que continuo com meus namoros apaixonados e de períodos restritos, a paixão dura 2 anos no máximo...então, namoro ela!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

um hom...bom...

A primeira vez que lembro dele, enxerguei um menino que com olhos brilhantes fazia maravilhas em forma de imagem e cor, era engraçado e pouco se levava a sério...Eu tinha um amor adolescente tranqüilo e me divertia ouvindo os relatos da relação complicada que ele tinha na época, viviam brigando, ele tomava fogos homéricos tentando reconciliação e chorava dizendo: “ eu sou um hom-bom”...
Tempos depois convivíamos trabalhávamos, ele era um ótimo colega, brilhante, divertido, amigos. Um dia fora de qualquer contexto ou planejamento, fui surpreendida por uma emoção nova numa troca de olhares gulosos, fugi o que pude da situação até que mergulhei, e amanhecemos rindo e dançando algumas vezes, ele ainda era um menino que não levava nada a sério...e talvez por isso não tenha enxergado o tanto que mexeu comigo, com meu tranquilo amor adolescente e com a minha vida, o tanto que me frustrou e me magoou, a cena dele e da namorada reconciliados na minha frente enquanto eu “naturalmente” engolia choro misturado com churrasco. Pouco tempo pra tanto drama ele diria, e riria, então nem ficou sabendo ou talvez tenha recebido alguma carta, que escrevi e sei lá se mandei, onde eu falava inspirada no Caio Fernando Abreu de que eu esperava que ele fosse uma avenca e ele tinha virado árvore e tinha raízes e que crescia...eu era mais dramática aos vinte e poucos anos e me apaixonava profundamente.

Tu conheceu a Laura? Me pergunta mil anos depois quando nos reencontramos...Sim, eu conheci a Laura e por um tempo te dividi com ela, e perdi, seria a resposta, que se calou frente a qualquer comentário bobo...A Laura já tinha virado amiga, nós já tínhamos virado conhecidos distantes, vinte anos, é muito tempo!
Fui novamente surpreendida, quis ser aquela que há vinte e tantos anos, cultivava avencas e árvores e disponível, derrubava paredes para comportá-las, aquela que se apaixonava por olhares brilhantes, possibilidades e podia amanhecer para continuar sorrindo, pra continuar dançando, pra continuar iluminada, de um jeito que só uma paixão pode acender...
Embora ele não tenha me amado e me visto inteiramente há vinte anos atrás e nem saiba as tantas paredes que precisei derrubar ou refazer nesses anos todos, eu talvez deva vê-lo agora, como um homem bom, por me trazer a lembrança de volta, por me despertar essa saudade de mim, esse desejo de luz e por me convidar pra dançar, mesmo que a gente não tenha acertado o ritmo!

domingo, 4 de janeiro de 2009

uma só voz...



ABENÇOADO E LINDO o tempo que nos dermos conta que somos todos uma só VOZ e CANTARMOS EM PAZ!
Que 2009 nos traga mais sabedoria e sentido de bando!