quarta-feira, 10 de setembro de 2008

acendendo lembranças e primaveras...




A turma da comunicação de Santa Maria era responsável pela feira do livro, e assim fomos rumo a porto alegre, falar com livreiros, editoras, escolher livros, convidar pessoas...Não sei exatamente como o convidado ilustre foi chamado, como aceitou, como veio, mas lembro-o como se fosse hoje, como os dedos muito longos e olhar de uma profundidade sem fim, no coreto da praça autografando, com uma bata branca e uma bandana na cabeça, destacando-se na multidão. Com uma tranqüilidade zen, que a nós que havíamos devorado seus livros, parecia fervilhar desespero por dentro, observávamos seu silêncio, compenetrados, como discípulos que aguardam uma grande revelação após um suspiro. Caio bebia chá conosco, esquentava as mãos longas e nos olhava simplesmente, nos via jovens, ansiosos e de algum jeito muito próprio e intimo nos sentia interpretando seus textos, seus pensamentos, suas humanas buscas, dores e contradições. Ele parecia antever que o tempo nos faria surpresas, nem sempre agradáveis, ele parecia entender o quão estúpida e vil a vida pode ser e temia e torcia por nós. Assim lembro dele, nessa intimidade que a leitura e o silencio dão...

Lembro também das tantas vezes que chorei ao lê-lo, das tantas que voltei a reler um parágrafo ou um conto inteiro, que a minha vida parecia reprisar. Tive um namorado, que quando me via lendo Caio ia embora, me deixava sozinha, sabia que eu ia precisar algum silêncio e alguma lágrima solitária depois, assim eu e Caio nos entendíamos e fomos íntimos e muito próximos.

A ultima vez que nos vimos, estava já muito debilitado, num show do Péricles Cavalcante, se não me falha a memória, estava ladeado de dois grandes amigos Adriana Calcanhoto e Luciano Alabarse, num degrau aguardava a abertura da sala, lembro que num pedaço de papel escrevi:
quis te dar um jardim de margaridas
pra encher de primavera
o teu agosto
acender sol quente
nesse teu ar chuvoso
dar novos gostos, doces
pra desfazer teu desgosto

Mais ou menos isso, um bilhete sem cópia, que ele pegou com os dedos longos e me sorriu, meu desejo vivo de que ele resistisse, brilhasse e me interpretasse por mais tempo...
Ele se foi pouco depois, mas me acompanha em frases que releio e em lembranças que re-visito, como essa. E me interpreta, em cada fim ou nova dor, quando sigo por que segue o vento e o céu está azul:
..."Não ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy-ends cinderelescos, ela queria acreditar. Até a noite súbita em que não conseguiu mais. ... Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul- aquela não dor, afinal."(ao simulacro da imagérie - Caio Fernando Abreu)

E em cada recomeço, quando de um jeito não tolo, volto a querer acreditar. E por pura magia do querer, acendo primaveras e faço sol.

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