terça-feira, 27 de maio de 2008

Saramago e Meirelles...emoção sólida...compartilhada...

Espero que tenhamos em vida, muitos momentos assim, não de cegueira, mas de luz, da pura luz que é uma emoção que nenhuma palavras pode descrever...



Encontro com Saramago em cinema de Lisboa por FERNANDO MEIRELLES (ESPECIAL PARA A FOLHA)

Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme "Ensaio sobre a Cegueira" para o autor da história, José Saramago. Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso -e não estava errado. Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma. Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: "Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever "O Ensaio sobre a Cegueira'". Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa. Na conversa e no jantar que se seguiram, ele disse que não considera o filme um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente. Disse ter gostado da experiência de ver algo que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não conhecia. Falou que o filme não era perfeito, mas que nunca havia assistido a um filme perfeito. Comentou algumas imagens que o emocionaram especialmente e disse ter achado o nosso Cão das Lágrimas muito doce; preferia que fosse mais agressivo. Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha, ele imediatamente lembrou e recontou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança. Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto um velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com o grupo e reclama da situação: "Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado?".Então, os dois montam no burro, mas alguém acha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno. Finalmente, resolvem ambos carregar o burro nas costas, até que outro passante observa como são estúpidos por carregar o animal. E, enfim, o velho decide voltar para a primeira situação e parar de dar importância ao que dizem. "É isso que faço sempre", concluiu o escritor. Acabo de deixar José Saramago e sua mulher no Ministério da Cultura de Portugal, onde está sendo exibida uma retrospectiva de seu trabalho e sua vida. Houve uma pequena coletiva de imprensa ali, depois de visitarmos juntos a exposição. Meu filminho de menos de duas horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira. FERNANDO MEIRELLES é o diretor de "Ensaio sobre a Cegueira", "Cidade de Deus" (2002) e "O Jardineiro Fiel" (2005), entre outros

terça-feira, 20 de maio de 2008

singular - plural

surda-muda-absurda
com quereres
dissonantes

tão mais simples
quando leve

não calculava
palavras e quereres

nada me feria,
antes...

.....

surdos-mudos-absurdos
com quereres
dissonantes

tão mais simples
quando leves

não calculávamos
palavras e quereres

nada nos feria,
antes...
A liberdade não se veste bem
não tem bons modos,
não liga para o que os outros vão dizer,
Ser absolutamente livre tem um ônus
que poucos se atrevem a pagar.

Martha Medeiros

sábado, 17 de maio de 2008

magia & paz

Eu não sonhei ser mãe, assim como nunca me imaginei vestida de noiva, nem escalando o everest , talvez meu receio de não ser capaz
para tais façanhas,
me travassem até o sonho...


Mas o fato é que mãe, eu um dia soube que seria, sem planejamento, uma vidinha tinha se instalado dentro de mim e foi mágica a força que ter aquele outro coração batendo dentro, me deu, aquela barriga crescendo, junto com o medo de não ser mesmo capaz...os seios se enchendo de leite e a vida toda se preparando pra minha filha...meu bebê que nasceu, me olhou nos olhos e eu soube, era mais que um sonho, era a própria realização, nós ali inteiras e entregues, e ela me olhando fundo e sorvendo amor em forma de leite...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

amar sem medo...

O telefone grita estridente em cima da mesa, ela dá de ombros, é meu namorado diz com um meio sorriso.
Vocês brigaram? Perguntamos quase em coro. Ah, as mulheres são curiosas, e quando o assunto é relacionamento, sempre querem saber por quês.
Não, ela diz quase displicente, mas ele anda muito seguro.
O telefone gritou mais uma vez e foi desligado sem dó.
Minutos antes, um torpedo do amor novo da outra, ainda lhe garantia um sorriso apaixonado e uma resposta quase imediata e suspirante.
A terceira, num inicio de crise no namoro e na auto-estima, impressionada com a frieza da primeira, perguntou : Funciona?
A apaixonada reagiu: Deus me livre um relacionamento onde eu precise ficar jogando desse jeito, brincando de esconde-esconde, fomentando a insegurança, não demonstrando o que estou sentindo...Como pode funcionar não ser de verdade?
A primeira bebeu o chopp calmamente, e como se tecendo uma tese sociológica disse: Eles gostam de conquistar...mais do que gostam, precisam...Aprendi, com o último, não me entrego!
A terceira tomou seu chopp com o olhar perdido, e como se tomada de uma súbita consciência dos seus enganos, constatou: Vai saber o que funciona, eu fico tentando evitar atrito, sou uma namorada parceira e legal, não reclamo, não brigo, não tenho chilique, engulo meus ciúmes, não deixo ele ter um pingo de dúvida ou insegurança e aí, fica essa coisa morna, pareço disponível, me sinto péssima e o bonito, todo confiante, se esquece de me fazer importante. Aposto que ele acha que amor, amor de verdade, era o que sentia pela ex-louca, que fazia da vida dele uma gangorra, a que estava sempre indo embora...Brigando e fazendo as pazes em cenas cinematográficas.
A apaixonada e eu sacudímos a cabeça e bebemos, engolindo caladas, nossa dose.
Não saberíamos jamais qual a real medida, nem a ideal medida de demonstração, ou se poderíamos considerar alguma igualdade de medida para homens e mulheres.
Entre nós, mulheres quais seria o ideal? Os: eu te amoooooooooooooo!! Diárias declarações saudosas do Orkut de uma, se aquela foto do casal sorridente, sem legenda da outra, se as mensagens escritas em depoimentos de leitura exclusiva do namorado de outra, se o telefone tocando solitário, se o torpedo respondido na hora, se a saudade dita de madrugada, se o silêncio do jogo, se o eu te amo dito numa hora de emoção, se o “eu também” dito depois de um eu te amo claramente expresso.
Pedimos outra rodada, brindamos nossa total ignorância no assunto.
Bem no fundo, carecíamos demonstrações sinceras e espontâneas, amores gostosos e cinematográficos, que jamais ficassem mornos. Todas nós tínhamos a mesma necessidade: amar sem medo...E todas, tínhamos muito amor pra dar e medo!

no sol de amanhã voaremos...

É impressionante a nossa capacidade de puxar o pé pra baixo perto de um precipício, de desconsiderar nossas asas e o nosso poder de superação.
Às vezes caímos nas nossas próprias ciladas, ficamos rodando em circulo numa valorização excessiva da dor, arrancando cascas de ferida, cutucando nossas incapacidades, infiltrando infelicidade, incutindo muito mais doença do que seria necessário pra fazer a vacina. Nas proximidades de queda, quando estou saudável, tento sempre olhar o sol, como a águia que criada como galinha nunca aprendeu a voar e só querendo atingir a luz consegue parar de ciscar e se desprender.

Tendo também lembrar de um quadrinho do Garfield, quando ele obeso ficou preso numa janela e concluiu sábio: "um dia ainda vou rir muito disso." E do Nelson Ned (era um cantor de antigamente) que se esganiçava cantando:.." E tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará.." ...

Leminski sempre soube disso:
Sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora
Calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

É isso, não importa o tamanho da dor, logo adiante a gente goza... felicidade é se lambuzar com gosto gozo
Viver é ficar exposto...

Hoje, exposta e ciscando, preciso lembrar de tudo isso...

geração fast-food

Eu estou há tempos sentindo que esse nosso mundo está demasiado fast-food, e não só pelo comer rápido e empoleirado, coisa lamentável que até o Mario Quintana já tinha percebido. O mundo está FAST, rápido, sem tempo pra parar, sem tempo pra respirar, tudo numa urgência assombrosa, tudo pra ontem, tudo e todos nessa ânsia de futuro, sem tempo de estar aqui...
E se não bastasse esse correr ansioso sem saber aonde chegar...Ainda mais FOOD...
Um amigo recém saído de uma relação me descreveu com precisão o que até então me incomodava, mas ainda não tinha nome: “estou me sentindo num Buffet... num buffet de café colonial, com fome de quem não almoçou pra se empanturrar aqui!” E ele estava falando de gente!
Geração ou espécie fast-food, com ânsias de buffet...Geração bulimia, que vai comer de tudo sem nem sentir o gosto e depois jogar fora...Assim estão quase todos que enxergo, correndo, como o coelhinho da Alice no país das maravilhas ou comendo: gente, sensações, sapos, e tudo mais que vier, já que a ordem parece ser não deixar de provar nada!

Um bando de “crianças”, que queriam uma “happy family” antes de entrar na loja de brinquedos e agora fascinados querem tudo, e pra tudo/todos tem olhos gulosos, ansiosos e urgentes!
Tempo difíceis pra quem queria ser happy...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Rituais & Celebrações

Dia desses ouvi uma psicóloga dizer que as crianças de hoje, já não tem tempo de desejar. Aí percebi isso se estende aos adultos também, em geral as pessoas estão entediadas e tristes, como crianças ricas que já tem todos os brinquedos e descobriram que papai noel nunca existiu...

E ainda assim correm, sem saber aonde ir, não param, não respiram direito, mal olham, mal se tocam, mal se comunicam, não se entregam, se medicam, se adulteram, não se pensam, passam batido, ansiando pelo que já nem adivinham...perderam o detalhe.

Triste estado de coisificação do todo, de desritualização da vida.

Sou favorável as cerimônias, não as burocráticas com discursos e políticos engomados em textos que saem da boca pra fora...Essas eu odeio!

Sou favorável aos rituais de passagem e as cerimônias, lembrei agora de uma frase querida do pequeno príncipe, onde a raposa diz: "Se tu vens, por exemplo, ás 4 da tarde, desde ás 3 serei feliz!".

Falo é disso, desse poder de felicidade interior e anterior, falo desse ritual de espera com seus perfumes, velas, jantares, banhos, com seus sorrisos antecipados, falo das possibilidades reverenciadas, falo do prazer de desejar e da capacidade de nos permitirmos esse tempo e da sabedoria de valorizá-lo.

Falo de rituais que podem ser bobos, aos olhos que desaprenderam a ver, falo de se dar devido valor: ao silêncio, as músicas, as conversas em torno das mesas, aos brindes, as leituras, falo de prazeres genuínos como pra mim tem o café com leite e pão com manteiga bem saboreado, falo da alegria dos encontros, de abraço demorado em quem se ama, falo de cheiro de comida feita em casa, banho de banheira, falo da gratidão por se ter uma família e uma casa, por se ter amigos pra contar, falo de rir para o sol num verão fora de hora como hoje, de compartilhar a lua, de andar de pés descalços, de comer doce de infância, falo de celebração em todas as formas, deveria ser uma alegria nova estarmos vivos, mais um dia!...E isso pode soar tão estúpido e falso como os discursos dos políticos lá de cima, mas estúpida mesmo, é nossa inconsciência ao não absorvermos da vida tudo o que ela está nos dando, a toda a hora.

Quando perdemos a capacidade de nos deliciarmos. Perdemos luz e viramos crianças tristes, que já não se surpreendem nem desejam nada. Perdemos o espírito do natal, que é muito mais que os presentes e papai noel.

Acredite em mim, o segredo é celebrar tudo o quanto se ganha, a felicidade, está no detalhe!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

VIDA X VERSÃO

Quem me conhece sabe que acredito em sinais, fadas, gnomos, e afins, e mais que isso, sei que Deus me ama e fica no meu “bico” e quando percebe que estou capenga, desacreditando, triste, deprimida, Ele faz coisas esplêndidas: lua que me espia das esquinas enorme, pôr-do-sol de mil cores, crianças sorridentes, chuvas de verão, árvores e ruas floridas, arco-íris (dias desses nos deu dois), nuvens com formas, velhinhos de mãos dadas e por aí vai, mas incontestavelmente a melhor forma de todas, é mandar anjos pra falar comigo, fez isso um dia, numa viagem curta de lotação, uma senhora sentou ao meu lado e me reconstitui a necessidade de acreditar em pouquíssimas palavras.
Ele sabe que gosto muito da palavra e conhece minha facilidade de puxar papo com desconhecidos, digamos que me conhece tão bem, que usa isso ao meu favor.
Vamos ao anjo de pouco tempo atrás, entro num ônibus para uma viagem curta, de umas duas horas e tenho ao meu lado uma pessoa que cumprimento amistoso e recebo igual saudação, em minutos falávamos de livros, depois filmes, emoções e rapidinho falávamos de nossas próprias histórias. Esse anjo veio me falar de versões, de como podemos fazer avaliações e justificativas bem específicas, de como cada pessoa pode contar a sua verdade e ambas terem uma visão da verdade, não menos verdadeira, mas própria e com um objetivo, que é ter razão.
Triste quando ao invés de viver o que nos bate no coração e nos assalta a alma, temos a pretensão de controlar a história, de acharmos fortes razões para vivê-la e na maioria das vezes não vivê-la, sob justificativas irrecusáveis, podemos ser nossos maiores inimigos, nossos próprios vilões, estancando a emoção que não sabemos viver, deixando os medos falarem mais alto que as curiosidades, deixando o riso entre dentes temendo o que a superexposição de um sorriso aberto pode gerar, enquanto vivemos assim comedidos e cheios de dedos, podemos ter as versões mais racionais nos aplaudindo e uma insatisfação sem fim nos atordoando, por que vontade adiada ás vezes passa, mas normalmente só faz crescer, tipo problema engolido, se mistura e por dentro fica enorme e disforme, vida represada um dia deságua, benta enchente, humana!
Rimos muito eu e meu anjo particular, das bobagens que já fizemos, dos medos que já tivemos, dos amores que nem chegaram a ser, das nossas versões tão embasadas que até pareciam verdades imutáveis, ao final da viagem, eu e meu anjo, já íntimos, nos abraçamos e perdoamos nossas humanidades e nos desejamos um caminho mais iluminado, com mais certezas que medos, e de um jeito muito suave, sabíamos que Ele tinha nos colocado ali, anjos, com uma intenção muito simples, nos incentivar a viver de verdade ao invés de tecer versões.

mexida por dentro...

Ando vendo e lendo coisas que tem me mexido por dentro, na praia foi o Osho lembrando:“quem tem um complexo de inferioridade está sempre esperando que alguém o insulte”, que logo ampliei para a compreensão de todos os complexos e dificuldades de comunicação e relacionamento humanos, depois as Cartas do Caio “a partir de agora quero que a vida seja hoje”, revi p filme “as horas” com tantas dores de difícil solução. Volta a lembrança triste e amarga da minha avó que cultivava dores como samambaias e com quem nunca consegui trocar, as pessoas que convivo e insistem em dificultar ainda mais a vida, perdendo detalhes deliciosos e diários, lembro eu mesmo de agora e de antes.
Ah, a vida não é brincadeira, num dado momento, nos tira as certezas nos deixa caídos e desamparados, é a passagem do sonho para realidade que é sempre um abismo louco & longo... de onde podemos alçar vôo ou cair para sempre. Viver é esse exercício de fazer escolhas, assim definitivas entre a vida e a morte, entre viver cada minuto com o peso da responsabilidade de ser único ou com a leveza de que é frágil, passageiro e só nos resta vivê-lo intensamente (ou não) mas sempre seremos donos da história e da escolha.
Já fui mais pesada em relação a vida, um bom saturno (capricórnio) carregando minha casa natal e dando um jeito meio cinza e dramático de viver, eu era triste e depressiva...me alimentava de dores e lia Fernando Pessoa, Clarisse, Cortázar,Caio Fernando Abreu, Lia Luft,etc... era quase um exercício de silêncio&solidão...difícil explicar, mas naquele tempo era como se ser feliz fosse um egoísmo extremo, uma inconsciência, uma alienação...
Mas PASSOU! Não sei se foi por que o Renato Russo disse que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, ou por que deixei de me levar a sério, ou por que a vida ficou tão caótica que ficou cômica, ou se foi a lua em leão, ou meu ascendente que é peixes e me amoleceu, ou se foi por que minha barriga fez nenê e ter vida dentro da gente muda o fluxo, ah, eu não sei... de repente, não queria mais fomentar a dor, foi como se a tal felicidade, que eu sempre soube merecer e procurava em bocas e braços alheios, me fizesse um "psiu" me chamando para dentro, como se a consciência tivesse descoberto a Bahia, e brincasse nas águas de Arraial, foi assim num minuto qualquer que optei pela vida,
A leveza da vida, não me queria mais exposta e em carne viva,
deixei de cutucar as feridas de sempre, de espalhar pelo caminho as pedras que fatalmente me derrubavam, me perdoei de várias asneiras, deixei de engessar os braços antes de subir nos muros, de criar pontes quebradas me impossibilitando seguir, talvez tenha sido Manoel da Barros que me disse "que os passarinhos de NY também tem duas patas e que tudo era só vento e aflição do espírito"...foi um soma de pequenos detalhes, poesias, palavras, filmes, foi beijos gostoso que passaram sem deixar um gosto ácido na boca, foi alguns abraços, alguns sonhos que reinventei, cores que voltei a ver, foi a vida me convidando prá dançar, e dessa vez não era tango.... Hoje sei que as dores todas eram minhas, criadas por mim, vendo através da lente dos meus complexos, super valorizando meus medos, minha incapacidade de me encarar , eram diques ... palavras entaladas na garganta que só sabiam arder, culpas, medos, sufoco...eram meus escudos.
A vida é linda, brilha...e se ás vezes dói, é como diz a Virgínia no filme “as horas”: "é preciso alguém morrer para os outros valorizarem a vida"... talvez a Nádia sem esperança tenha morrido, mas a que ficou está voando...refiz minhas asas, é sempre primavera, vento norte e eu mereço! Merecemos!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

mulheres fortes

Conheço mulheres fortes, não essa força de bíceps, mal conseguem abrir uma garrafa de vinho, ninguém lhes deu esse legado, nem foi espada, talvez sejam fortes por que não tiveram outro jeito...E em certos momentos ou a pessoa se fortalece ou se quebra...
Conheci A. veio lá de uma cidade pequena pra essa cidade, que era enorme, se perdia nas ruas, tinha vontade de correr pro colo do pai e da mãe, chorava impunemente na rua (com um certo alívio, em cidade pequena isso era impossível), mas tinha convicção de que era uma escolha e que se desistisse, ia sentir-se um nada...Continuou, firme, até que essa cidade não lhe assustou mais, até já fazer parte, até já ser dona ou pseudo, do seu nariz.Tudo que chorou e enfraqueceu virou história virou base e lá estava A. Ganhando a cidade e a força!
Conheci B... Cheia de planos românticos ia conhecer a Europa, junto com o namorado, o namoro acabou um mês antes da viagem, já estava de passagem comprada, planos feitos e foi, com um parco inglês e um livrinho de frases prontas, conhecer o mundo. Achou a Europa enorme, linda, conheceu o que pode, o que planejou, parou em albergues,de mochila nas costas, conheceu o mundo e a ela mesma um pouco mais e furou uma bota de tanto andar...viajou sozinha, conheceu pessoas e voltou feliz!
Conheci C... Ficou grávida, de um namoro longo, mas o “amor” se confundiu, rejeitou a idéia, tinha outros planos, receios e achava melhor não...Ela, que não queria abortar, descobriu uma força extra e ali com uma barriga enorme, tratou de traçar novos planos, casa nova, não tinha espaço pra enfraquecer, tinha uma vidinha por dentro, que precisava de luz e de todo o amor e força que ela conseguisse...E conseguiu! Não teve um pai pertinho, falando com a barriga e ajudando a segurar o “rojão”, mas foi na medida do possível uma grávida feliz!
Conheci D...Que contrariando as opiniões da família, casou com um psicopata charmoso, que lhe roubou a paz, o dinheiro, à auto-estima e só não foi infeliz “pra sempre” por que amparada por uma amiga, vencendo todas as vergonhas e engolindo todos os sonhos, foi a Delegacia da Mulher e ao IML registrar ocorrência das agressões que sofria.
Conheci E... Que descobriu um câncer no seio e um companheiro que não tinha muita habilidade para tratar com doenças, que não sabia como encararia a quimioterapia e que muito insensivelmente resolveu que não estava “preparado”e sumiu.
A vida não perguntou para A, B, C, D ou E... se estavam preparadas se apresentou e elas como aquele personagem desenho animado, se obrigaram a gritar: “EU TENHO A FORÇA!!!!!!”
Só que assim algumas desistiram de fazer planos futuros, começaram a parecer totalmente independente, se convenceram que viajar sozinha é que era bom, que ir ao cinema sozinha é que era bom, que ter uma gravidez sozinha era bom, assim desse jeito torto e com muito choro na chuva, aprenderam a serem fortes, a usar furadeira, a trocar lâmpadas e resistências de chuveiro, a não pedir ajuda, a não depender de ninguém, a não esperar por ninguém...
Muitas delas (quase todo a abecedário), andam por aí sozinhas e muitas por razões diversas, temem novas relações, temem a intimidade. Mas pergunte a A, B, C, D....se gostam de ser/estar assim, com certeza ouvirá quase em coro que: “ Tudo na vida é melhor com parceria, compartilhado, com cumplicidade!”
Aprenderam a viver sozinhas, mas essa solidão não foi escolha. Para algumas virou tese, virou defesa, virou talvez dureza e negação, talvez tenha se travestido de “força” e provavelmente com toda essa “força” andaram mascarando e se afastando de um tanto de sonhos que por falta de espaço, parceria ou viabilidade, resolveram desconsiderar.
Talvez A.B. C. D. E... Só precisem voltar a se mostrar, só precisem reconhecer que ser sensível, não é uma fraqueza, querer colo de pai e mãe e um amor pra viajar junto e compartilhar vida e compras no supermercado também não... Talvez só precisem aprender a pedir ajuda e encontrar melhores parceiros de viagem...E assim deixar de sofrer o que passou!

Como diz L: “nós somos a regra, não a exceção!” Ou alguém aí conhece quem não sofreu? Quem nunca se frustrou? Quem nunca amou sem ser amado? Quem nunca sofreu uma rejeição?
Só quem está vivo e tentando, passa por isso.
E “ter a força” é não desistir!

viver profissionalmente!

Foi depois de assistir Amadores (especial da rede globo), que me veio à certeza...Aliás, da boca do personagem interpretado por Murilo Benício: “Se levar em conta à vida média do brasileiro, temos mais 40 anos, temos agora a chance de não mais agir como amadores, entramos no que costumam chamar segundo tempo”, eu entrando no próprio concordei, já não tenho mais desculpas, nem tempo pra me negar, pra me fazer de desentendida, pra não prestar atenção, pra empurrar com a barriga, pra fazer de conta que não é comigo, está mais do que na hora de assumir o compromisso de viver direito!
Sei que desde os sumérius o tempo é calculado em períodos de 60 segundos, horas, meses e anos... (foram eles, né?) Mas o tempo, fora o cronômetro é estranho... A vida tem pesos e medidas pessoais, há quem talvez conte ganhos, o que adquiriu, o patrimônio, mais ou menos assim: o ano que construí a casa, o ano que comprei a casa da praia, o ano que comprei a Toyota dos meus sonhos, o ano que me tornei sócio-gerente, etc...Deve haver os que contem amores: os anos que namorei o fulano, o ano que não tive ninguém, mais os anos que vivi com o sicrano, etc... Deve haver os que contem viagens: o ano que fui a Paris, o ano que conheci a Austrália, o ano que não consegui tirar férias, etc...
Agora percebo, não importa não existe certo e errado nisso de viver, não importa qual seja o parâmetro: quer ganhar dinheiro, ganhe, mas tenha objetivos prazerosos e desfrute do que suar para ganhar.
Quer viver para amar, se permita, se não foi com o fulano, nem com sicrano, vai tentando, quem quer viver de amor, será infeliz se fechar o coração pra balanço.
No cálculo futuro, pela magia do tempo, aquela viagem de final de semana pode contar por um mês, aquele amorzinho vagabundo que te consumiu um ano, pode ter a mesma importância de um dia, aquele sonho concretizado pode valer mais de ano.
Felizmente a vida me deu uma filha linda e umas vivências que me deram essa consciência, foi quando abandonei a corrida maluca e comecei a curtir detalhes e instantinhos... Assim que reconheço o quanto à vida é rara! Ok, ela também não para!
E o Lenine canta muito bem isso:
“... mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, eu sei. A vida não para”.
Como criança cheia de energia, curiosa, hiper ativa, não se cansa, às vezes brinca de se esconder, pregar peças, pula na nossa frente, grita, sacode os braços, a vida é bem interessante, às vezes nos mostras cores diferentes nas árvores, flores pelo chão, sol e lua inusitados, ás vezes nos põe cara a cara com o passado, ás vezes nos faz usar fantasias, ás vezes nos faz chorar, ás vezes nos faz cócegas, e ás vezes nos convida pra voar...
Inquieta nos sacode toda as manhãs, nos cutuca quando cochilamos, nos enche de perguntas ás vezes bobas, ás vezes embaraçosas, não se contenta com nossas justificativas furadas, nos cobra coerência, nos cobra ação, nos enche de culpa quando desistimos, nos dá insônia quando não estamos fazendo do jeito que ela quer.
A vida nos quer em movimento, nos quer sempre inteiros, apaixonados, quer dispor do nosso melhor olhar, nossos beijos, nossos suspiros, nossos sorrisos...A vida não se contenta com pouco, e quando nos percebe desistentes, inventa cores, inventa amores, provoca encontros, pega nossa coração e leva pra passear...

A vida é rara, de uma beleza impressionante... E sem dúvida nenhuma, uma dádiva...
A vida nos quer ALEGRES e PLENOS! Ela nos dá um tempo, mas depois, não quer mais nosso amadorismo, nossas dúvidas, quer todo nosso empenho, quer toda nossa dedicação, nossa super experiência, depois dos 40 ela quer que sejamos profissionais nisso, sejamos!